Nenhum lugar em toda Viena, aliás, em toda Europa, Juttel e eu podemos melhor chamar de casa do que Westbahnhof, uma das estações daquela cidade. Foi ali uma de nossas primeiras paradas e por ali nos instalamos. Para ler, pés sobre a mesinha de centro, busque uma cerveja na geladeira e sinta-se em casa. Nós estamos na nossa.
Aquela manhã, quando pisamos em Viena, estávamos perdidos, em todos sentidos da palavra (só para não usar “literalmente”). Na verdade foi meio milagre ter conseguido um ônibus pelo celular daqueles excêntricos artistas alemães, lá em Berlim. Querer um lugar para ficar, plena final de Eurocopa, já era pedir demais.
Nas primeiras horas em Viena, Alexanderplatz, a praça mais famosa, cheirava a silêncio. Bem diferente daquela avacalhação que se seguiria depois. Juttel e eu precisávamos nos instalar e fomos buscar abrigo na velha Westbahnhof. Alugamos um espaçoso locker, nosso guarda-roupa pelas vinte e quatro horas seguintes. Por ali vimos alguns jornalistas franceses com suas credenciais espaçosas no peito. Eles nos encararam e nós eles.
Coisas guardadas, era vez do banho. Três míseros euros nos deu direito à meia hora de prazer na ducha quente em um banheiro privado. Verdadeira derrama por tão pouco. Outros 50 cents e tínhamos um vaso sanitário digno. Um banheiro completo.
Aliás, por ali, enquanto Juttel gastava sua meia hora, vi uma cena bizarra. Acomodava minhas coisas num canto, me desviando dos caras que apenas buscavam um canto para desafogar o joelho, quando chegou um bêbado. O sinal vermelho buzinou para o carinha responsável pelo banheiro, que tratou logo de enxotar a figura. Bem natural, bêbado é bêbado em qualquer lugar do mundo.
Mas aí voltei a atenção para minha escova, sabonete e afins, me descuidando da cena. Perdi o melhor: quando voltei o olhar, o tal pinguço tinha largado um tolete bem caprichado no chão do banheiro! Sem se dar por vencido, o carinha do banheiro foi até o local do crime com uma pá, resgatou o troço (acentue essa palavra como quiser) e jogou no lixo de fora do banheiro, em meio a passantes civis e inocentes que nada tinham a ver com o assunto. Uma vergonha!
Juttel saiu da ducha incólume e eu tratei de tomar meu banho. Éramos pessoas novas, dignas e bem resolvidas. E estava na hora de comer.
Na cozinha, ou melhor, nos pequenos cafés da estação, tinha de tudo. O Juttel, adepto ao sal, buscou um pedaço de pizza e Coca-Cola. Eu tratei de me servir daquelas massas enroladinhas cobertas de açúcar e com nome alemão. O tio ensinou o nome, mas não me lembro, claro. Matei uma ou duas dessas massas acompanhadas de café, que na Europa não é lá essas coisas.
Estando servidos, buscamos leitura na sala de estar, ops... olha eu de novo, desculpe, em uma livraria na estação. Revistas e jornais em idiomas variados, folheamos um e outro e nos inteiramos sobre a Eurocopa, matando o La Gazzetta dello Sport do dia. E dali fomos à luta.
Aquela parte de Viena, onde fica nossa bela Westbahnhof, foi a primeira área que de fato conhecemos. Batemos perna por ali, atrás de abrigo para a noite, mas nada feito, tudo fechado. Fizemos algumas reservas e retornamos para o centro.
A história vocês conhecem, das dormidinhas no entorno do estádio à invasão dos torcedores no centro de Viena. Das perguntas capciosas do jovem alemão ao gol fatal de Fernando Torres e a vitória da Espanha na Euro 2008. Tava tudo demais, alegria tudo em paz, e viva Espanha, e tudo de bom. Mas e agora, José? Onde iríamos dormir?
Tarde da noite. Estávamos cansados, moídos. Dóidos. Seguimos aquela multidão colorida e também cansada pelos metrôs e, talvez por força do tempo ou de meu estado mental na ocasião, pouca coisa me lembro desse trecho.
Lembro sim de a gente, Juttel e eu vestindo Brasil, nos juntando a alemães e espanhóis, vestindo suas bandeiras, na mesma situação nossa. Onde? Na casa Westbahnhof. Buscamos um canto aqui, não, aqui não. Outro ali, também não; e finalmente encontramos o ideal: próximo de uma escada, atrás de uma parede de vidro. Um quarto perfeito que dividimos com alguns alemães descalços. E onde dormimos com anjos.
