domingo, 4 de maio de 2008

Observações de uma viagem de ônibus

Meu affair com ônibus e viagens é antigo. Remonta ao tempo em que morava em Curitiba e visitava vez ou outra meus pais em Medianeira. Como essa semana eu não fui pra Campinas, segue um texto de gaveta: uma viagem de ônibus que fiz em agosto de 2004, após um período de férias. O texto foi escrito no próprio ônibus e transcrito posteriormente para o computador. Reparem como algumas implicâncias resistem ao tempo:

Observações de uma viagem de ônibus

A luz vem do banco de trás. Vou aproveitar para escrever alguma coisa. Ônibus leito a preço convencional. Estou voltando para Curitiba depois das férias em Medianeira. Meu banco range, o menino ao lado já vomitou, a velha da frente comeu seu galeto e eu continuo... mas sigo para Curitiba com este simpático agricultor do Paraguai ao meu lado.

Escrevo sobre os bancos de ônibus leito. Bem, se o ônibus é leito não deveriam ser bancos, mas leitos. Nada mais óbvio. No entanto os bancos são bem reclináveis, chegando próximo aos 180º propostos pelo leito. Não é o bastante, mas vá lá.

É isso que me incomoda, se os bancos conseguem encontrar uma angulação na quase perfeita horizontalidade, eles precisam se espichar para um lado. É aí que entram as pernas. O banco da frente, quando está totalmente abaixado, fica muito próximo das minhas pernas, sobrando alguns poucos centímetros de margem de erro. Assim, para se virar ou colocar o sapato tirado horas atrás é um sufoco.

Sem falar na privacidade que é perdida totalmente nestes bancos de super inclinação. Agora imaginem o passageiro que está sentado atrás de meu banco. Se eu estou todo espichado no meu quase leito e o colega atrás está com o banco levantado, ele fica com o rosto muito próximo da minha cabeça. Às vezes, enquanto lê um livro, ele pode desviar o olhar para o topo de minha cabeça e ficar reparando nos meus redemoinhos. Quem sabe até saiba o que eu estou sonhando enquanto durmo inocentemente.

Sei que num ônibus leito, com suas poltronas de quase leito, você estará sendo atacado por todos os lados. Ora a mulher gorda da frente que desaba a poltrona sobre as pernas, pondo em risco a sua capacidade de voltar a andar. Ora o parceiro de trás que sorrateiramente fica de posse de todos os seus segredos, desde sonhos até falhas de cabelo. Ora o amigo ao lado com seu cotovelo de aço ou seu filho de estômago fraco.

Mas uma viagem de ônibus é assim mesmo. Aqui na poltrona ao lado da janela, me refugio e contemplo a amiga Lua que passeia sozinha do lado de fora. E tento me livrar das ameaças de mais uma viagem de ônibus.

4 comentários:

Adriana disse...

cara, eu tbém tenho um pouco dessas viagens em ônibus leito...

alessandro disse...

Murilo, vc é genial cara, parabens pelo trabalho

Renato Mahalo disse...

muito bom!

Murilo Alves Pereira disse...

Valeu pessoal, obrigado pelo alô. Vocês são bem-vindos aqui. É só passar no guichê e comprar a passagem.

Abração.