segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Segunda-feira. Homens-pássaros e um moai negro

Com a mão no queixo e o pensamento longe, eu encarava um pequeno moai negro, de 2,5 metros de altura, com mamilos e estranhos símbolos nas costas. Sua cabeça não era coberta por um pukau, tampouco os pés pisavam sobre um ahu. Ele estava em um modesto altar branco, cercado de paredes e luz artificial, no primeiro piso do Museu Britânico, em Londres. Era junho de 2011, meu último dia em uma viagem de um mês pelas ilhas britânicas. Não esperava encontrar ali a famosa estátua rapa nui.

O poderoso Hoa Hakananai'a hoje está em outra ilha: a britânica

De volta à Ilha de Páscoa, em meu segundo dia contrariei as dicas de  Rober. Meteorologista do aeroporto Mataveri, ele me advertira para as condições do clima: chuva o dia todo. Por causa disso, iria ao museu. O ideal é ir logo nos primeiros dias de viagem para poder visitar os pontos turísticos munido de informação.

Rober me avisara da chuva, mas não disse que o museu Padre Sebastian Englert fecha às segundas. Aberto de terça a sábado, entre 9h30 e 17h30, e nos domingos e feriados, das 9h30 às 12h30, ele é uma sala simples, com muita informação em textos nas paredes, mas com poucos exemplares em sua pobre coleção. A entrada é mil pesos e vale perder uma hora lá.

Como estava perto do complexo Tahai, fui dar uma banda. Passei pelo Ahu Tahai, caminhei até os cinco moais do Ahu Vai Uri, à esquerda, e voltei até o isoloado Ahu Ko Te Riku com seu pukau sobre a cabeça e os olhos esbugalhados. Foi quando caíram as primeiras gotas. Insisti em fazer algumas fotos mesmo debaixo do chuvisco que virou garoa e, por fim, chuva de verdade. Quando chovia torrencialmente, eu já estava correndo pela Avenida Atamu Tekena, a principal de Hanga Roa, completamente encharcado, pulando poças. Parei no Centro de Artesanato.

Complexo Tahai em dia de chuva. Voltaria aqui algumas vezes

É no centro que você, leitor, vai comprar as lembranças e presentes para a família. E, como eu, tomar um café e relaxar. Tinha uma bermuda e uma blusa reserva na mochila e troquei. Fique batendo papo com um taiwandês que mora no Chile e tem parentes vivendo em Ciudad Del Este (Paraguai), enquanto tomava café. Recomendo: é o café mais barato da cidade, e você que prepara (água quente com café solúvel, leite em pó e açúcar, nada de mais).

Comprei uma capa de chuva e comentei com duas mulheres sobre a música repetitiva de Elvis Presley no rádio. “Melhor que esta música suki”, me responderam (depois falo sobre a tensão entre chilenos continentais e rapa nuis). Passei pela casa de Rober para trocar a roupa e fui conhecer o primeiro dos três grandes vulcões da ilha de Páscoa.

Amigo roubado


A subida pela trilha do vulcão Rano Kau (foto) é bastante íngreme e a caminhada dura cerca de meia hora. Se quiser economizar tempo e esforço, pode ficar na estrada e pegar uma carona ou alugar um carro. Eu gosto de caminhar. Subi, bufando, pensando em cenários irreais na cabeça, como a briga com um leão munido apenas de um pedaço de pau (!).


No alto, a 324 metros acima do nível do mar, a linda cratera do Rano Kau, com seu 1,5 km de diâmetro e 280 metros de profundidade. Lá embaixo, uma lagoa onde sobrevive vegetação com plantas autóctones e um microfauna. Do lado oposto é possível ver o mar graças a uma fratura na parede do vulcão chamada Kari-Kari.

Conheci uma americana e a falante australiana Sophia, que foi comigo por uma trilha contornado a cratera pela direita até a entrada do Parque Nacional. Lá, apresentamos o ticket para entrar no sítio arqueológico de Orongo.

A cratera do Rano Kau. Ao fundo, a fratura Kari-Kari permite a visão do mar

Era em Orongo que ficava o moai Hoa Hakananai'a (“amigo roubado”, em Rapa Nui). A estátua é singular: esculpida em basalto, tem petróglifos (entalhe nas rochas) nas costas, e representa a troca política-cultural pela qual passou a ilha Rapa Nui por volta de 1680. Bem mais tarde, em 1868, uma expedição britânica levou o moai para a coleção da rainha Victória. Hoje, ele repousa em seu altar branco, no primeiro piso do Museu Britânico, deixando confusos visitantes, como eu.

Vista do outro lado, em Orongo, a cratera de Rano Kau

Muito mais que um ovo

O século XVII foi de mudanças à sociedade Rapa Nui. Por volta de 1620 era levantado o último ahu. Sem recursos para erguer novas estátuas, os clãs preferiam derrubar os moais dos rivais. Era o fim da integração que marcou aquela sociedade e que permitiu sua prosperidade. Em 1680, o deus Make-Make (vinculado à fertilidade, primavera e às aves), antes apenas um do panteão rapa nui, passou a ser adorado com  mais afinco. A política e a cultura seriam marcadas pela caça a um ovo.