Em tempo: na manhã seguinte foi engraçado ser acordado pelos educados policiais austríacos, com seus silenciosos “Guten Morgen”, sinalizando que ali não era lugar para dormir. “Peraí, to na minha casa!”, poderia ter gritado, mas ele não teria entendido. Terminamos o sono em algumas cadeiras de espera e depois levantamos de vez. Estávamos dispostos para mais um dia em Viena.
Saímos à varanda de casa para respirar ar puro e conhecer de fato aquela cidade. E vocês estão convidados a seguir conosco.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
Alemães, espanhóis e... brasileiros em Viena
O jovem alemão me cutucou o ombro e perguntou o que eu estava fazendo ali. “Assistindo ao jogo”, respondi. Mas por que da camisa do Brasil, tornou ele a questionar. “Porque eu sou brasileiro, oras”, sentenciei. Ele silenciou, desistiu do mim e voltou a atenção para o jogo. E viu a Super Deutchland perder a Eurocopa para Espanha.
Havíamos sido recebido de outras formas por torcedores alemães e espanhóis. Muitos batiam em nossas costas ao ver a bandeira do Brasil e a camisa da Seleção, reconhecendo nossa superioridade, ao menos no futebol. E ao menos em épocas específicas. Outros olhavam com cara de desconfiança. Mas tive que concordar com aquele jovem bêbado alemão: o que estávamos fazendo ali?
O dia prometia quando pisamos em Viena, em 29 de junho. O centro ainda vazio não se parecia em nada com o circo que a capital austríaca se tornaria mais tarde. Era dia da final da Euro 08, Alemanha X Espanha.
Juttel e eu estávamos acompanhando o campeonato desde o Brasil. Fiquei puto por Portugal não ter se classificado (desperdicei R$ 20 em uma camisa do Cristiano Ronaldo). No aeroporto de Guarulhos, dia do embarque, vimos a poderosa Holanda também dizer adeus à Eurocopa.
Em Amsterdã encontramos pela primeira vez os irmãos latinos, no jogo contra Itália. “E viva Espanha”, estreamos o grito. Em Estocolmo, no Ice Bar, esquentamos o clima com um grupo de calientes espanhóis. Em Viena seria nosso último encontro.
Aos poucos as pessoas foram tomando conta da Alexanderplatz, a praça principal onde fica a belíssima Alexander Dom. Após nos instalarmos na cidade (ou quase, leia post a seguir), fomos curtir o clima de Eurocopa. Vimos o estádio da grande final, ao menos pelo lado de fora; notamos a movimentação da imprensa e outros sortudos com suas credenciais.
Mas precisávamos tomar nosso rumo. Após uma revigorante dormida em gramadão, tomamos metrô de volta ao centro da cidade. O destino era o da fanzone, no centro histórico de Viena.
A Alexanderplatz aquela hora estava apinhada de caras com roupas brancas e vermelhas. Aquela multidão de alemães e espanhóis gritava seus hinos entre os cartões-postais de Viena. Tão inusitado quanto conhecer a Berlim cor-de-rosa, foi ver Viena em dia de final. Sensacional.
A multidão seguiu seu rumo e fomos atrás. Passamos por castelos, estátuas, monumentos grandiosos. Os torcedores tiravam fotos entre as estátuas e duelavam no grito. Mas ficava nisso, sem violência, como tem que ser uma final de campeonato.
Chegamos à fanzone, tão grandiosa quanto o centro histórico. Ruas e mais ruas cercadas, repletas de telões, e mensagens dos patrocinadores. Uma loja de roupas gigante, com preços proporcionais, e muita, mas muita gente.
Prevaleciam os carinhas de branco, com aquele sotaque arranhado. Não vale, a Alemanha é ali coladinha de Viena. Juttel e eu andávamos aqui e ali, sentindo o clima local. Esperamos num gramadinho novamente, curtindo o movimento e sonhando.
Sonhávamos que estávamos entre castelos lindíssimos, sendo atacados por hordas de fanáticos. Mas não era sonho. Num palco, um show de rock repercutido nas dezenas de telões. O sol dava sua descida final, não fazia gracinha como na ensolarada Suécia. Prelúdio do espetáculo.
O jogo não foi o melhor do show, mas sim aquele sentimento de ineditismo. Tudo era interessante. Do casal alemão que lamentava o desempenho do time à família austríaca que estava ali só para torcer contra. Olhava para a tela, torcia, vibrava, mas sequer estava ali. Ainda sonhava.

Ao menos para Alemanha, o sonho acabou com um gol de Fernando Torres ainda no primeiro tempo. Fim de jogo, Espanha vibra. E nós que aprendemos a torcer pela Espanha, emprestamos nossa grito também. “Lá-lá-lá-lá-lá-lá... E Viva Espanha!” Ótimo.
