terça-feira, 27 de maio de 2008

No aeroporto

E então uma grossa camada de neblina baixou sobre Guarulhos mudando os rumos das coisas.

Olá, ia escrever um post sobre o clima de aeroporto. Vejo que o blog está infestado de percepções sobre viagens de ônibus e poucas sobre os vôos. Então, em Guarulhos, comecei a rascunhar este post, mas o caminhar dos acontecimentos o levou para outra direção. Preferi colocá-lo aí embaixo na íntegra. Ficou um pouco longo, mas contei com a atenção imaginária de vocês enquanto escrevia, espero que possa contar novamente agora na leitura:


A infeliz mulher vestida de rosa, a falante latina, o grandioso grupo de chineses, mulheres com lenço na cabeça, homens gordos com camisetas de listras horizontais, rapazes em seus velozes notebooks. Estou parado em Guarulhos. O aeroporto está fechado por causa do mau tempo e meu vôo não tem previsão de saída (a mulher acaba de informar novamente no sistema de som que o vôo está retido). Sei lá quanto tempo fico aqui e, cansado de ler o livro de English grammar, rascunho algumas palavras.

Queria falar sobre esse microcosmo chamado aeroporto. Um lugar que, a exemplo do filme O Terminal com Tom Hanks, as pessoas transformam no próprio lar.

Daqui de onde estou vejo um homem espichado entre duas poltronas; dorme sobremaneira. O grupo de chineses acaba de passar por ele e voltam a tomar seus lugares. Falam alto e acenam. A mulher triste mantém a cara amarrada e encara uma criança. Ao meu lado, uma moça tira o notebook da mochila e começa a dedilhar e, na poltrona de trás, a falante latina fala sobre as belezas do Brasil. Ela deve ser argentina e seu interlocutor espanhol.

O olhar triste da outra mulher talvez seja reflexo de sua condição: ela vive sobre uma cadeira de rodas ( não que isso justifique caras amarradas. Tenho uma amiga cadeirante, a Dê, que é uma das almas mais alegres que jamais conheci). Já tinha visto a moça triste e sua família enquanto perambulava pela livraria Laselva. E já por lá ela mostrava na face os dissabores da vida.

A falante continua que é só sorrisos para o amigo espanhol. Falam sobre os modos de pronúncia do Brasil. Sim, ela é brasileira: comentou sobre o 'e' do Sul do país e o 'r' de São Paulo. O espanhol parece interessado e arrisco dizer que se o vôo atrasar mais um pouco a brasileira ganha esta fácil, fácil.

Os chineses também conversam, mas em seu idioma sinistro. Suspeito que não pertençam a apenas um grupo. Conheci há poucos o grupo menor, oito chineses jogando baralho em pleno aeroporto. A empolgação dos gringos chamou a atenção de quem passava por perto, inclusive a minha. Sentei ao lado e tentei entender a regra do jogo, mas não tive sucesso. As cartas têm caracteres chineses e os jogadores vão colocando uma sobre a outra sem qualquer sentido aparente. Ao menos não para mim.

O que percebi, no entanto, foi que os chineses, em sua maioria, são calvos e têm problemas de visão. Dos oito jogadores que fazem parte de minha amostragem, 100% são calvos e 72,5% usam óculos. Também usam camisas, cintos, calças tergal e tênis Nike.

A despeito do atraso dos vôos, o aeroporto parece bastante calmo. Sempre sinto no aeroporto esse clima inebriante. Caminhei há poucos entre passageiros no piso inferior. Vi olhares tensos, rostos cansados, pessoas debruçadas no braço das poltronas e outras honestamente estiradas no chão.

Outra partida se inicia entre os china. A falante mantém a aula de língua portuguesa e a triste mulher se encolhe entre duas poltronas. E no sistema de som, interrompendo o correr rápido de minha caneta, o cara anuncia que um dos quatro vôos foi transferido para o aeroporto de Campinas. Falta de teto em Guarulhos. "Londrina foi pro saco", satirizou um cara aqui do lado em referência ao vôo transferido para Viracopos. Falta saber o destino dos outros três...

(...)

0h32. Continuo no aeroporto. Estou ao lado da jogatina dos chineses. Esqueci de dizer: a mulher brasileira e o espanhol estavam no vôo para Londrina e seguem juntos de ônibus para Campinas. O destino deles agora está nas mãos de Deus... ou na lábia da brasileira.

