quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Quarta-feira. O dia do sol

O sol já tinha se escondido no horizonte quando passei pelo Terevaka. Era o dia em que a luz do astro rei fez a maior diferença: de seu nascer emocionante atrás de Tongariki, passando por sua fúria no meio da tarde e culminando em seu último suspiro entre as montanhas que cercam o maior dos vulcões. Meu quarto dia na Ilha de Páscoa foi o dia do sol. Para o bem e para o mal.

O nascer

Acordara às 5h40, ainda escuro, ouvindo grilos e galos. Queria café e, como não encontrara copo de plástico, sai bebericando em um tapauér redondo. Era cedo, combinara com os italianos e com Sophia que os encontraria no centro, às 6h15. No carro, o casal estava animado, enquanto Sophia não só se escondia atrás dos óculos como se afundava no banco traseiro. CouchSurfing como eu, ela deveria ter ido conosco no encontro. Não foi, mas a noite deve ter sido boa.

O décimo sexto moai. Não perca o nascer do sol no ahu Tongariki

Pela estrada, no escuro, o italiano Guido dirigia devagar (não resisto ao trocadilho: "guidare" é "dirigir" em italiano). Nesta hora, muitos cavalos atravessam a pista, é recomendável cautela. Fizemos o mesmo percurso do dia anterior, mas, desta vez, sem parar nos moais derrubados. Pelo contrário, mirávamos aqueles 15 bem de pé.

O nascer do sol no Ahu Tongariki é uma das experiências pela qual você, leitor, deve passar quando for à Ilha. Nesta época, no fim do ano, ele surge bem atrás dos 15 moais. A sensação é única. Arrumei minha máquina fotográfica sobre o tripé, escolhi o melhor ângulo e esperei.

Os 15 homens de Tongariki, o maior ahu de Ilha de Páscoa

Temos, pois, uns 20 minutos antes que o astro surja. Dá tempo para falar sobre os 15 moais de Tongariki – o maior deles pesa 88 toneladas. Com 200 metros, o ahu é o maior de Páscoa. Foi restaurado em 1996 em uma parceria entre os governos do Chile e do Japão. Em 1960, um tsunami tinha jogado as estátuas 100 metros a frente. Como todos ahus, a plataforma de Tongariki é feita de paredes de basalto com um recheio de cascalho. Sua parte traseira é vertical enquanto a frente tem uma rampa. Nos fundos do ahu, havia crematórios onde eram descartados os corpos dos chefes do clã.

Silhuetas em Tongariki. Chile e Japão colocaram os moais de volta em pé

O sol surgiria no mar, nas costas dos moais. Isso mesmo, nas costas. Com exceção do Ahu Akivi (falo sobre ele no próximo texto) todos os moais ficam de costas para o mar, voltando para o interior da ilha. A ideia é que ele marque presença no cotidiano da comunidade. Por isso, diante deles havia uma praça e, em alguns ahus, as melhores casas (hare paenga) destinadas aos sacerdores e chefes.



Opa, muita conversa. O sol surge no horizonte. Eu sempre gostei desta sensação: sentir no rosto o calor dos primeiros raios solares (lembro-me disso no Salar de Uyuni, na Bolívia, em 2009). A diferença, desta vez, era a silhueta dos 15 gigantes. Diverti-me fazendo fotos e depois correndo próximo ao mar para ver as ondas surrarem a rocha logo pela manhã. Peguei a segunda porção de água para minha coleção. Estava agitado.

Depois do nascer do sol no Tongariki, o mar, logo pela manhã, fazendo seu trabalho

Mas meus amigos tinham pressa de devolver o carro e fomos embora...

O auge

Ainda era manhã quando arrumei minhas malas na casa de Rober. Meu amigo se recuperava de uma inflamação na garganta que o deixara em stand by este tempo todo. Gente boa o Roberto, um autêntico CouchSurfing que prega este espírito de camaradagem, amizade, receber bem. Um amigo.

Sai da casa de Rober e me despedi de Simon, o gato, que vivia ronronando para mim sempre que me via. "O Rober nunca alimenta este animal", pensei. Falando em bicho, no caminho para o hostel Mihinoa, como sempre, fui seguido por cachorros. Eles estão por toda parte. Prepare-se, andar com uma matilha ao redor é quase um esporte local.



Instalei-me no hostel e curti o tempo quente. O sol torrava. Impossível dormir no quarto, imagine nas barracas do camping? Não estava a fim de fazer nada, fiquei conversando com Cris, um jovem mestre cervejeiro canadense. “Não ganho muito, mas faço o que gosto”, disse o gringo. Fui ver o oceano, o sol ardia nas costas. Matei algum tempo lendo a biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Mota. Azul da cor do mar, pensei, Tim deve ter visitado esta ilha.

Mas aí fiquei entediado e fui caminhar no centro.

O pôr

Não tinha planos para o dia. Andava à paisana, de tênis casual, sem mantimentos. Encontrei o casal italiano no centro e lembrei-me que, pela manhã, tinha combinado de tomar um café com eles. Também não tinham pressa. Sobrava ainda dois meses de viagem, antes de voltar para Roma e tocar os negócios. Guido, 41, e Francesca, 33, são proprietários de um pub-tabacaria na capital italiana e estão abrindo outro em Barcelona, Espanha. Em seu último dia na ilha, subiriam o Rano Kau. Depois fariam tatuagens nos braços, ele um moai, ela um tangata-maru, e seguiriam viagem pelo Chile.