A festa tava boa, estávamos superanimados, mas incrivelmente cansados. O dia corrido da Alemanha, a viagem mal dormida e o longo dia em Viena começaram a pesar. Um problema que estávamos procrastinando, de repente pula na nossa frente. Precisávamos acordar do sonho para encontrar um lugar para dormir?
História para o próximo post.
Havíamos sido recebido de outras formas por torcedores alemães e espanhóis. Muitos batiam em nossas costas ao ver a bandeira do Brasil e a camisa da Seleção, reconhecendo nossa superioridade, ao menos no futebol. E ao menos em épocas específicas. Outros olhavam com cara de desconfiança. Mas tive que concordar com aquele jovem bêbado alemão: o que estávamos fazendo ali?
O dia prometia quando pisamos em Viena, em 29 de junho. O centro ainda vazio não se parecia em nada com o circo que a capital austríaca se tornaria mais tarde. Era dia da final da Euro 08, Alemanha X Espanha.
Juttel e eu estávamos acompanhando o campeonato desde o Brasil. Fiquei puto por Portugal não ter se classificado (desperdicei R$ 20 em uma camisa do Cristiano Ronaldo). No aeroporto de Guarulhos, dia do embarque, vimos a poderosa Holanda também dizer adeus à Eurocopa.
Em Amsterdã encontramos pela primeira vez os irmãos latinos, no jogo contra Itália. “E viva Espanha”, estreamos o grito. Em Estocolmo, no Ice Bar, esquentamos o clima com um grupo de calientes espanhóis. Em Viena seria nosso último encontro.
Aos poucos as pessoas foram tomando conta da Alexanderplatz, a praça principal onde fica a belíssima Alexander Dom. Após nos instalarmos na cidade (ou quase, leia post a seguir), fomos curtir o clima de Eurocopa. Vimos o estádio da grande final, ao menos pelo lado de fora; notamos a movimentação da imprensa e outros sortudos com suas credenciais.
Mas precisávamos tomar nosso rumo. Após uma revigorante dormida em gramadão, tomamos metrô de volta ao centro da cidade. O destino era o da fanzone, no centro histórico de Viena.
A Alexanderplatz aquela hora estava apinhada de caras com roupas brancas e vermelhas. Aquela multidão de alemães e espanhóis gritava seus hinos entre os cartões-postais de Viena. Tão inusitado quanto conhecer a Berlim cor-de-rosa, foi ver Viena em dia de final. Sensacional.
A multidão seguiu seu rumo e fomos atrás. Passamos por castelos, estátuas, monumentos grandiosos. Os torcedores tiravam fotos entre as estátuas e duelavam no grito. Mas ficava nisso, sem violência, como tem que ser uma final de campeonato.
Chegamos à fanzone, tão grandiosa quanto o centro histórico. Ruas e mais ruas cercadas, repletas de telões, e mensagens dos patrocinadores. Uma loja de roupas gigante, com preços proporcionais, e muita, mas muita gente.
Prevaleciam os carinhas de branco, com aquele sotaque arranhado. Não vale, a Alemanha é ali coladinha de Viena. Juttel e eu andávamos aqui e ali, sentindo o clima local. Esperamos num gramadinho novamente, curtindo o movimento e sonhando.
Sonhávamos que estávamos entre castelos lindíssimos, sendo atacados por hordas de fanáticos. Mas não era sonho. Num palco, um show de rock repercutido nas dezenas de telões. O sol dava sua descida final, não fazia gracinha como na ensolarada Suécia. Prelúdio do espetáculo.
O jogo não foi o melhor do show, mas sim aquele sentimento de ineditismo. Tudo era interessante. Do casal alemão que lamentava o desempenho do time à família austríaca que estava ali só para torcer contra. Olhava para a tela, torcia, vibrava, mas sequer estava ali. Ainda sonhava.
Ao menos para Alemanha, o sonho acabou com um gol de Fernando Torres ainda no primeiro tempo. Fim de jogo, Espanha vibra. E nós que aprendemos a torcer pela Espanha, emprestamos nossa grito também. “Lá-lá-lá-lá-lá-lá... E Viva Espanha!” Ótimo.
A festa tava boa, estávamos superanimados, mas incrivelmente cansados. O dia corrido da Alemanha, a viagem mal dormida e o longo dia em Viena começaram a pesar. Um problema que estávamos procrastinando, de repente pula na nossa frente. Precisávamos acordar do sonho para encontrar um lugar para dormir?
História para o próximo post.
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Curta viagem, curto post
A poesia alemã nunca me chamou muito a atenção. Na verdade, poesia não é o meu forte. Quanto menos alemã. Mas então o que fazia eu ouvindo uma jovem alemã, estudante de teatro, declamar seu texto na língua pátria?