A competição do tangata-maru, o homem-pássaro, significava mais do que práticas religiosas e culturais, mas marcava a política da ilha. Em agosto, os hopu, representantes dos chefes de clã, desciam a encosta do Rano Kau até o mar e nadavam os 1.400 metros entre Páscoa e a ilha Motu Nui, a maior das três ilhotas no extremo sudeste (as outras são Motu Iti e Motu Kao-Kao - "Motu" significa "ilha").

Depois de Orongo, já na orla. Pescadores enfrentam o mar furioso 

Segundo a lenda, o deus Make-Make vivia nesta ilha. Foi ele que trouxe a ave manutara (Onychoprion fuscatus) para se reproduzir em Motu Nui. Os homens ficavam dias ou semanas na ilha até as aves chegarem para nidificar, normalmente em setembro. O cara tinha que pegar o ovo, prendê-lo à cabeça e nadar de volta para Páscoa. Quem chegasse antes se tornava o tangata-maru por um ano e ganharia privilégios e tabus (tapu), como não poder ser encarado por ninguém. Ele desfilaria por toda a ilha com sua família e clã, para comemorar a vitória, e fixaria residência em Orongo ou Anakena. O chefe de seu clã era eleito rei da ilha também por um ano.

A mais distante das ilhotas, Motu Nui, recebia homens e pássaros todo ano

Em Orongo você pode imaginar tudo isso ao ver, ao fundo, as três ilhas. No vilarejo, estão as 54 casas de pedra em formato de canoa, usadas unicamente durante a competição do homem-pássaro. Também estão a maior parte dos petróglifos da ilha, quase 500, representando Make-Make, manutara e o tangata-maru. A última competição aconteceu em 1867 e foi vista por missionários católicos.

Ana Kai Tangata e a falante australiana Sophia

Na volta para Hanga Roa, pegamos carona com um nativo para descer o Rano Kau. Caminhando pela orla, parei para apreciar o mar nervoso e azul surrando as pedras negras. Gente pescando, momento para reflexão. Perto de um parquinho, tem a escada que leva a Ana Kai Tangata, uma caverna voltada para o mar onde os Rapa Nui faziam embarcações.

Ahu Vai Uri ao pôr do sol. Depois, voltei pra casa no escuro, tateando o ar
 
Separei-me de Sophia e ela continuou o trajeto com um casal de húngaros. Almocei algo qualquer no centro e fui novamente para Tahai. Queria fazer fotos do pôr do sol, mas fiquei lá mais tempo que deveria. Estava escuro, sem iluminação artificial tive que caminhar tateando o ar, passei pelo cemitério de muro baixo com aquelas luzinhas alimentadas por energia solar. Sinistro. Ilha de Páscoa dormia, era só eu naquelas ruas silenciosas. Cheguei, enfim, à casa de Rober e tomei uma sopa de tomate com meu amigo mestre-cuca. Estava bem cansado.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Domingo. Em Anakena com amigos

A praia de Anakena, na Ilha de Páscoa, é um exemplo claro dos paradisíacos cenários da Polinésia. Páscoa é um dos vértices deste triângulo, formado também por Hawaí e Nova Zelândia, que integra várias ilhas do Oceano Pacífico. Sua única praia (aliás, existe outra, a minúscula Ovahe, em vias de extinção) representa este ambiente: coqueiros, areia branca, mar azul, céu aberto. Bonito para apreciar, delicioso para nadar, mergulhar e andar de caiaque com os amigos em meu primeiro dia na ilha rapa nui.

A linda e polinésica Anakena, com seus coqueiros, céu aberto e mar azul turquesa

Tinha chegado cedo naquele domingo ao aeroporto Mataveri, após um dia de conexões. Em uma de minhas paradas, de volta ao aeroporto Jorge Chávez (Lima) após quatro anos, tentei sem sucesso dormir algumas horas. Ilha de Páscoa é misteriosa ao amanhecer. Em parte, pela expectativa que temos antes de conhecer qualquer lugar. Passei a manhã dormindo na casa de Roberto Osorio Ossandón, meu amigo CouchSurfing que me hospedaria por três dias. Rober faria mais: apresentaria o amigo Carlos “Nacho” Toledo, sua esposa, Vianca Toledo, e a filha de 5 meses e meio, Amanda. Sem os quatro, a viagem não teria a menor graça.

Foi com eles que conheci o pastel de choclo, minha primeira refeição típica chilena - uma torta à base de milho com carne moída, frango e salpicada de açúcar, servido pelo chef Rober. Uma delícia! Almoçamos, tomando a cerveja chilena Escudo. Depois, colocamos os dois caiaques de Nacho na picaque e fomos à praia, do outro lado da ilha.