Dia de sol, mar e caminhada

Segui eu a minha. Comprei alguns pães, uma água, e fui ao museu. Cheguei no exato momento em que os portões estavam fechando. Próximo ao Tahai novamente, fui ver o mar. Olhei para o norte da ilha, teríamos ainda algumas horas de sol. Pensei. Resolvi caminhar, tendo a costa noroeste sempre à minha esquerda. Uma voltinha rápida? Foi o dia em que mais andei em toda a viagem.

O sol ainda estava alto. Mal sabia que, com este tênis aí, caminharia o dia todo

Era fim de tarde, passei pelo Ahu Akapu, apreciei o mar: o azul tornando-se branco ao se chocar com as rochas negras. Azul, branco e preto, se os Rapa Nui tivessem um time de futebol, estas seriam as cores de seu uniforme. Caminhava por um talude quando, de repente, um penhasco! O mar visto de cima, a fúria das ondas e dois jovens pescando lá embaixo nas pedras.

Paredões e ilhotas açoitados pelo mar furioso. Estava perdido, mas valeu a pena

Já tinha andado bastante, o sol brincava no céu querendo se aproximar do horizonte. Era tarde, seria mais sensato voltar pelo mesmo caminho. Não sou nada sensato (um sobrevivente, lembra?). Peguei uma estrada rural e fui ziguezagueando, desviando de cavalos selvagens. Passei por pontos importantes – Ana Kakenga (a casa das duas ventanas), o Ahu Te Peu, mas minha maior preocupação era com o sol que insistia em ir embora. Já estava escuro quando passei pelos pés do Terevaka.



Os pés doíam devido ao péssimo calçado. Foi o nativo Carlos Puku, 22 anos, casado e pai de uma criança, que me salvou. Deu uma ré de 50 metros quando me viu pelo retrovisor, gritando na estrada. Tinha trabalhado o dia inteiro na roça e àquela hora, ia vistoriar a construção da própria casa. "Hay que trabajar”, dizia orgulhoso. Puku me deixou na estrada de Anakena, mais movimentada, onde consegui rápido outra carona para o centro. Estava salvo.

Sozinho em Ilha de Páscoa pouco antes de ser salvo por um nativo

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Terça-feira. A ilha dos moais tombados

O clima estava belicoso na Ilha de Páscoa por volta de 1680. Devido ao desastre ambiental iniciado cerca de dois séculos antes, o poder dos chefes ruiu, a sociedade entrou em guerra civil e os clãs começaram a derrubar os moais uns dos outros. O árduo trabalho de séculos para esculpir, transportar e levantar estas estátuas gigantes foi a baixo em pouco anos. A tragédia é visível em uma viagem pela costa sul da ilha, passando de ahu em ahu e encontrando dezenas de moais com a cara voltada ao chão com seus pukaus alguns metros distantes, como um chapéu levado pelo vento.

De cara no chão. Pela costa Sul da ilha, vários moais tombados

Em meu terceiro dia na ilha, o plano era alugar uma bicicleta e pedalar até o vulcão Terevaka. Fui ao centro e perguntei para a moça sobre o valor do aluguel quando ouvi ao meu lado: "Murilo?" Era a australiana Sophia, escondida atrás dos óculos de aro grosso. Falante, ela conhecera um casal italiano e estava alugando um carro com eles. Mudei meus planos.

Novos amigos: Sophia, Francesca e Guido

Recomendo o roteiro para quem quer conhecer boa parte da ilha de forma rápida. Em quatro pessoas, alugue um carro e siga pela costa sul em direção ao vulcão Poike. De parada em parada, vemos ahus destruídos e moais derrubados – antes da restauração promovida pelo Chile, todos eles estavam no chão. O primeiro é o Vinapu, cuja perfeição do ahu, com pedras justapostas, chegou a ser comparada à arquitetura inca. Discordo. Nem de longe um ahu se parece com, por exemplo, o templo de Sacsahuaman, em Cusco.

Desastre ambiental

A Ilha de Páscoa reúne uma serie de fatores ambientais que fazem do local um dos mais sensíveis do planeta. Antes da chegada dos primeiros humanos, por volta de 900 d.C. (a data é bastante incerta), a ilha era uma floresta tropical, com árvores parrudas de mais de 20 metros de altura e dois metros de diâmetro e a maior palmeira do mundo, bem diferente dos campos com morros pelados que encontramos hoje.

Nas guerras civis, os Rapa Nui derrubaram moais uns aos outros

Foi principalmente a construção dos ahus com seus moais que dizimou os recursos naturais da ilha, extinguindo todas as 21 espécies de árvores nativas e as 25 espécies de aves que nidificavam lá, fazendo de Páscoa um dos maiores desastres ambientais da história. As árvores eram usadas em canoas, cordas, estruturas de construções, lanças, arpões e como combustível para a cremação. Sem a matéria-prima e em decadência, caiu por terra a antiga integração entre os 12 clãs que permitiu a prosperidade da ilha no passado. E os moais também vieram abaixo.

Ao longo da costa, moais e uma paisagem alucinante

Seguindo pela estrada, além do cemitério de moais, o estonteante mar azul toma conta da paisagem até avistarmos, à esquerda, o vulcão Rano Raraku. É a segunda parte do Parque Nacional, onde novamente apresentamos o ticket. Depois da entrada, pegamos uma estradinha até uma bifurcação e seguimos pelo caminho da direita. Estávamos na fábrica dos moais.