Viagem de ônibus, mais uma. Ô sina! Chegamos a tempo de pegar o ônibus pela rabeira para seguir viagem rumo à próxima parada. Viena. Terra das artes, cidade que incentiva a cultura e que tinha o curso ideal para a minha companheira de banco.
Ops, que educação a minha, deixe-me apresentá-la. Seu nome é [colocar o nome aqui quando lembrar, heheehh], uma jovem com pouco mais de 20 anos que visava um curso de teatro na Áustria. Viajava de Berlim a Viena para fazer um teste – queria ser atriz de teatro. Era minha romântica companhia em uma curta viagem de ônibus.
A viagem não foi das melhores não. Ônibus na Europa é meio desconfortável. Interessante ver pequenos televisores transmitindo o que a câmera captava lá de fora. Pra mim inusitado. Fora isso, nada demais. A não ser a dureza e pouca inclinação da poltrona que me lembrou os tempos áureos dos voos Campinas - Foz do Iguaçu.
Dureza no banco, mas boa companhia. A jovem tedesca me deu algumas dicas culturais de Berlim. Talvez me sirva para uma próxima viagem. Mapa no colo, e dá-lhe mãos apontando este e aquele lugar. Deu no que deu. Em uma curta viagem, o primeiro caso europeu.
Legal a companhia dela. Contou-me sobre os planos na Áustria e sua carreira de teatro. E encenou parte do monólogo que ela iria apresentar em seu teste. Tudo em alemão. Não entendi patavina, mas gostei.
A curta viagem tinha destino. Estranhei algumas pichações em uma construção histórica. Lembravam fogo. Diferente das bonitas paisagens logo no amanhecer do dia. Pegar o nascer do sol na estrada foi único.
Mas é dia e tem sol. Hora de me despedir de minha companheira e desejar-lhe sorte. Embora tenhamos trocado endereço, não voltamos a nos falar. Espero que ela tenha conseguido a vaga na escola de arte. Mas foco. Acordar o Juttel, ajeitar as malas e pisar em solo austríaco.
Cheiro de futebol no ar, com toques de final de campeonato. Coisa que vocês encontram no próximo post.
Viagem de ônibus, mais uma. Ô sina! Chegamos a tempo de pegar o ônibus pela rabeira para seguir viagem rumo à próxima parada. Viena. Terra das artes, cidade que incentiva a cultura e que tinha o curso ideal para a minha companheira de banco.
Ops, que educação a minha, deixe-me apresentá-la. Seu nome é [colocar o nome aqui quando lembrar, heheehh], uma jovem com pouco mais de 20 anos que visava um curso de teatro na Áustria. Viajava de Berlim a Viena para fazer um teste – queria ser atriz de teatro. Era minha romântica companhia em uma curta viagem de ônibus.
A viagem não foi das melhores não. Ônibus na Europa é meio desconfortável. Interessante ver pequenos televisores transmitindo o que a câmera captava lá de fora. Pra mim inusitado. Fora isso, nada demais. A não ser a dureza e pouca inclinação da poltrona que me lembrou os tempos áureos dos voos Campinas - Foz do Iguaçu.
Dureza no banco, mas boa companhia. A jovem tedesca me deu algumas dicas culturais de Berlim. Talvez me sirva para uma próxima viagem. Mapa no colo, e dá-lhe mãos apontando este e aquele lugar. Deu no que deu. Em uma curta viagem, o primeiro caso europeu.
Legal a companhia dela. Contou-me sobre os planos na Áustria e sua carreira de teatro. E encenou parte do monólogo que ela iria apresentar em seu teste. Tudo em alemão. Não entendi patavina, mas gostei.
A curta viagem tinha destino. Estranhei algumas pichações em uma construção histórica. Lembravam fogo. Diferente das bonitas paisagens logo no amanhecer do dia. Pegar o nascer do sol na estrada foi único.
Mas é dia e tem sol. Hora de me despedir de minha companheira e desejar-lhe sorte. Embora tenhamos trocado endereço, não voltamos a nos falar. Espero que ela tenha conseguido a vaga na escola de arte. Mas foco. Acordar o Juttel, ajeitar as malas e pisar em solo austríaco.
Cheiro de futebol no ar, com toques de final de campeonato. Coisa que vocês encontram no próximo post.
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Berlim Cor-de-rosa
Imagine Priscila, a rainha do deserto, causando com sua imensa capa prateada; acompanhando o caminhão, o Patrick Swayze deitando o cabelo em “Para Wong Foo, Obrigada por tudo”; e ainda, o elenco completo de “Gaiola das Loucas”. Tudo junto, loucas e desvairadas. Mas com sotaque alemão. Foi neste mundo cor-de-rosa que Juttel e eu baixamos ao chegar em Berlim.
