terça-feira, 20 de maio de 2008

Pequena viagem

A vida também tem as suas pequenas viagens. Não fui a Campinas esta semana, fiquei para a cobertura do Fórum Global sobre Energias Renováveis, que acontece em Foz do Igauçu. Evitei as longas viagens de ônibus e avião, mas não fiquei imune às curtas. É terça-feira e o trabalho me segurou mais uma vez em Foz, perdi a van de novo e volto para casa de ônibus. Viagem curta, Foz para Medianeira, mas quem disse que pequenos trechos não rendem alguns rascunhos?

Resolvi pegar da caneta e escrever essas linhas (que depois coloco no blog) porque estou sem o que ler. Mas também para contar uma singela cena que acabo de ver através da janela, aqui na primeira poltrona do ônibus.

O Princesa dos Campos começa a se mexer, mas por algum tempo ficou lado a lado com o Catarinense. No carro vizinho, um jovem casal de adolescentes se despedia de forma demorada. (Certa vez me disseram que rodoviária é o local mais triste do mundo, eu mesmo já tive meus momentos de fraqueza, mas a cena de há poucos foi particularmente tocante).

A menina abraçava o rapaz com carinho. Pareceu-me uma despedida de dois amigos, aquele esfregar gostoso das mãos nas costas um do outro, aqueles rostos coladinhos. Mas definitivamente eram um casal: após as carícias, eles se encararam e se beijaram. Mas o beijo foi estranho, de frente, não do jeito convencional, de rostos cruzados para que as línguas se encontrem com facilidade. De frente, quase um selinho mais demorado. E por várias vezes, como se cada beijo representasse a falta que um faria ao outro dali para a frente.

A menina beijou o menino mais algumas vezes. Muitos beijos de frente em ritmo acelerado, prolongando a despedida. Mas uma amiga da menina fez o favor de lembrar o tardar da hora. A apaixonada deu o último beijo e se virou bruscamente em direção ao ônibus.

Notei com atenção a expressão do casal recém-separado pelo ônibus. O rapaz ficou de olhar manso e cândido, seguindo a menina com os olhos. A menina entregou a passagem ao motorista e secou uma lágrima teimosa na base do olho. Subiu depresa as escadas e não voltou o olhar para trás.

Talvez para ela terminava ali a sua pequena viagem.

4 comentários:

Deninha disse...

Engraçado é que eu gosto muito do clima de rodoviárias... Elas pra mim são um misto de emoções variadas.. alegria, tristeza, reencontro, despedida, saudade, momentos inesquecíveis, ansiedade, cansaço, ânimo de chegar, desânimo de voltar...
Espero passar emoções assim por muitas outras vezes!

Murilo Alves Pereira disse...

Obrigado pelo comentário Deninha. Em breve vou colocar um texto sobre sensações de rodoviária, este microcosmo tão interessante.

Paulo disse...

Que bonito, rapaz. Vc escreve muito bem Murilo. tocou fundo. Vc conseguiu passar aquilo que poucos conseguem transmitir. emoção. Demais.

Mensageiro disse...

Rodoviária...
Rodo, rodo, rodo e nunca encontrei uma definição exata para o que sinto nesses locais, e nos aeroportos também...
Todos locais de partida, hehehehe

Mas, acho que a sua definição ficou excelente Murilo.
Abrações, Thiago