Água, céu e areia em Anakena

Cabe aqui um breve mapa de Páscoa: a ilha é triangular, com lados de 24 km, 16 km e 12 km, e área de 166 km2. O aeroporto é praticamente dentro da cidade de Hanga Roa, o único vilarejo, localizado na ponta sudoeste do triângulo. Alguns pontos turísticos, como o grande vulcão Rano Kau, o centro arqueológico de Orongo, o complexo Tahai ou Ana Rai Tangata ficam nesta região, a poucos minutos a pé de Hanga Roa. A praia de Anakena fica no outro extremo, 18 km à norte, entre os vulcões Terevaka e Poike (os outros dois grandes). Uma estrada em ótimo estado chega até a praia.



Remando perto da praia de Anakena. Parece que estou em uma abóbora


Além de linda, Anakena tem uma particularidade: é uma praia com som ambiente. Em um elevado, os nativos colocam caixas de som enormes tocando música suk, ou kisomba, uma batida parecida com a do reggaeton que é mixada a toda música pop, de Adele à MPB. Com este som, dei minhas primeiras remadas no mar azul e gelado da Polinésia. Fazia sol, me afastei da costa e deitei sobre o caiaque apenas para curtir.


Enquanto isso, nossos amigos ficaram em terra firme – Vianca protegendo Amanda do sol, Nacho e Rober conversando. Como vou ficar um pouco sobre o caiaque, temos um tempinho para apresentar parte do grupo. Vianca e Nacho formam um casal adorável. Os dois são controladores de voo no aeroporto Mataveri; se conheceram na faculdade, há 10 anos. Só há dois estão casados. “Precisa passar pela crise dos sete anos", diz Vianca, explicando um dos motivos do longo namoro. “Aos sete anos, as pessoas se separam”. O outro motivo foi a grana. Queriam fazer uma festa linda. Fizeram duas, uma na ilha Rapa Nui, em Tahai; outra em Santiago, para a família e amigos. Há menos de seis meses, tiveram Amanda e continuam apaixonados e apaixonantes. Sabem que a filha não viverá a vida toda na ilha (nem eles vão), mas Amanda carregará com orgulho nos documentos pessoais o local de nascimento: Ilha de Páscoa.

Rober, Nacho e Vianca com Amanda no colo. Praia com os amigos

Ufa, o sol já está torrando, melhor voltar para a margem. Tomei mais algumas Escudo com os amigos, mas as obrigações de pai e mãe forçavam Nacho e Vianca a levarem Amanda para casa. Rober, por sua vez, estava doente com início de inflamação da garganta. Eles foram, eu fiquei, com a promessa de voltar de carona.

Ahu Nau Nau, em Anakena. Um ótimo exemplo de moais com pukau

Pude caminhar um pouco mais pela praia e me aproximar pela primeira vez de um moai: o Ahu Ature Huki, com seu moai isolado. Depois, o belíssimo Ahu Nau Nau, erguido sobre areia da praia com seus sete moais (cinco deles inteiros, quatro com o pukau sobe a cabeça). Vamos lá, já está na hora de explicar alguns termos: ahu é a plataforma onde são erguidas estas estátuas de pedra, os moais. Pukau é o adorno colocado sobre a cabeça que, embora lembre um chapéu, provavelmente representa o cabelo amarrado para cima, típico do povo rapa nui e polinésico em geral.

De longe, o ahu Nau Nau e o mar de Anakena

Era tarde e, com duas caronas, cheguei à Hanga Roa. É fácil conseguir carona na rota que leva à Anakena. Espere, acene e sorria: os carros param. Dei uma volta ainda perdido pela cidadezinha, fui à costa, vi outros moais, mas não estava familiarizado - só no terceiro dia a gente está. Cheguei tarde à casa de Rober para comer um macarrão ao molho branco com meu amigo. Ele estava mal, dormimos cedo. No outro dia, conheceria o primeiro dos três grandes da ilha de Páscoa.

domingo, 21 de outubro de 2012

Dia 13: 29 anos em Firenze

Oi pappa, oi mamma, tudo bem?

Décimo terceiro dia de Itália (27/02). Dia de meu aniversário. Se passei a entrada nos 28 aninhos em Lima, o primeiro dia de meus 29 começaram em Firenze e terminam em Roma. Um dia com as curvas de Davi, uma viagem de trem muito estranha e amigos romanos me desejando parabéns. Só do Brasil, não veio nada. Ninguém me ligou (fiquei esperando o dia todo o celular tocar...)



Mas bem, a vida segue. Acordei hoje disposto a aproveitar o aniversário. Como só encontraria meu CS de Roma no final do dia, acabei me enrolando para deixar Firenze. E aproveitei isso. Bem, na verdade, os 29 anos começarm um pouquinho antes, em uma festa na faculdade de agrárias da Universidade de Firenze, no meio de um monte de estudantes estranhos. Estes europeus são malucos. A festa estava bem boa, fomos com umas amigas do Vanni, fiquei dando indicações, em italiano, de como não deixar embassar o vidro do carro. Na festa, dancei bastante. Recebi de meu amigo fiorentino o primeiro parabéns da cidade. E a banda tocou a tal "Cacao meraviglao", hehehhe.