Aqui atrás, um cara de cabeça raspada e boné vermelho falou ao amigo: "Vamos formar uma dupla e desafiá-los para o truco"...

DO SOM: "Passageiros do vôo 3557 com destino a Foz do Iguaçu, informamos que seu vôo sairá do aeroporto de Viracopos!"

Jogo o bloquinho na mochila e esta nas costas. Com o olhar me despeço dos chineses, das pessoas com seus notebooks, dos dorminhocos de Guarulhos, da moça triste que se encolhe na poltrona. Preciso pegar as malas. Volto a escrever de Viracopos.

(...)

Não teve jeito. Nós fomos mesmo um dos vôos selecionados e embarcaremos em Viracopos. Vim de Campinas até Guarulhos para agora voltar pra lá. Estou em frente ao aeroporto do Guarulhos esperando o ônibus. A chinesada também vai junto. A noite vai ser longa, mas a julgar pela companhia, deve ser animada. Volto em breve.

(...)

Aeroporto de Viracopos, 2h48. Pessoas apoiadas no braço das poltronas, outras plenamente dormindo. Notebooks abertos, rostos cansados, bocejos. Aeroporto é tudo igual.

Estou morrendo de sono e, ao menos para mim, essa brincadeira perdeu a graça. O pessoal se aglomera em um único portão, esperando os vôos. O homem gordo de camiseta de listras horizontais também está aqui e a chinesada não está para carteado.

É a primeira vez que piso em Viracopos e não pude analisar direito o aeroporto. Vi todas as lojas fechadas, inclusive a onipresente Laselva. Espaço amplo, perfeito cenário para as pessoas e suas esperas. Aeroporto é tudo igual. Mas ao menos uma vez na vida, a TAM vai ter que fazer um vôo Campinas-Foz.

Está acontecendo uma onda de reclamações lá na frente, vou ver o que é...

(...)

Avião da TAM, 3h passadas. Fui o primeiro a entrar. Acomodei-me na poltrona 21F, de modo que a asa não atrapalhe a minha vista (janelinha é fundamental). Não sei se são do mesmo grupo, mas alguns chineses sentaram-se ao meu lado. Desconfio que este pequeno grupo nem seja de chineses a julgar pelos traços (aliás, não sei nem se aqueles da jogatina o são). Vou perguntar para essa moça de camisa vermelha, óculos e olhos rasgados aqui do meu lado: "Are you chineses?". "No, corean", respondeu. Deveria desconfiar do sotaque com as palavras bastante acentuadas no final da frase (como o Jin e a San do Lost, ou todos do filme Old Boy). A moça riu e comentou ao colega ao lado sobre minha pergunta. Em coreano.

Agora faz silêncio na aeronave. Estamos naquela pausa entre a entrada das pessoas e o enfim levantar do vôo. Vou tentar dormir e talvez pela primeira vez recuse o lanche da TAM (nada de suco de manga para mim). Talvez. Bastante cansado, despeço de vocês que me acompanharam até aqui. E com uma instantaneidade tabajara, posto tudo no blog quando enfim chegar em casa.


Postado depois:

Cheguei na casa do Flávio às 5h50 da manhã. Dormi meia hora e tive que levantar para ir ao trabalho. Sono acumulado. Não aguentei e tomei o suco de manga da TAM. Sou um vendido. Só agora concluo o registro, publicando este post, e agradeço a todos que chegaram ao final dele.

4 comentários:

enio rodrigo disse...

Post longo como a viagem..=D

jean carlo disse...

tipo, achei engraçado o percentual de "chineses" que usam oculos e são calvos uhaua.

poxa, tomou o suco de maga=/ eca, deve ser uma maravilha xD

Deninha disse...

Nossa que odisséia!
Eu no auge da crise dos aeroportos (se não me engano foi até na volta do 1º Orkontro) fiquei 8h no aeroporto de Congonhas esperando voltar.. Minha distração lá foram 2 crianças de cerca de 2 anos que estavam no mesmo voo. O que acho engraçado é que eles, pra tornar a espera mais suave, sempre anunciam pequenos atrasos tipo 20 minutos e qdo chega no horário esperado eles colocam mais 20, depois mais 20, depois mais 20... Nunca dão o susto direto

Juttel disse...

Boa narrativa brother... Até que tu manja um pouquinho desse negócio de escrever. hehehehehehe

Agora eu quero ver tu conseguir fazer esse blog ampliar a variedade de usuários que comentam. Será q tu é o kra?