A viagem de trem terminara na estação Berlin Hauptbahnhof. Fizemos nossa meia hora de descanso: procurar um locker para deixar as bagagens (sim, agora tenho bagagem), comer alguma coisa, buscar mapas para orientar o passeio. Estávamos cansados, mas prontos para outra. E meu parceiro de viagem todo orgulhoso aspirava o ar de seu país de origem.
Saímos da estação seguindo uma seta no mapa, o que tivesse de turístico pela frente veríamos. Berlim é linda, por isso, o passeio de um só dia soou um tanto instantâneo. Mas valeu a pena.
Administração teutônica
E o primeiro ponto turístico que cruzou nossa seta guiadora foi o Reichtag, o Parlamento alemão. Legal a miscelânea do histórico com o moderno. O prédio antigo em contraste com a construção circular de aço e vidro. Aliás, essa contradição estaria presente em outros momentos de nossa curta estada.
Dali seguimos em direção ao majestoso Portão de Branderburgo, famoso por dividir as duas Alemanhas no século passado – ou permitir o acesso de lá pra cá e de cá pra lá, afinal, é um portão.
Tomado pelo espírito da final da Eurocopa, o Portão era palco de uma incrível fanzone que, um dia depois, ficaria lotada de alemães ávidos por vencer espanhóis no campo (mas isso é mais pra frente).
Mudamos nossa seta e seguimos o caminho original do Muro de Berlim, estando ora no oriente ora no ocidente. Fomos dar de cara com um praça repleta de blocos de concreto, de diversos tamanho. É o Memorial das Vitimas do Holocausto, uma tocante homenagem fincada no coração de Berlim.
Ali, o ar alemão aspirado por Juttel tinha odores de História. Seguindo pela cicatriz do muro da vergonha, encontramos uma ferida ainda aberta: uma parte do muro preservada por motivos históricos e turísticos. Dava para sentir bem o clima de história exalado por aqueles resquícios de muro (com a qual eu voltaria a ter contato, no museu do comunismo, em Praga).
Interessante ver os sinais da mudança. Do lado oriental do muro (no sentido geográfico, que o político não existe mais), um imenso cartaz da Coca-Cola, patrocinadora da fanzone, deixa claro qual sistema manda.
Mas mais adiante, em um elevado, foi como voltar ao passado e ver as duas Alemanhas novamente. Ao oriente, aqueles prédios marrons bem característicos do filme “Adeus Lênin”. Ao ocidente, os modernos aço e vidro em construções de design extravagantes. Isso é Berlim.
Chuva de purpurina
Então recebi um jornalzinho de um cara. Agradeci com a cabeça e, antes de me virar, percebi que o rapaz piscava pra mim. Abri o jornal, foi como se uma chuva de purpurina caísse sobre a cidade tirando aquele ar sério e histórico e tingindo Berlim de cor-de-rosa. Ou com todas as cores do arco-íris, para ser mais exato. Estávamos em pleno “Christopher Street Day”.
O dia do Orgulho Gay é comemorado em toda Europa, embora com nomes distintos em outros paises. É uma grande passeata em defesa do direito de minorias, como os homossexuais, bissexuais, transexuais, etc. A Berlim histórica que queríamos conhecer se vestiu com as cores da diversidade sexual e com mensagens de tolerância e respeito. Foi engraçado e divertido.
Pelo centro histórico já não sabíamos mais o que era o que. Nossa seta não tinha mais razão de ser, pois quem ditava o ritmo do passeio eram as dezenas de homens marombados em trajes sumários, ou drags queens gigantes pintadas de cima a baixo, rapazes ora de seios postiços ora de bunda à mostra e outros com sungas de couro e coleira. O Juttel corria a se explicar: “Não foi nada combinado. Estamos aqui por acaso”. De fato não foi, mas conhecer Berlim sob o viés de sua gente cor-de-rosa foi bastante interessante.
Sprint final
Daquele momento de sodomia caminhamos conhecer uma das igrejas mais fantásticas de toda a viagem, a Berliner Dom, ou Catedral de Berlim. Bela e grandiosa, sua primeira construção data do início do século passado. Fica pertinho da prefeitura de Berlim e de um jardim, o Lustgarten. Atrás, no mesmo enquadramento da foto, reprisando o histórico e o moderno, a torre da TV.
Imponente por fora e por dentro, paramos para descansar e apreciar a catedral. Assim como todas as grandes igrejas há, embaixo, as catacumbas com caixões e esquifes onde jazem os corpos de religiosos. E, subindo um sem-número de degraus, pudemos apreciar a vista lá de cima e ver a maquete. Encantadora.
A visita já estava ganhando ares de despedidas. Na ilha dos museus, conhecemos o Pergamo Museu e o Bode Museu, mas só por fora. Também sobrou um tempinho para tomar a cerveja local, meio litro de Berliner, e ainda começar a se coçar para arrumar um jeito de chegar à próxima parada.
