Era dia 23, segunda-feira, o Juttel e eu estávamos pregados de sono quando pousamos no Arlanda, o aeroporto internacional de Estocolmo. Estávamos com pressa, a pré-conferência já havia começado, por isso corremos buscar as malas. O carrossel das malas girou, girou, girou e como em um sorteio na roleta deu o meu número: minha bagagem tinha ficado em algum lugar entre Guarulhos e Amsterdam. Mas não estava em Estocolmo.
Como diria a letra da música: fui ao inferno pela primeira vez!
Bem, corremos do aeroporto para onde estava ocorrendo a pré-conferência: Vetenskapsakademien, que em sueco deve significar academia de alguma coisa. Nome engraçado, mas bem apropriado para a Terra do Nunca. No metrô, sinistro, fomos sentindo o clima silencioso de Estocolmo, pessoas louras e quietas, escadas rolantes gigantescas, propagandas bizarras.
Na academia nos reencontramos com Enio, Davi e Flávia. A programação era palestras com dois prêmios Nobel – prof. Peter Agre, laureado em 2003 com o Nobel de Química, e prof. Frank Wilczek, Nobel de Física em 2004. O tema da pré-conferência, ali na Royal Swedish Academy of Science, era a comunicação pública do Prêmio Nobel. Muitíssimo interessante.
Conhecemos o lugar onde eles quebram as cabeças para definir todos os prêmios Nobel, discutimos sobre a experiência de divulgação científica em cada país e percebemos que no Brasil estamos bastante adiantados. Orgulho. "As discussões aqui são muito rasas", reclamava a Flavinha.
Dali partimos para o centro da cidade. Aos cinco do “Bem-me-quer” incorporou-se a Germana, colega nossa do Labjor que também apresentaria um trabalho na conferência.
Beleza para todos os lados
Antes da cidade, conhecemos o grandioso Museu de História Natural de Estocolmo. Show de bola o realismo das exposições. Depois nos abastecemos em um mercadinho gastando nossas primeiras coroas suecas e fomos bater perna no centro histórico.
Como sugere o nome da terra de Peter Pan, é tudo maravilhoso. Lindíssimas construções separadas por ruelas de pedras. Ladeiras que chegam a prédios ainda mais fabulosos. Praças, canais, igrejas. A história da câmera fotográfica não é exagero: para onde apontar, o clique é garantido.
Em Estocolmo começou uma brincadeira boba, mas muito engraçada: os trocadilhos infames. Uma verdadeira praga que nos acompanharia por toda a viagem (inclusive em Praga, ó Deus, não acabou). Na capital sueca, o trocadilho era meio óbvio: “Como você está?”, perguntava um. “EstouColmo!”, respondia outro antes das vaias. E quando paramos em um barzinho para tomar a cerveja local, não perdemos a chance. Pudera, o nome da bebida é “Pripps Blå”, ou seja, Blå Pilsen. E a água mais famosa é a Loka.
“Pessoal vocês estão carregando o passaporte?”, perguntou a Flavinha. “Aqui não precisa, ninguém vai checar", respondeu o Davi com autoridade. “Mas em Praga é bom carregar, porque a República checa!”, completei. Acho que foi a risada mais intensa e espontânea que tivemos em anos.
Frio, muito frio!

Mas esquentamos um pouco o clima quando encontramos outros latinos sangue-quente. Ficamos cantando “Aquarela do Brasil” com uma turma de espanhóis e gritando o nome dos dois países. O resto do pessoal não entendeu muito bem, mas fizemos um agito naquele bar que tremeu aos nossos gritos. Diversão total no frio de Estocolmo.
Ao chegar no hostel, no entanto, descobri que a KLM ainda não enviara minha bagagem. Puto da cara, fui ao inferno pela segunda vez.

E de lá continuo essa história.
3 comentários:
Legal o seu relato da nossa viagem. Vou imprimir e guardar como recordação.
Essa semana te mando o texto sobre a esquisitérrima chegada minha em Praga...
Minha irmã, Celira Caparica, me indicou o blog para eu ler a aventura de vocês na Europa. Quero mandar um recado para a Flavinha que reclamou da superficialidade das discussões. As discussões devem ser assim mesmo. É um vício brasileiro achar que se "aprofundando" a coisa fica mais densa. Não é verdade. Mesmo que se discuta uma nova nave para Júpiter, ainda se consegue mais idéias e soluções se "o papo rolar". Essa idéia de "coisa profunda" é para universitários brasileiros, ou outros, não sejamos radicais, e cavadores do poços artesanais. As grandes idéias partem de empresas onde a formalidade é banida e o "faz do seu jeito" é implantada. Precisamos começar a ver o mundo de um outro ângulo. Fico feliz que os Nobel já estejam "superficializando" os debates. Adorei saber isso. Bom divertimento. O blog está ótimo e as histórias também. Vou ver se escrevo uma crônica para o meu site sobre isso. Não sei se pode coocar link aqui, mas usarei meu código secreto: (www zecaparica com br). Bom divertimento e que a mala apareça.
Oi, Zé Caipira!
Sou a Flavinha. A discussão em questão não se tratava de grandes descobertas da ciência, mas de divulgação da ciência. Achei superficial porque os participantes da mesa baseavam o debate no modelo de déficit da divulgação científica, que pressupõe que o público não passa de uma massa de analfabetos científicos que precisam ser alfabetizados pelos cientistas e pelos jornalistas. Cada um tem um background de conhecimentos prévios, e isso precisa ser levado em consideração pelos divulgadores. Mas o modelo de déficit não leva isso em consideração. Ao contrário, nele, a comunicação se dá de forma linear, sem que o público possa interagir e dar suas contribuições para a construção do conhecimento, enquanto se sabe que cada pessoa tem um conjunto de experiência próprias, que "age" junto à informação, de maneira que o receptor possa sempre acrescentar ao novo ao que lhe é dito. A comunicação, de acordo com a discussão realizada pelos prêmios Nobel e divulgadores da mesa, não passaria de um ato mecânico. Prato para quem tem fome, e luz da ciência para os cegos na escuridão... Muito superficial...
ainda que eu concorde com vc: pequenas idéias rendem grandes resultados... desde que não sejam discutidas de forma superficial!
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