Uma oficina abandonada

O tufo vulcânico do Rano Raraku - nem tão duro, nem tão poroso - é perfeito pra ser esculpido. A estátua era delineada diretamente na rocha, depois talhada deixando apenas uma quilha que a mantinha presa ao vulcão. A quilha era removida, o moai descia ladeira abaixo e era colocado em um fosso onde tinha suas costas esculpidas. Depois disso, ele tinha que ser levado por quilômetros até o seu ahu em várias partes da ilha. Como isso foi feito ainda é um mistério.

A oficina dos moais, alguns sequer foram retirados da rocha

Em toda Ilha de Páscoa foram construídos 887 moais, 288 deles foram transportados e levantados sobre 113 dos 300 ahus construídos. Outros 92 moais ficaram no caminho, antes de chegar ao seu ahu. O mais incrível, no entanto, são os 397 moais que foram abandonados aos pés do Raraku, tomando conta da paisagem. Outros sequer foram retirados da rocha, como o maior moai da ilha, de 21,65 metros e possíveis 200 toneladas!

Os 15 homens de Tongariki. Voltaríamos ali no outro dia

O circuito pelos moais esquecidos dura uma meia hora. Vale a pena apreciar a vista do mar, o vulcão Poike, ali pertinho, e o Ahu Tongariki, nossa próxima parada. Mas, no caminho de volta, não deixe de pegar aquela entrada à esquerda, na bifurcação. Ela leva até a cratera do Rano Raraku, bem pertinho. É muito bonita, com seus 550 metros de diâmetro, e uma árvore sob a qual você pode se sentar e comer um lanche.



Saindo do Raraku e seguindo em direção ao Poike, descemos até o Ahu Tongariki, o maior da ilha. Ficamos pouco tempo, no outro dia voltaríamos ali. Contornamos o vulcão - talvez minha maior frustração na viagem foi não ter subido os 412 metros do velho Poike, ter visto o mar no extremo leste da ilha e a cratera de 150 metros de diâmetro, 15 de profundidade e totalmente seca.

A cratera do Rano Raraku. Bom lugar para dar uma descansada

A estrada segue pela direita e fica bem ruinzinha neste trecho. A única parada obrigatória é o Ahu Te Pito Kura cujo moai, o Paro, com seus 9,8 metros de altura e 74 toneladas de peso estimado foi a maior estátua que chegou a um ahu. Foi também uma das últimas, eregida em 1640, provavelmente por uma mulher que queria homenagear o marido. Veio ao chão 200 anos depois. Contorne o ahu pela direita e veja o Te Pito o Te Henua (“o umbigo do mundo”), uma pedra redonda que, dizem, tem propriedades magnéticas. Toda ilha polinésica tem o seu umbigo.

O gigante moai Paro e o umbigo do mundo

Terminanos a estrada ruinzinha novamente em Anakena. Apreciei mais uma vez aquele mar azul, os coqueiros, os ahus Nau Nau e Ature Huki. Peguei a primeira das três porções de águas que coletaria de Páscoa par minha coleção. Comemos uma empanada com Coca-Cola e voltamos, exaustos, para Hanga Roa. Minha aventura com os italianos e com a australiana não acabava ali.

Corinthians x Universidad Católica del Chile

O dia só poderia acabar com meus amigos Rober, Nacho, Vianca e a pequena Amanda. Separei-me da nova turma e encontrei os chilenos em frente ao Ahu Ko Te Riku  no complexo Tahai. Teria um eclipse solar parcial aquele dia. Não me empolguei muito em fazer fotos, mas foi bom ver os amigos e aquela gente - locais, continentais e turistas - sentada na grama, olhando para cima. Parecíamos os antigos Rapa Nuis idolatrando os moais.

De novo em Tahai e de novo com os amigos

Voltei com eles para casa de Nacho e conheci o Completo, um cachorro-quente com tudo que tem direito e coberto por, pasme, abacate. Gostei. Nacho queria jogar PES 2012 no Playstation 3, um de seus vários brinquedinhos. Queria vencer um brasileiro no futebol. Sugeri jogarmos com nossos clubes e, como eu sou péssimo nos jogos de futebol no videogame, meu Timão tomou um pau do Univesidad Católica do Chile: 3 a 0. Depois joguei com Lev, um amigo deles, abri 1 a 0, mas o filha da mãe virou em  3 a 1. Lev comemorava como a "mãozinha", imitando nossos jogadores brasileiros e seus passos de axé quando marcam um gol. Hilário.

Comer um completo para depois tomar um pau no PES 2012

No fim da noite ainda fizemos um meeting do CouchSurfing. Tomei um Pisco Sauer com meu amigo Rober e fomos à casa de uma chilena que está na comunidade. Fizemos fotos com uns espanhóis, ficamos vendo as estrelas, mas eu estava com sono. Acordaria muito cedo no outro dia e queria dormir. Fiz isso, às 2h da madruga.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Segunda-feira. Homens-pássaros e um moai negro

Com a mão no queixo e o pensamento longe, eu encarava um pequeno moai negro, de 2,5 metros de altura, com mamilos e estranhos símbolos nas costas. Sua cabeça não era coberta por um pukau, tampouco os pés pisavam sobre um ahu. Ele estava em um modesto altar branco, cercado de paredes e luz artificial, no primeiro piso do Museu Britânico, em Londres. Era junho de 2011, meu último dia em uma viagem de um mês pelas ilhas britânicas. Não esperava encontrar ali a famosa estátua rapa nui.

O poderoso Hoa Hakananai'a hoje está em outra ilha: a britânica

De volta à Ilha de Páscoa, em meu segundo dia contrariei as dicas de  Rober. Meteorologista do aeroporto Mataveri, ele me advertira para as condições do clima: chuva o dia todo. Por causa disso, iria ao museu. O ideal é ir logo nos primeiros dias de viagem para poder visitar os pontos turísticos munido de informação.