Foi assim por acaso que conseguimos encontrar a passagem, pelo celular de uma berlinense que trabalhava num show de teatro, que estava sentada diante do computador. Meio às pressas, na loucura.
Foi também por acaso que nós, na correria de chegar à rodoviária, pensamos em conhecer um último ponto turístico: a estonteante Coluna da Vitória (Siegessäule). Mais por acaso ainda foi ver o final do “Christopher Day” por lá. Outro cartão postal de Berlim tingido de cor-de-rosa, mas não tínhamos tempo para mais nada.
Só para pegar um táxi e voar para a rodoviária, bem distante dali. No caminho, mundo pequeno, vimos o casal sueco passeando, calmos como são os suecos, com seus uniformes esportivos. Mas, foco. O táxi cortou as ruas de Berlim, nossa seta agora era precisa e acelerada.
Quase perdemos o ônibus, mas foi por pouco. Embarcamos para uma curta viagem por solo alemão rumo à próxima parada.
E você, segue viagem conosco?
A viagem de trem terminara na estação Berlin Hauptbahnhof. Fizemos nossa meia hora de descanso: procurar um locker para deixar as bagagens (sim, agora tenho bagagem), comer alguma coisa, buscar mapas para orientar o passeio. Estávamos cansados, mas prontos para outra. E meu parceiro de viagem todo orgulhoso aspirava o ar de seu país de origem.
Saímos da estação seguindo uma seta no mapa, o que tivesse de turístico pela frente veríamos. Berlim é linda, por isso, o passeio de um só dia soou um tanto instantâneo. Mas valeu a pena.
Administração teutônica
E o primeiro ponto turístico que cruzou nossa seta guiadora foi o Reichtag, o Parlamento alemão. Legal a miscelânea do histórico com o moderno. O prédio antigo em contraste com a construção circular de aço e vidro. Aliás, essa contradição estaria presente em outros momentos de nossa curta estada.
Dali seguimos em direção ao majestoso Portão de Branderburgo, famoso por dividir as duas Alemanhas no século passado – ou permitir o acesso de lá pra cá e de cá pra lá, afinal, é um portão.
Tomado pelo espírito da final da Eurocopa, o Portão era palco de uma incrível fanzone que, um dia depois, ficaria lotada de alemães ávidos por vencer espanhóis no campo (mas isso é mais pra frente).
Mudamos nossa seta e seguimos o caminho original do Muro de Berlim, estando ora no oriente ora no ocidente. Fomos dar de cara com um praça repleta de blocos de concreto, de diversos tamanho. É o Memorial das Vitimas do Holocausto, uma tocante homenagem fincada no coração de Berlim.
Ali, o ar alemão aspirado por Juttel tinha odores de História. Seguindo pela cicatriz do muro da vergonha, encontramos uma ferida ainda aberta: uma parte do muro preservada por motivos históricos e turísticos. Dava para sentir bem o clima de história exalado por aqueles resquícios de muro (com a qual eu voltaria a ter contato, no museu do comunismo, em Praga).
Interessante ver os sinais da mudança. Do lado oriental do muro (no sentido geográfico, que o político não existe mais), um imenso cartaz da Coca-Cola, patrocinadora da fanzone, deixa claro qual sistema manda.
Mas mais adiante, em um elevado, foi como voltar ao passado e ver as duas Alemanhas novamente. Ao oriente, aqueles prédios marrons bem característicos do filme “Adeus Lênin”. Ao ocidente, os modernos aço e vidro em construções de design extravagantes. Isso é Berlim.
Chuva de purpurina
Então recebi um jornalzinho de um cara. Agradeci com a cabeça e, antes de me virar, percebi que o rapaz piscava pra mim. Abri o jornal, foi como se uma chuva de purpurina caísse sobre a cidade tirando aquele ar sério e histórico e tingindo Berlim de cor-de-rosa. Ou com todas as cores do arco-íris, para ser mais exato. Estávamos em pleno “Christopher Street Day”.
O dia do Orgulho Gay é comemorado em toda Europa, embora com nomes distintos em outros paises. É uma grande passeata em defesa do direito de minorias, como os homossexuais, bissexuais, transexuais, etc. A Berlim histórica que queríamos conhecer se vestiu com as cores da diversidade sexual e com mensagens de tolerância e respeito. Foi engraçado e divertido.
Pelo centro histórico já não sabíamos mais o que era o que. Nossa seta não tinha mais razão de ser, pois quem ditava o ritmo do passeio eram as dezenas de homens marombados em trajes sumários, ou drags queens gigantes pintadas de cima a baixo, rapazes ora de seios postiços ora de bunda à mostra e outros com sungas de couro e coleira. O Juttel corria a se explicar: “Não foi nada combinado. Estamos aqui por acaso”. De fato não foi, mas conhecer Berlim sob o viés de sua gente cor-de-rosa foi bastante interessante.