Os italianos tiram sarro de nosso "ão". Eles dizem que para imitar os brasileiros basta falar o "ão" no final das frases. Mas eles não conseguem falar “ão” daí sai "ao". Aí, lá na década de 70 ou 80, não lembro, fizeram uma música tirando sarro de como o português brasileiro soa para os italianos. É muito trash e brega, enfim, é de época. Mas engraçada. No youtube, dá para ver aqui. Recomendo.

La mamma `e il piu bel fiore nel giardino della vita

Bem, fomos dormir e acordei bem hoje de manhã. Ajeitei minhas coisas e fui bater perna. Queria fazer um aniversário bacana. Dia de sol, passei por uma loja e vi uma plaquinha que era a cara da mãe. Tirei a foto, depois te mostro [na verdade eu comprei a plaquinha para mãe, mas não falei isso no e-mail, a frase é “La mamma `e il piu bel fiore nel giardino della vita”]. Aí parei para tomar um cappuccino e um croissant de aniversário. E uma tortina para cantar parabéns. Fui até a Piazza de Santa Cruce, solzinho gostoso, cheio de turistas. Fiz ali o ritual do parabéns [o mesmo que fiz em Lima, um ano antes. Veja aqui]. Pronto, já tenho 29 anos. Bora ao que mais importa no dia, as curvas de Davi.



Fui cruzando a cidade deste a Santa Croce até a Galleria dell'Academmia. Já nem preciso de mapa, só olhar para cima buscando o Duomo, seguir em direção a ele, depois em direção ao Palácio dos Medici, me orientando pela igreja de San Lorenzo, viro uma a sinistra (esquerda) e outra a destra (direita). Pronto estou ali.

Última caminhada por Firenze no dia de meu aniversário 

Estava naquela mesma euforia de quando vi O Nascimento de Vênus, de Botticelli. Queria ver logo Davi. Mas fiquei desfrutando a expectativa. Tinha uma mostra de quadros de pintores menores do Trecento e do Quatrocento. Fiquei admirando, analisando, lendo a legenda. Então, uma sala de esculturas, a sala do Colosso. Com quatro obras inacabadas de Michelângelo, que ornariam o túmulo de um papa, não lembro qual. E, de repente, viro o pescoço e lá estava Davi. Tomei um baita susto. A estátua mais importante da história da humanidade, ali, e eu de bobeira.

Analisei um pouco mais as outras esculturas enquanto caminhava em direção ao Davi. Lindíssima, depois dela não é precivo ver qualquer outra escultura. A perfeição das veias na mão, a proporção dos músculos, a forma como ele se apóia sobre a perna direita. O olhar fixo para esquerda, de onde, na lenda grega, vem sempre o ataque. É o momento em que prepara a pedra na funda para atirar em Golias. O pé esquerdo, se prepara para o movimento, ele mudaria o peso do corpo no próximo lance. Na mão direita já tem a pedra escondida, na esquerda, segura a ponta da funda.

Davi, de Michelângelo, a escultura em sua quintessência

Michelângelo trabalhou mais de dois anos para fazer a célebre estátua. O mármore, cedido da Igreja de Santa Maria del Fiore, o Duomo fiorentino, tinha sido recusado por outros escultores, entre eles o mestre Da Vinci. Mas o maior escultor da história não deixou passar e criou sua obra prima. Em Roma, vou ver a Pietá e o Moisés, outras obras dele. Mas depois de Davi, nem precisaria.

Outra caminhada e as estátuas dei Uffici

Aí vi outras estátuas e outros quadros. Almocei um panino com carne de porco e vinho tinto em uma bodega pequena de dono simpático. Dei mais uma volta pela feira da piazza San Lorenzo, conversei com um brasileiro. Estava meio em clima de despedida. Atravesei a cidade novamente, passando mais uma vez pelo Duomo e seguindo em direção ao Rio Arno. A Piazza dei Signoria sempre apinhada, a Piazza dalla República, música ao vivo com uma moça de voz linda. Consegui chegar ao rio e pegar a água [minha coleção]. Tinha uns treinos de canoagem lá, mas eu não tinha tempo.

Corri arrumar minhas coisas. Me despediria de Firenze. Dei um abraço em Donna Rita, que me desejou boa viagem. Vanni me acompanhou até a estação. No trem, um pouco de leitura e dificuldade para dormir. Estava meio dormindo-acordado e as vezes olhava para uns americanos sentados ao lado e, meio sonâmbulo, falava umas coisas nada a ver. Eles riam e eu voltava dormir.

Em uma das paradas quase fiz das minhas. Sou um sobrevivente a mim mesmo, repito sempre. O trem ia demorar para sair, eu corri para comprar uma coisa para comer. Demorei para pagar e quando voltei a porta já estava fechada. Apertei um dispositivo de emergência e abri a porta à força. O trem começou a sair em seguida. Ufa.