Rober me avisara da chuva, mas não disse que o museu Padre Sebastian Englert fecha às segundas. Aberto de terça a sábado, entre 9h30 e 17h30, e nos domingos e feriados, das 9h30 às 12h30, ele é uma sala simples, com muita informação em textos nas paredes, mas com poucos exemplares em sua pobre coleção. A entrada é mil pesos e vale perder uma hora lá.

Como estava perto do complexo Tahai, fui dar uma banda. Passei pelo Ahu Tahai, caminhei até os cinco moais do Ahu Vai Uri, à esquerda, e voltei até o isoloado Ahu Ko Te Riku com seu pukau sobre a cabeça e os olhos esbugalhados. Foi quando caíram as primeiras gotas. Insisti em fazer algumas fotos mesmo debaixo do chuvisco que virou garoa e, por fim, chuva de verdade. Quando chovia torrencialmente, eu já estava correndo pela Avenida Atamu Tekena, a principal de Hanga Roa, completamente encharcado, pulando poças. Parei no Centro de Artesanato.

Complexo Tahai em dia de chuva. Voltaria aqui algumas vezes

É no centro que você, leitor, vai comprar as lembranças e presentes para a família. E, como eu, tomar um café e relaxar. Tinha uma bermuda e uma blusa reserva na mochila e troquei. Fique batendo papo com um taiwandês que mora no Chile e tem parentes vivendo em Ciudad Del Este (Paraguai), enquanto tomava café. Recomendo: é o café mais barato da cidade, e você que prepara (água quente com café solúvel, leite em pó e açúcar, nada de mais).

Comprei uma capa de chuva e comentei com duas mulheres sobre a música repetitiva de Elvis Presley no rádio. “Melhor que esta música suki”, me responderam (depois falo sobre a tensão entre chilenos continentais e rapa nuis). Passei pela casa de Rober para trocar a roupa e fui conhecer o primeiro dos três grandes vulcões da ilha de Páscoa.

Amigo roubado


A subida pela trilha do vulcão Rano Kau (foto) é bastante íngreme e a caminhada dura cerca de meia hora. Se quiser economizar tempo e esforço, pode ficar na estrada e pegar uma carona ou alugar um carro. Eu gosto de caminhar. Subi, bufando, pensando em cenários irreais na cabeça, como a briga com um leão munido apenas de um pedaço de pau (!).


No alto, a 324 metros acima do nível do mar, a linda cratera do Rano Kau, com seu 1,5 km de diâmetro e 280 metros de profundidade. Lá embaixo, uma lagoa onde sobrevive vegetação com plantas autóctones e um microfauna. Do lado oposto é possível ver o mar graças a uma fratura na parede do vulcão chamada Kari-Kari.

Conheci uma americana e a falante australiana Sophia, que foi comigo por uma trilha contornado a cratera pela direita até a entrada do Parque Nacional. Lá, apresentamos o ticket para entrar no sítio arqueológico de Orongo.

A cratera do Rano Kau. Ao fundo, a fratura Kari-Kari permite a visão do mar

Era em Orongo que ficava o moai Hoa Hakananai'a (“amigo roubado”, em Rapa Nui). A estátua é singular: esculpida em basalto, tem petróglifos (entalhe nas rochas) nas costas, e representa a troca política-cultural pela qual passou a ilha Rapa Nui por volta de 1680. Bem mais tarde, em 1868, uma expedição britânica levou o moai para a coleção da rainha Victória. Hoje, ele repousa em seu altar branco, no primeiro piso do Museu Britânico, deixando confusos visitantes, como eu.

Vista do outro lado, em Orongo, a cratera de Rano Kau

Muito mais que um ovo

O século XVII foi de mudanças à sociedade Rapa Nui. Por volta de 1620 era levantado o último ahu. Sem recursos para erguer novas estátuas, os clãs preferiam derrubar os moais dos rivais. Era o fim da integração que marcou aquela sociedade e que permitiu sua prosperidade. Em 1680, o deus Make-Make (vinculado à fertilidade, primavera e às aves), antes apenas um do panteão rapa nui, passou a ser adorado com  mais afinco. A política e a cultura seriam marcadas pela caça a um ovo.

A competição do tangata-maru, o homem-pássaro, significava mais do que práticas religiosas e culturais, mas marcava a política da ilha. Em agosto, os hopu, representantes dos chefes de clã, desciam a encosta do Rano Kau até o mar e nadavam os 1.400 metros entre Páscoa e a ilha Motu Nui, a maior das três ilhotas no extremo sudeste (as outras são Motu Iti e Motu Kao-Kao - "Motu" significa "ilha").

Depois de Orongo, já na orla. Pescadores enfrentam o mar furioso 

Segundo a lenda, o deus Make-Make vivia nesta ilha. Foi ele que trouxe a ave manutara (Onychoprion fuscatus) para se reproduzir em Motu Nui. Os homens ficavam dias ou semanas na ilha até as aves chegarem para nidificar, normalmente em setembro. O cara tinha que pegar o ovo, prendê-lo à cabeça e nadar de volta para Páscoa. Quem chegasse antes se tornava o tangata-maru por um ano e ganharia privilégios e tabus (tapu), como não poder ser encarado por ninguém. Ele desfilaria por toda a ilha com sua família e clã, para comemorar a vitória, e fixaria residência em Orongo ou Anakena. O chefe de seu clã era eleito rei da ilha também por um ano.