Sprint final
Daquele momento de sodomia caminhamos conhecer uma das igrejas mais fantásticas de toda a viagem, a Berliner Dom, ou Catedral de Berlim. Bela e grandiosa, sua primeira construção data do início do século passado. Fica pertinho da prefeitura de Berlim e de um jardim, o Lustgarten. Atrás, no mesmo enquadramento da foto, reprisando o histórico e o moderno, a torre da TV.
Imponente por fora e por dentro, paramos para descansar e apreciar a catedral. Assim como todas as grandes igrejas há, embaixo, as catacumbas com caixões e esquifes onde jazem os corpos de religiosos. E, subindo um sem-número de degraus, pudemos apreciar a vista lá de cima e ver a maquete. Encantadora.
A visita já estava ganhando ares de despedidas. Na ilha dos museus, conhecemos o Pergamo Museu e o Bode Museu, mas só por fora. Também sobrou um tempinho para tomar a cerveja local, meio litro de Berliner, e ainda começar a se coçar para arrumar um jeito de chegar à próxima parada.
Foi assim por acaso que conseguimos encontrar a passagem, pelo celular de uma berlinense que trabalhava num show de teatro, que estava sentada diante do computador. Meio às pressas, na loucura.
Foi também por acaso que nós, na correria de chegar à rodoviária, pensamos em conhecer um último ponto turístico: a estonteante Coluna da Vitória (Siegessäule). Mais por acaso ainda foi ver o final do “Christopher Day” por lá. Outro cartão postal de Berlim tingido de cor-de-rosa, mas não tínhamos tempo para mais nada.
Só para pegar um táxi e voar para a rodoviária, bem distante dali. No caminho, mundo pequeno, vimos o casal sueco passeando, calmos como são os suecos, com seus uniformes esportivos. Mas, foco. O táxi cortou as ruas de Berlim, nossa seta agora era precisa e acelerada.
Quase perdemos o ônibus, mas foi por pouco. Embarcamos para uma curta viagem por solo alemão rumo à próxima parada.
E você, segue viagem conosco?
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sábado, 27 de setembro de 2008
Dentro da boneca russa
A matrioshka é aquela bonequinha tradicional da Rússia, um brinquedo formado por uma série de bonecas de madeira de tamanhos diferentes – a menor colocada dentro da maior e assim por diante (na ex-soviética Praga existem milhares delas). Pois foi como estar dentro de uma matrioshka o sentimento da viagem de Malmö a Berlim.
Fim do congresso, nos despedimos do grupo: a sociedade do anel estava desfeita. Flávia e Davi ficariam mais um dia em Malmö e depois conheceriam Praga, Enio esticaria alguns dias em Copenhague e terminaria a viagem em Amsterdam. Mas o Juttel e eu estávamos com pressa, nossa programação era mais puxada.
Fomos para a estação de trem de Malmö pela último vez, o Juttel com seu eterno toc-toc do arrastar de mala, e eu fazendo conjunto com ele e feliz da vida por ter minha bagagem de volta. Pegamos o trem e vimos a pequena Malmö ficar para trás.
Foi minha primeira vez em um trem com cabines e camas. Tivemos a sorte de pegar as camas do meio e nos demos bem com um casal de silenciosos e bem comportados (sério?) suecos. Obviamente não ficamos parados, enfiamos a cara pela janela, vimos um velho alemão que dava medo e conhecemos uns adolescentes noruegueses de passeio no país vizinho.
Pelo lado de fora da janela, a Suécia ia correndo em sentido contrário ao do trem. Passamos por áreas mais pobres – sim elas existem – com casinhas conjugadas e micro-quintais, plantações e outras paisagens. A noite ia caindo, talvez reflexo de nossa descida em direção ao latitudes menores. Mas então o trem parou.
De cara não entendi bem aquela gente loira e nórdica tentando me explicar. Como assim? “Train on boat?” Foi o Juttel que contou. “Um pouco para direito chefia, isso, agora externa tudo”, diria um manobrista. E o trem, na boca do litoral, estava fazendo manobras para entrar dentro de um navio!
Já peguei balsas estando dentro de carros, mas trem dentro de navio, confesso, primeira vez. Lembro que sentia o chacoalhar nauseante da embarcação, enquanto deitado escrevia algumas linhas na agenda: “Mar do Norte. Penso que seja esse o nome do lugar onde estou agora, em alguma parte do Oceano Atlântico. Estranho dizer, mas estou em um trem!”