Cheguei cansado a Roma. Lorenzo, meu novo CS, ia me receber na estação as 21h40. E lá estava ele, de carro com a namorada. Demos um giro pela cidade e fomos comer uma pizza em um lugar bem disputado. Pizza boa e barata. Fiquei conversando com os dois e mais um casal de amigos. "É seu aniversário", disse Lorenzo me cumprimentando. Brindamos, lembrei-me mais uma vez da data querida, que as vezes a gente exagera (é um dia como outro), mas que é bom ter como dia só nosso.

E foi assim que terminei meu dia, com pizza em Roma. Agora estou sentado no chão da casa de Lorenzo. Muito bacana a casa e o couch (sofá) é enorme - mais confortável que a cama lá do Vanni, hehehe. Amanhã (hoje) é domingo, tenho que saber quando o papa reza a missa para ir assistir. Vou dar uma pernada lá no Vaticano. E conto para vocês.

Beijos, vou dormir.
Murilo

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Dia 12: nella Piazza dei Miracoli, o esplendor de Pisa

Oi paizão, oi mãezinha

Décimo segundo dia na Itália (26/02). Pisa é mais do que uma torre. E sua praça principal, mais ainda. A Piazza dei Miracoli, onde está o Duomo de Pisa, o batistero e, claro, a torre, é linda. Toda verde, como um campo e com as três construções. Cá entre nós, a torre nem é lá a mais interessante.

A Torre e a igreja. O dia seria em Pisa

Hoje fiquei me enrolando para saber o que fazer. Não queria viajar no dia de meu aniversário (odeio a incerteza de uma viagem, gosto de estar na cidade, com minha bagagem em algum lugar que não nas minhas costas), queria, pois, viajar hoje a noite para Roma. Mas aí o dia seria curto. Fiquei me enrolando de manhã, para sair. Dei um pulo até a estação para ver os horários de trens. Vou ou não vou a Pisa. Me enrolei.

A bizantina Santa Maria della Novella, após uma manhã chuvosa

Fui então a uma igreja, a Santa Maria della Novella, uma bizantina, muito bonita por dentro. Fiz boas fotos. Após uma chuvinha chata no início da manhã, fez sol e calor. Ótimo. Fui almoçar com Vanni e uns amigos da faculdade de arquitetura. Almoçar, humm, delícia. Esperava sentar e comer umas saladas, algo saudável. O cardápio foi um lampredotto, uma espécie de buchada de vaca (la ultima parte del intestino della mucca) no pão. Diz o Vanni que é comida comum em Firenze. Ao menos entre os estudantes deve ser, heheeh.

 Pela manhã, chuva em Firenze. E eu me enrolando...

Mas aí deixei de enrolar. Objetivo, fui à estação, comprei o biglietto e bora para Pisa. Uma hora de viagem, tempo para lhes contar como funciona o sistema de trem aqui. É fácil, fácil. Compra o bilhete na máquina, valida (convalidare) e pronto. Só tome cuidado com la linea giala, heheeh. Na estação fica um cara falando os horários dos trens e sempre no final diz: Attencione, allontanarse della linea gialla! (atenção, afastar-se da linha amarela!). Eu rio cá dentro toda hora que ouço e repito o linea giala mentamente.


Na viagem entre Bologna e Firenze, uma explicação breve sobre o sistema de trem

Bem, tem os trens barateiros, os chamados regionais, e os mais caros, da Fressarossa. Amanhã, por exemplo, para ir para Roma, eu posso escolher entre passar quatro horas no regional ou uma hora e meia no Fressarossa. Um custa 15 euros, o outro 45. Já estou esperto para pegar trem. Olho para os horários de partida, vou na máquina, busco meu destino, coloco o dinheiro no buraquinho, pego o troco, "convalido" em outra maquininha (é muito importante), e sigo meu rumo.


Em Pisa, um dos melhores CS da viagem, o grande Isaía que me deu uma aula sobre a cidade

E foi assim que cheguei a Pisa. Tinha escrito para outro CouchSurfing se ele tivesse afim de um café em Pisa. É uma outra modalidade, de CS, vc não hospeda nem fica na casa dos outros, é só coffe or drink, ou seja, sair para fazer alguma coisa. Um CS de Pisa, o Isaía, tinha alguns minutos antes do trem dele, para Bergamo, onde mora a sua família - ele está em Pisa estudando Matemática. Mandei uma mensagem de celular, confirmando o horário, atravessei a cidade de Pisa cruzando o Rio Arno que também passa por ali, e lá estava Isaía me esperando na Piazza dei Miracoli. Passei por ele várias vezes até que liguei para o celular e ele, ali pertinho atendeu.

O majestoso Arno, que também passa por Pisa antes de desaguar no Mar de Ligure

O cara é muito gente boa, me mostrou, por exemplo, alguns detalhes da igreja. Bem, todas as construções são lá de 1000 e alguma coisa e foram feitas em uma área pantanosa. A igreja também tem uma parte que é torta. E ela é interessantíssima, sua construção começou em 1064 com mármore de outras igrejas e construções - você vê nitidamente a diferença do mármore; em algumas partes tem até inscrições da outra construção [ela foi construída sobre outra igreja, de 1006. As obras pararam em 1095 por falta de verba e só foi consagrada em 1118]. Em um desses mármores importados, tem um monte de pontinhos dourados: diz a lenda que é impossível contar duas vezes o número de pontinhos e a pessoa que conseguir fazer isso é levada pelo diabo, hehehehe.