A mais distante das ilhotas, Motu Nui, recebia homens e pássaros todo ano

Em Orongo você pode imaginar tudo isso ao ver, ao fundo, as três ilhas. No vilarejo, estão as 54 casas de pedra em formato de canoa, usadas unicamente durante a competição do homem-pássaro. Também estão a maior parte dos petróglifos da ilha, quase 500, representando Make-Make, manutara e o tangata-maru. A última competição aconteceu em 1867 e foi vista por missionários católicos.

Ana Kai Tangata e a falante australiana Sophia

Na volta para Hanga Roa, pegamos carona com um nativo para descer o Rano Kau. Caminhando pela orla, parei para apreciar o mar nervoso e azul surrando as pedras negras. Gente pescando, momento para reflexão. Perto de um parquinho, tem a escada que leva a Ana Kai Tangata, uma caverna voltada para o mar onde os Rapa Nui faziam embarcações.

Ahu Vai Uri ao pôr do sol. Depois, voltei pra casa no escuro, tateando o ar
 
Separei-me de Sophia e ela continuou o trajeto com um casal de húngaros. Almocei algo qualquer no centro e fui novamente para Tahai. Queria fazer fotos do pôr do sol, mas fiquei lá mais tempo que deveria. Estava escuro, sem iluminação artificial tive que caminhar tateando o ar, passei pelo cemitério de muro baixo com aquelas luzinhas alimentadas por energia solar. Sinistro. Ilha de Páscoa dormia, era só eu naquelas ruas silenciosas. Cheguei, enfim, à casa de Rober e tomei uma sopa de tomate com meu amigo mestre-cuca. Estava bem cansado.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Domingo. Em Anakena com amigos

A praia de Anakena, na Ilha de Páscoa, é um exemplo claro dos paradisíacos cenários da Polinésia. Páscoa é um dos vértices deste triângulo, formado também por Hawaí e Nova Zelândia, que integra várias ilhas do Oceano Pacífico. Sua única praia (aliás, existe outra, a minúscula Ovahe, em vias de extinção) representa este ambiente: coqueiros, areia branca, mar azul, céu aberto. Bonito para apreciar, delicioso para nadar, mergulhar e andar de caiaque com os amigos em meu primeiro dia na ilha rapa nui.

A linda e polinésica Anakena, com seus coqueiros, céu aberto e mar azul turquesa

Tinha chegado cedo naquele domingo ao aeroporto Mataveri, após um dia de conexões. Em uma de minhas paradas, de volta ao aeroporto Jorge Chávez (Lima) após quatro anos, tentei sem sucesso dormir algumas horas. Ilha de Páscoa é misteriosa ao amanhecer. Em parte, pela expectativa que temos antes de conhecer qualquer lugar. Passei a manhã dormindo na casa de Roberto Osorio Ossandón, meu amigo CouchSurfing que me hospedaria por três dias. Rober faria mais: apresentaria o amigo Carlos “Nacho” Toledo, sua esposa, Vianca Toledo, e a filha de 5 meses e meio, Amanda. Sem os quatro, a viagem não teria a menor graça.

Foi com eles que conheci o pastel de choclo, minha primeira refeição típica chilena - uma torta à base de milho com carne moída, frango e salpicada de açúcar, servido pelo chef Rober. Uma delícia! Almoçamos, tomando a cerveja chilena Escudo. Depois, colocamos os dois caiaques de Nacho na picaque e fomos à praia, do outro lado da ilha.


Água, céu e areia em Anakena

Cabe aqui um breve mapa de Páscoa: a ilha é triangular, com lados de 24 km, 16 km e 12 km, e área de 166 km2. O aeroporto é praticamente dentro da cidade de Hanga Roa, o único vilarejo, localizado na ponta sudoeste do triângulo. Alguns pontos turísticos, como o grande vulcão Rano Kau, o centro arqueológico de Orongo, o complexo Tahai ou Ana Rai Tangata ficam nesta região, a poucos minutos a pé de Hanga Roa. A praia de Anakena fica no outro extremo, 18 km à norte, entre os vulcões Terevaka e Poike (os outros dois grandes). Uma estrada em ótimo estado chega até a praia.



Remando perto da praia de Anakena. Parece que estou em uma abóbora


Além de linda, Anakena tem uma particularidade: é uma praia com som ambiente. Em um elevado, os nativos colocam caixas de som enormes tocando música suk, ou kisomba, uma batida parecida com a do reggaeton que é mixada a toda música pop, de Adele à MPB. Com este som, dei minhas primeiras remadas no mar azul e gelado da Polinésia. Fazia sol, me afastei da costa e deitei sobre o caiaque apenas para curtir.


Enquanto isso, nossos amigos ficaram em terra firme – Vianca protegendo Amanda do sol, Nacho e Rober conversando. Como vou ficar um pouco sobre o caiaque, temos um tempinho para apresentar parte do grupo. Vianca e Nacho formam um casal adorável. Os dois são controladores de voo no aeroporto Mataveri; se conheceram na faculdade, há 10 anos. Só há dois estão casados. “Precisa passar pela crise dos sete anos", diz Vianca, explicando um dos motivos do longo namoro. “Aos sete anos, as pessoas se separam”. O outro motivo foi a grana. Queriam fazer uma festa linda. Fizeram duas, uma na ilha Rapa Nui, em Tahai; outra em Santiago, para a família e amigos. Há menos de seis meses, tiveram Amanda e continuam apaixonados e apaixonantes. Sabem que a filha não viverá a vida toda na ilha (nem eles vão), mas Amanda carregará com orgulho nos documentos pessoais o local de nascimento: Ilha de Páscoa.