A viagem foi doida, de fato. Saímos do trem e pegamos um elevador para o alto do navio. Quando saímos pela porta, bizarro: pessoas esparramadas por aqui e ali, gente em restaurante, uma mulher no caça-níqueis com o filho, um freeshop.
Subimos mais um pouco e estávamos do lado de fora do navio. Vento cortante trazendo a brisa do Atlântico Norte (“É como se mil facas entrassem em seu corpo”, diria Leonardo Di Carpio sobre a temperatura da água naquela latitude do oceano, em um filme conhecido). A vista? Belíssima. De longe víamos o pôr-do-sol lá na Escandinávia – na terra do sol da meia noite, nada mais apropriado que o sol se demorasse um pouquinho mais.
Voltamos para o navio, andamos aqui e ali e eu preferi voltar ao trem. Estava preocupado com o macbook e bastante cansado. Tomei uma daquelas águas minerais em caixinha. “Não pode tomar água da torneira”, tinha avisado a prestativa sueca ao Juttel. “Ela deve pensar que eu sou bobo”, reclamou ele pra mim, minutos depois.
O Luiz disse ter sofrido com um vento nos fundilhos, mas eu dormi como anjo. Nem vi quando o trem deixou de ser bagagem e andou com as próprias pernas, em trilhos alemães. Também não percebi quando chegamos à grandiosa Berlin Hauptbanhof.
Tema, claro, para outro post.
Fim do congresso, nos despedimos do grupo: a sociedade do anel estava desfeita. Flávia e Davi ficariam mais um dia em Malmö e depois conheceriam Praga, Enio esticaria alguns dias em Copenhague e terminaria a viagem em Amsterdam. Mas o Juttel e eu estávamos com pressa, nossa programação era mais puxada.
Fomos para a estação de trem de Malmö pela último vez, o Juttel com seu eterno toc-toc do arrastar de mala, e eu fazendo conjunto com ele e feliz da vida por ter minha bagagem de volta. Pegamos o trem e vimos a pequena Malmö ficar para trás.
Foi minha primeira vez em um trem com cabines e camas. Tivemos a sorte de pegar as camas do meio e nos demos bem com um casal de silenciosos e bem comportados (sério?) suecos. Obviamente não ficamos parados, enfiamos a cara pela janela, vimos um velho alemão que dava medo e conhecemos uns adolescentes noruegueses de passeio no país vizinho.
Pelo lado de fora da janela, a Suécia ia correndo em sentido contrário ao do trem. Passamos por áreas mais pobres – sim elas existem – com casinhas conjugadas e micro-quintais, plantações e outras paisagens. A noite ia caindo, talvez reflexo de nossa descida em direção ao latitudes menores. Mas então o trem parou.
De cara não entendi bem aquela gente loira e nórdica tentando me explicar. Como assim? “Train on boat?” Foi o Juttel que contou. “Um pouco para direito chefia, isso, agora externa tudo”, diria um manobrista. E o trem, na boca do litoral, estava fazendo manobras para entrar dentro de um navio!
Já peguei balsas estando dentro de carros, mas trem dentro de navio, confesso, primeira vez. Lembro que sentia o chacoalhar nauseante da embarcação, enquanto deitado escrevia algumas linhas na agenda: “Mar do Norte. Penso que seja esse o nome do lugar onde estou agora, em alguma parte do Oceano Atlântico. Estranho dizer, mas estou em um trem!”
A viagem foi doida, de fato. Saímos do trem e pegamos um elevador para o alto do navio. Quando saímos pela porta, bizarro: pessoas esparramadas por aqui e ali, gente em restaurante, uma mulher no caça-níqueis com o filho, um freeshop.
Subimos mais um pouco e estávamos do lado de fora do navio. Vento cortante trazendo a brisa do Atlântico Norte (“É como se mil facas entrassem em seu corpo”, diria Leonardo Di Carpio sobre a temperatura da água naquela latitude do oceano, em um filme conhecido). A vista? Belíssima. De longe víamos o pôr-do-sol lá na Escandinávia – na terra do sol da meia noite, nada mais apropriado que o sol se demorasse um pouquinho mais.
Voltamos para o navio, andamos aqui e ali e eu preferi voltar ao trem. Estava preocupado com o macbook e bastante cansado. Tomei uma daquelas águas minerais em caixinha. “Não pode tomar água da torneira”, tinha avisado a prestativa sueca ao Juttel. “Ela deve pensar que eu sou bobo”, reclamou ele pra mim, minutos depois.
O Luiz disse ter sofrido com um vento nos fundilhos, mas eu dormi como anjo. Nem vi quando o trem deixou de ser bagagem e andou com as próprias pernas, em trilhos alemães. Também não percebi quando chegamos à grandiosa Berlin Hauptbanhof.
Tema, claro, para outro post.
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