Detalhe do mármore da igreja. Consegue contar os pontos?

Outra história interessante é que a igreja foi construída bem junto ao muro da cidade. De fato está lá, o muro, o portão, e a igreja, no final da cidade. É estranho, porque os duomos (igrejas) são, normalmente, construídos no centro das cidades. Bem, Pisa tinha uma relação difícil com a Igreja Católica e usou seu duomo mais como escudo so ataque do povo de Lucca, uma cidade próspera na época (e também muito linda, pena que não vou conhecer) vizinha a Pisa.

O batistério, a igreja e a torre. Trindade óbvia dei tutti piazzi

Mas então, a torre. De fato ela é inclinada, bem inclinada. Mas já foi mais. Para impedir que ela caísse, fizeram o seguinte: colocaram uma máquina que ia retirando lentamente a terra do pé da igreja, para ela voltar aos poucos e reduzir a inclinação. Ela poderia cair se tivessem deixado a inclinação anterior. Ela é bonita, toda branca. Mas não subi não, pô 15 euros para subir numa torre? Nem, deixa para os turistas chineses. Eu fiquei por lá, caminhando, e rindo do pessoal que fazia aquelas fotos de segurar a torre com o pé ou com as mãos. Eu não.

A igreja majestosa e a torre, na Piazza dei Miracoli

Tá, vá lá. Dei umas voltas e fiz umas fotos bem legais, e, em uma, imitei o Michael Jackson naquele clipe que ele se inclina para a frente, meio para ficar igual a torre. Mas segurar com as mãos? Isso não.

Brincadeira com sombras, aproveitando a iluminação da igreja

Aí tomamos um café, especialidade de Pisa. Putz, esqueci de anotar o nome. Era um cappuccino com alguma coisa por cima. Não sei. Fui até outra igreja piccollina, esta de 1080, muito bonitinha. Toda de tijolinho a vista. O Isaía foi pegar o trem e eu fiquei lá na igrejinha. Uns músicos começaram a ensaiar umas músicas clássicas. Fique assistindo o ensaio, muito legal. Aí voltei para a Piazza.

 Ensaio musical em igreja medieval. A trilha de sonora de um ótimo dia (ouça um pouco aqui)

Fiz um monte de fotos com o tripé, da torre a noite. Muitas ficaram bem boas. Aí estava andando e vi duas mulheres conversando e uma dando aulas sobre a igreja. "Scusa signora, Io sono ascultato, posso farLa una domanda". E comecei a conversar com as duas, ela era uma professora e mostrou outras curiosidades da igreja. No tempo em que ela foi construída, Pisa era uma das principais repúblicas marinaras, ao lado de Gênova, Veneza e Amalfi. Daí, o esplendor e tanta riqueza. No caso de Veneza, ela continua vendendo aquele glamour de festas e carnavais. Pisa vive da torre... (brincadeira, Pisa é una cidade universitária).

Igreja a noite. Uma pena que não pude entrar...

Aí voltei para Firenze. Comi um MacDonalds no trem de volta enquanto ouvia dois africanos conversarem alto e um mexicano dormia na poltrona de trás. E agora, arrumo minha bagagem para chegar, finalmente, à Cidade Eterna.

Beijão,
Murilo

sábado, 6 de outubro de 2012

Dia 11: Da concha do renascimento, surge Vênus

E aí pessoal (cansei do italiano)

Décimo primeiro dia na Itália (25/02). Dia de sol hoje, acordei bem melhor da gripe, embora não tenha conseguido dormir a noite - alguma dica mamma? Fiquei rolando na cama, dormia e acordava. Sei lá. Mas tô bem, o nariz vaza e ainda tusso, mas tô melhor. Acho que é por causa do tempo, no frio eu fico com o corpo meio baleado mesmo.
   
A Ponte Vecchia sobre o Rio Arno. Medieval, hoje é um mercado de joias.

Bem, hoje foi dia de conhecer o Rio Arno e a Ponte Vecchia, um dos cartões-postais de Firenze. A história é interessante. Ela foi construída lá pelos idos de 1300 e alguma coisa. Era usada por açougueiros e vendedores de peixe. Era uma fuzarca, bem popularzona mesmo, para deixar a Ponte da Amizade no chinelo. O pessoal jogava o lixo no Rio Arno e era aquela porcaria. Mas então chegou um chefão qualquer e pôs ordem na coisa, trocou toda aquela bagunça por joalherias. Elas estão lá até hoje. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi a única que cruzava o Rio Arno que não foi colocada abaixo pelos alemães. Acredita-se que por ordem do próprio Hitler, que não queria destruir esta preciosidade.
A ponte Vecchia, por onde os boa-vida da família Medici cruzavam sem pisar no solo

Colocado depois: a ponte foi construída em 1333, era de madeira e foi derrubada por uma cheia do Rio. Aí foi reconstruída em 1345. Diz-se que o termo bancarrota teve origem ali: quando um mercador não conseguia pagar as dívidas, a mesa (banca) era quebrada (rotto) pelos soldados.