Rober, Nacho e Vianca com Amanda no colo. Praia com os amigos

Ufa, o sol já está torrando, melhor voltar para a margem. Tomei mais algumas Escudo com os amigos, mas as obrigações de pai e mãe forçavam Nacho e Vianca a levarem Amanda para casa. Rober, por sua vez, estava doente com início de inflamação da garganta. Eles foram, eu fiquei, com a promessa de voltar de carona.

Ahu Nau Nau, em Anakena. Um ótimo exemplo de moais com pukau

Pude caminhar um pouco mais pela praia e me aproximar pela primeira vez de um moai: o Ahu Ature Huki, com seu moai isolado. Depois, o belíssimo Ahu Nau Nau, erguido sobre areia da praia com seus sete moais (cinco deles inteiros, quatro com o pukau sobe a cabeça). Vamos lá, já está na hora de explicar alguns termos: ahu é a plataforma onde são erguidas estas estátuas de pedra, os moais. Pukau é o adorno colocado sobre a cabeça que, embora lembre um chapéu, provavelmente representa o cabelo amarrado para cima, típico do povo rapa nui e polinésico em geral.

De longe, o ahu Nau Nau e o mar de Anakena

Era tarde e, com duas caronas, cheguei à Hanga Roa. É fácil conseguir carona na rota que leva à Anakena. Espere, acene e sorria: os carros param. Dei uma volta ainda perdido pela cidadezinha, fui à costa, vi outros moais, mas não estava familiarizado - só no terceiro dia a gente está. Cheguei tarde à casa de Rober para comer um macarrão ao molho branco com meu amigo. Ele estava mal, dormimos cedo. No outro dia, conheceria o primeiro dos três grandes da ilha de Páscoa.

domingo, 21 de outubro de 2012

Dia 13: 29 anos em Firenze

Oi pappa, oi mamma, tudo bem?

Décimo terceiro dia de Itália (27/02). Dia de meu aniversário. Se passei a entrada nos 28 aninhos em Lima, o primeiro dia de meus 29 começaram em Firenze e terminam em Roma. Um dia com as curvas de Davi, uma viagem de trem muito estranha e amigos romanos me desejando parabéns. Só do Brasil, não veio nada. Ninguém me ligou (fiquei esperando o dia todo o celular tocar...)



Mas bem, a vida segue. Acordei hoje disposto a aproveitar o aniversário. Como só encontraria meu CS de Roma no final do dia, acabei me enrolando para deixar Firenze. E aproveitei isso. Bem, na verdade, os 29 anos começarm um pouquinho antes, em uma festa na faculdade de agrárias da Universidade de Firenze, no meio de um monte de estudantes estranhos. Estes europeus são malucos. A festa estava bem boa, fomos com umas amigas do Vanni, fiquei dando indicações, em italiano, de como não deixar embassar o vidro do carro. Na festa, dancei bastante. Recebi de meu amigo fiorentino o primeiro parabéns da cidade. E a banda tocou a tal "Cacao meraviglao", hehehhe.

Os italianos tiram sarro de nosso "ão". Eles dizem que para imitar os brasileiros basta falar o "ão" no final das frases. Mas eles não conseguem falar “ão” daí sai "ao". Aí, lá na década de 70 ou 80, não lembro, fizeram uma música tirando sarro de como o português brasileiro soa para os italianos. É muito trash e brega, enfim, é de época. Mas engraçada. No youtube, dá para ver aqui. Recomendo.

La mamma `e il piu bel fiore nel giardino della vita

Bem, fomos dormir e acordei bem hoje de manhã. Ajeitei minhas coisas e fui bater perna. Queria fazer um aniversário bacana. Dia de sol, passei por uma loja e vi uma plaquinha que era a cara da mãe. Tirei a foto, depois te mostro [na verdade eu comprei a plaquinha para mãe, mas não falei isso no e-mail, a frase é “La mamma `e il piu bel fiore nel giardino della vita”]. Aí parei para tomar um cappuccino e um croissant de aniversário. E uma tortina para cantar parabéns. Fui até a Piazza de Santa Cruce, solzinho gostoso, cheio de turistas. Fiz ali o ritual do parabéns [o mesmo que fiz em Lima, um ano antes. Veja aqui]. Pronto, já tenho 29 anos. Bora ao que mais importa no dia, as curvas de Davi.



Fui cruzando a cidade deste a Santa Croce até a Galleria dell'Academmia. Já nem preciso de mapa, só olhar para cima buscando o Duomo, seguir em direção a ele, depois em direção ao Palácio dos Medici, me orientando pela igreja de San Lorenzo, viro uma a sinistra (esquerda) e outra a destra (direita). Pronto estou ali.

Última caminhada por Firenze no dia de meu aniversário 

Estava naquela mesma euforia de quando vi O Nascimento de Vênus, de Botticelli. Queria ver logo Davi. Mas fiquei desfrutando a expectativa. Tinha uma mostra de quadros de pintores menores do Trecento e do Quatrocento. Fiquei admirando, analisando, lendo a legenda. Então, uma sala de esculturas, a sala do Colosso. Com quatro obras inacabadas de Michelângelo, que ornariam o túmulo de um papa, não lembro qual. E, de repente, viro o pescoço e lá estava Davi. Tomei um baita susto. A estátua mais importante da história da humanidade, ali, e eu de bobeira.

Analisei um pouco mais as outras esculturas enquanto caminhava em direção ao Davi. Lindíssima, depois dela não é precivo ver qualquer outra escultura. A perfeição das veias na mão, a proporção dos músculos, a forma como ele se apóia sobre a perna direita. O olhar fixo para esquerda, de onde, na lenda grega, vem sempre o ataque. É o momento em que prepara a pedra na funda para atirar em Golias. O pé esquerdo, se prepara para o movimento, ele mudaria o peso do corpo no próximo lance. Na mão direita já tem a pedra escondida, na esquerda, segura a ponta da funda.

Davi, de Michelângelo, a escultura em sua quintessência

Michelângelo trabalhou mais de dois anos para fazer a célebre estátua. O mármore, cedido da Igreja de Santa Maria del Fiore, o Duomo fiorentino, tinha sido recusado por outros escultores, entre eles o mestre Da Vinci. Mas o maior escultor da história não deixou passar e criou sua obra prima. Em Roma, vou ver a Pietá e o Moisés, outras obras dele. Mas depois de Davi, nem precisaria.

Outra caminhada e as estátuas dei Uffici

Aí vi outras estátuas e outros quadros. Almocei um panino com carne de porco e vinho tinto em uma bodega pequena de dono simpático. Dei mais uma volta pela feira da piazza San Lorenzo, conversei com um brasileiro. Estava meio em clima de despedida. Atravesei a cidade novamente, passando mais uma vez pelo Duomo e seguindo em direção ao Rio Arno. A Piazza dei Signoria sempre apinhada, a Piazza dalla República, música ao vivo com uma moça de voz linda. Consegui chegar ao rio e pegar a água [minha coleção]. Tinha uns treinos de canoagem lá, mas eu não tinha tempo.

Corri arrumar minhas coisas. Me despediria de Firenze. Dei um abraço em Donna Rita, que me desejou boa viagem. Vanni me acompanhou até a estação. No trem, um pouco de leitura e dificuldade para dormir. Estava meio dormindo-acordado e as vezes olhava para uns americanos sentados ao lado e, meio sonâmbulo, falava umas coisas nada a ver. Eles riam e eu voltava dormir.

Em uma das paradas quase fiz das minhas. Sou um sobrevivente a mim mesmo, repito sempre. O trem ia demorar para sair, eu corri para comprar uma coisa para comer. Demorei para pagar e quando voltei a porta já estava fechada. Apertei um dispositivo de emergência e abri a porta à força. O trem começou a sair em seguida. Ufa.



Cheguei cansado a Roma. Lorenzo, meu novo CS, ia me receber na estação as 21h40. E lá estava ele, de carro com a namorada. Demos um giro pela cidade e fomos comer uma pizza em um lugar bem disputado. Pizza boa e barata. Fiquei conversando com os dois e mais um casal de amigos. "É seu aniversário", disse Lorenzo me cumprimentando. Brindamos, lembrei-me mais uma vez da data querida, que as vezes a gente exagera (é um dia como outro), mas que é bom ter como dia só nosso.

E foi assim que terminei meu dia, com pizza em Roma. Agora estou sentado no chão da casa de Lorenzo. Muito bacana a casa e o couch (sofá) é enorme - mais confortável que a cama lá do Vanni, hehehe. Amanhã (hoje) é domingo, tenho que saber quando o papa reza a missa para ir assistir. Vou dar uma pernada lá no Vaticano. E conto para vocês.

Beijos, vou dormir.
Murilo

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Dia 12: nella Piazza dei Miracoli, o esplendor de Pisa

Oi paizão, oi mãezinha

Décimo segundo dia na Itália (26/02). Pisa é mais do que uma torre. E sua praça principal, mais ainda. A Piazza dei Miracoli, onde está o Duomo de Pisa, o batistero e, claro, a torre, é linda. Toda verde, como um campo e com as três construções. Cá entre nós, a torre nem é lá a mais interessante.

A Torre e a igreja. O dia seria em Pisa

Hoje fiquei me enrolando para saber o que fazer. Não queria viajar no dia de meu aniversário (odeio a incerteza de uma viagem, gosto de estar na cidade, com minha bagagem em algum lugar que não nas minhas costas), queria, pois, viajar hoje a noite para Roma. Mas aí o dia seria curto. Fiquei me enrolando de manhã, para sair. Dei um pulo até a estação para ver os horários de trens. Vou ou não vou a Pisa. Me enrolei.

A bizantina Santa Maria della Novella, após uma manhã chuvosa

Fui então a uma igreja, a Santa Maria della Novella, uma bizantina, muito bonita por dentro. Fiz boas fotos. Após uma chuvinha chata no início da manhã, fez sol e calor. Ótimo. Fui almoçar com Vanni e uns amigos da faculdade de arquitetura. Almoçar, humm, delícia. Esperava sentar e comer umas saladas, algo saudável. O cardápio foi um lampredotto, uma espécie de buchada de vaca (la ultima parte del intestino della mucca) no pão. Diz o Vanni que é comida comum em Firenze. Ao menos entre os estudantes deve ser, heheeh.

 Pela manhã, chuva em Firenze. E eu me enrolando...

Mas aí deixei de enrolar. Objetivo, fui à estação, comprei o biglietto e bora para Pisa. Uma hora de viagem, tempo para lhes contar como funciona o sistema de trem aqui. É fácil, fácil. Compra o bilhete na máquina, valida (convalidare) e pronto. Só tome cuidado com la linea giala, heheeh. Na estação fica um cara falando os horários dos trens e sempre no final diz: Attencione, allontanarse della linea gialla! (atenção, afastar-se da linha amarela!). Eu rio cá dentro toda hora que ouço e repito o linea giala mentamente.