O Rio Arno divide Firenze em o lado de lá e o lado de cá, tendo como referência o Duomo, ou a catedral de Santa Maria del Fiore. A ponte tem outra função interessante. Do lado de lá, tem o Palácio Rici, construído pelos Rici, mas que ficou tão caro que teve que ser vendido a um membro da família Medici (a família mais rica na época áurea de Firenze). Eu cruzei a ponte e fui até o tal Palácio. Bem interessante, bem palácio mesmo. Com seus quartos, salas, ante-salas e banheiros. Guarda uma coleção interessante de pintores do Renascimento do calibre, por exemplo, de Raffaello Sanzio, Giorgio Vasari, entre outros. Perdi um bom tempo no castelo. Mas então voltei para a cidade.
Bem, eu vim pela rua, mas um membro da família Medici que quisesse chegar ao escritório, os chamados ufficci ("escritórios", em italiano), poderia ir por cima, pelo castelo, que é conectado aos outros prédios, indo em direção a ponte Vecchia, passando a ponte ainda em uma contrução elevada, dobrando a direita, e chegado ao Ufficci. Sem pisar no chão.

Renascimento

Eu tive que pisar, e cheguei à galeria degli Ufficci, onde está a maior coleção de arte renascentista do mundo. A coleção dos Medici. É muito interessante, começa no trecento (século 13), com as obras ainda saindo da arte bizantina e começando o renascimento. O destaque são os quadros religiosos de Giotto, todos muito dourados e com traços já parecidos com o que viria depois.
  
 O Nascimento de Vênus, obra máxima do Renascimento (foto da internet)

E o que veio depois foi a explosão de Sandro Botticelli e Leonardo da Vinci, assim, um depois do outro, covardia. Era o quatrocento (século 14) o período áureo do Renascimento. Aparecem algumas obras de Fra Filippo Lippi, que inspiraram Botticelli, e outras de Andrea del Vecchio, mestre de Da Vinci. Uma obra mostra sete virtudes do homem, Piero del Pollaiolo tinha feito seis, mas Botticelli fez a sétima, Fortaleza, muito melhor que aquelas do anterior.
A Primavera, outro de Botticelli. É proibido fazer fotos nei Uficci, por isso, fotos na internet

E então vei a sala dele. Botticelli, e O Nascimento de Vênus, o quadro mais famoso do Renascimento. Eu ficava naquele frenesi de quando eu veria o tão aguardado quadro e, de repente, ele estava lá. No meio da sala. Muito emocionante. E muito lindo, não pelos traços, que já beiram o maneirismo (outra escola), mas pelo significado da obra. Na mesma sala, outra obra-prima do mestre Botticelli, A Primavera, também lindíssimo. Fiquei um bom tempo apreciando a sala de Botticelli, e na sala ao lado, Da Vinci. Só dois, A Anunciação e um quadro inacabado.
Da Vinci, com seu belo A Anunciação

Aí começa o quintecento (século 15) que é o final do Renascimento. Época da descoberta da América e da morte de Lorenzo de Medici, quando Firenze entra em declínio. Mas o quintecento tem as obras de Michellângelo (no Ufficci só tem uma) e Rafaello, outro gênio e seus retratos de olhos esbugalhados. Termina com os quadros escuros de Ticiano. Uma verdadeira aula, passando por obras belíssimas.
  
Piazza de Santa Cruce, onde eu passaria meu aniversário dois dias depois

Achava que já estava bom para o dia. Dei mais uma pernada pelo Ufficci, voltei à sala de Botticelli para me despedir de Vênus, e caminhei até a Piazza de Santa Cruce, bem bacana, com uma linda igreja. Tomei um café enquanto preparava os próximos roteiros. Já era noite. Viajar no inverno já é ruim, ainda mais se o inverno for o europeu. Aqui escurece depois das cinco da tarde, um saco (saudades de quando eu chegava as seis em casa, tomava uma hora de sol, ia para academia e, quando voltava, passado das 20h30, ainda era dia).
  
Vista da Piazza del Michellângelo, uma das várias réplicas de Davi e a ponte Vecchia.

Aí dei uma corrida até a Piazza del Michellângelo, onde tem uma réplica do Davi e uma interessante vista de cidade. Fiz algumas fotos com a máquina que resolveu voltar a trabalhar. E voltei para casa. Agora to tomando um chá com mel e daqui a pouco vou dar uma volta com Vanni. Amanhã tem muito o que ver. Vou começar com o Davi original, que está na Galleria dell' Academmia. É a principal escultura do Renascimento, quiça de toda história. Também quero conhecer outras igrejas e dar mais uma passadinha no Duomo. Ainda vou para Pisa, mas não queria deixar para fazer isso no dia 27, não quero ficar viajando em meu aniversário.
  