Na viagem entre Bologna e Firenze, uma explicação breve sobre o sistema de trem

Bem, tem os trens barateiros, os chamados regionais, e os mais caros, da Fressarossa. Amanhã, por exemplo, para ir para Roma, eu posso escolher entre passar quatro horas no regional ou uma hora e meia no Fressarossa. Um custa 15 euros, o outro 45. Já estou esperto para pegar trem. Olho para os horários de partida, vou na máquina, busco meu destino, coloco o dinheiro no buraquinho, pego o troco, "convalido" em outra maquininha (é muito importante), e sigo meu rumo.


Em Pisa, um dos melhores CS da viagem, o grande Isaía que me deu uma aula sobre a cidade

E foi assim que cheguei a Pisa. Tinha escrito para outro CouchSurfing se ele tivesse afim de um café em Pisa. É uma outra modalidade, de CS, vc não hospeda nem fica na casa dos outros, é só coffe or drink, ou seja, sair para fazer alguma coisa. Um CS de Pisa, o Isaía, tinha alguns minutos antes do trem dele, para Bergamo, onde mora a sua família - ele está em Pisa estudando Matemática. Mandei uma mensagem de celular, confirmando o horário, atravessei a cidade de Pisa cruzando o Rio Arno que também passa por ali, e lá estava Isaía me esperando na Piazza dei Miracoli. Passei por ele várias vezes até que liguei para o celular e ele, ali pertinho atendeu.

O majestoso Arno, que também passa por Pisa antes de desaguar no Mar de Ligure

O cara é muito gente boa, me mostrou, por exemplo, alguns detalhes da igreja. Bem, todas as construções são lá de 1000 e alguma coisa e foram feitas em uma área pantanosa. A igreja também tem uma parte que é torta. E ela é interessantíssima, sua construção começou em 1064 com mármore de outras igrejas e construções - você vê nitidamente a diferença do mármore; em algumas partes tem até inscrições da outra construção [ela foi construída sobre outra igreja, de 1006. As obras pararam em 1095 por falta de verba e só foi consagrada em 1118]. Em um desses mármores importados, tem um monte de pontinhos dourados: diz a lenda que é impossível contar duas vezes o número de pontinhos e a pessoa que conseguir fazer isso é levada pelo diabo, hehehehe.

Detalhe do mármore da igreja. Consegue contar os pontos?

Outra história interessante é que a igreja foi construída bem junto ao muro da cidade. De fato está lá, o muro, o portão, e a igreja, no final da cidade. É estranho, porque os duomos (igrejas) são, normalmente, construídos no centro das cidades. Bem, Pisa tinha uma relação difícil com a Igreja Católica e usou seu duomo mais como escudo so ataque do povo de Lucca, uma cidade próspera na época (e também muito linda, pena que não vou conhecer) vizinha a Pisa.

O batistério, a igreja e a torre. Trindade óbvia dei tutti piazzi

Mas então, a torre. De fato ela é inclinada, bem inclinada. Mas já foi mais. Para impedir que ela caísse, fizeram o seguinte: colocaram uma máquina que ia retirando lentamente a terra do pé da igreja, para ela voltar aos poucos e reduzir a inclinação. Ela poderia cair se tivessem deixado a inclinação anterior. Ela é bonita, toda branca. Mas não subi não, pô 15 euros para subir numa torre? Nem, deixa para os turistas chineses. Eu fiquei por lá, caminhando, e rindo do pessoal que fazia aquelas fotos de segurar a torre com o pé ou com as mãos. Eu não.

A igreja majestosa e a torre, na Piazza dei Miracoli

Tá, vá lá. Dei umas voltas e fiz umas fotos bem legais, e, em uma, imitei o Michael Jackson naquele clipe que ele se inclina para a frente, meio para ficar igual a torre. Mas segurar com as mãos? Isso não.

Brincadeira com sombras, aproveitando a iluminação da igreja

Aí tomamos um café, especialidade de Pisa. Putz, esqueci de anotar o nome. Era um cappuccino com alguma coisa por cima. Não sei. Fui até outra igreja piccollina, esta de 1080, muito bonitinha. Toda de tijolinho a vista. O Isaía foi pegar o trem e eu fiquei lá na igrejinha. Uns músicos começaram a ensaiar umas músicas clássicas. Fique assistindo o ensaio, muito legal. Aí voltei para a Piazza.

 Ensaio musical em igreja medieval. A trilha de sonora de um ótimo dia (ouça um pouco aqui)

Fiz um monte de fotos com o tripé, da torre a noite. Muitas ficaram bem boas. Aí estava andando e vi duas mulheres conversando e uma dando aulas sobre a igreja. "Scusa signora, Io sono ascultato, posso farLa una domanda". E comecei a conversar com as duas, ela era uma professora e mostrou outras curiosidades da igreja. No tempo em que ela foi construída, Pisa era uma das principais repúblicas marinaras, ao lado de Gênova, Veneza e Amalfi. Daí, o esplendor e tanta riqueza. No caso de Veneza, ela continua vendendo aquele glamour de festas e carnavais. Pisa vive da torre... (brincadeira, Pisa é una cidade universitária).

Igreja a noite. Uma pena que não pude entrar...

Aí voltei para Firenze. Comi um MacDonalds no trem de volta enquanto ouvia dois africanos conversarem alto e um mexicano dormia na poltrona de trás. E agora, arrumo minha bagagem para chegar, finalmente, à Cidade Eterna.

Beijão,
Murilo