Vanni, meu chapa de Firenze, em uma festa underground. Loco!

No mais é isso. Hoje o dia foi ótimo, bem cultural mesmo. Vamos esperar para ver Davi amanhã.

Beijão,
Murilo

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dia 10: Ronaldinho Gaúcho, o carrasco de Firenze

Ciao bello,

Décimo dia de Itália (24/02). A garganta dói, ouço música brasileira na casa de meu CS [couchsurfer], o irmão dele é músico e está mostrando algumas músicas do Youtube. O Vanni está preparando uma bella pasta all' amatriciana con pancieta (bacon) e pomodoro (tomate). Está quente aqui, bem diferente de lá fora onde eu estava até agora. Jogo da Fiorentina contra o Milan. Maldito Ronaldinho.

Olá pessoal, o dia em Firenze hoje foi muito bom. Dormi e suei bastante a noite. É bom para passar a febre. Tomei um chá muito bom ontem a noite, quentinho e com mel. Acordei bem melhor. Não sei se estou com inflamação de garganta. Se estiver, tô ferrado. Vamos ver com acordarei amanhã (estava me esquecendo de tomar água aqui na Itália, acredita. Agora estou tomando bastante água e comendo direitinho).
 
Gato e cemitério, um clássico. Mas este gato esta na rua mesmo...

Bem, acordei e peguei carona com a mãe de Vanni, a simpática Dona Rita, até o estádio, para comprar o ingresso. Gente boa a Dona Rita, mas fala mais que a Bruna quando está empolgada. Parei no estádio e comprei, fácil, o ingresso. Encontrei um italiano que fala português (é casado com uma brasileira, tem muito disso por aqui) e ele me deu a dica do melhor lugar.

 
 As vespas características da Itália e o mercado repleto de brasileiros

Aí fui caminhar. Buscava um cemitério específico e encontrei o errado. É fácil andar por Firenze com um mapa na mão. Tinha muita coisa para ver, mas pouco tempo. Então passei pela Piazza del Duomo e fui direto ao mercato, onde tinha marcado de me encontrar com o Vanni para almoçar. Passei por uma ferinha bem legal, cheia de brasileiros (ali, o idioma oficial é português). Fiquei batendo mó papo com os brasileiros e cheguei ao mercato, mas não encontrei Vanni. Trocamos algumas mensagens e ele: "Mas tu sei en mercato San Ambrogli?" Eu tinha errado o mercado.



O belíssimo Duomo, por dentro e por fora

Andei um pouco mais e fui chegar à Piazza del Duomo. A catedral Santa Maria del Fiore (o Duomo) é lindíssima por fora, mas bem simples por dentro. Interessamte, não tinha cadeiras, só um amplo espaço aberto. Na cúpula, o belíssimo Juízo Final, de Giorgio Vassari. E na parte debaixo, as ruínas. A catedral foi construída em 1436. Mas aí construíram outra em cima e depois outra e mais outra. Umas cinco, pelo menos. Nas ruínas, dá para ver os vários perfis, interessantíssimo.

No subsolo, as ruínas e os vários perfis das igrejas construídas uma sobre a outra

Na piazza, tem a trindade catedral, batistério e campanário. O Batistério de São João é perfeito. Tem três portas divinas, uma delas foi chamada por Michelângelo de a Porta do Paraíso, tamanho o esplendor. Elas foram feitas por Lorenzo Ghiberti, então com 21 anos. Ele levou outros 21 anos para finalizar as portas, com 28 painéis que narram cenas do Novo Testamento. No interior é ainda mais magnífico. Mosaicos venezianos brilham como ouro, e narram cenas de tortura do Julgamento Final. Tem um Cristo que é bem famoso.



 Batistério de São João com a "porta do paraíso" e os mosaicos venezianos

Depois saí, dei mais uma volta pela praça e voltei para a casa. Teria o jogo, não queria chegar tarde. Muito interessante os estádios aqui. Não tem muito controle, mas as torcidas são comportadas. Eu comprei uma camisa da Fiorentina e fui torcer para o time violeta, ou "viola", em italiano (a camisa é igual ao terceiro uniforme do Corinthians, todo roxo). O estádio é deveras curioso. Você fica bem pertinho dos jogadores separado apenas por um vidro. Sério, a linha do campo fica a dois metros da arquibancada. Vi o Ronaldinho, do Milan, bem de pertinho. Ele é todo mala, mas joga bem mesmo. Tanto que a Fiorentina jogou bem melhor, marcou no primeiro tempo, mas em dois lances de Ronaldinho, no fim do segundo tempo, o Milan virou: 2 a 1. Mas a italianada no estádio é tão tranquila que os torcedores da Fiorentina foram tirar foto do Ronaldinho, quando ele fez o gol. No final do jogo, os fiorentinos voltaram de cabeça baixa e tranquilos para a casa. Melhor para mim. [veja dois lances do jogo aqui e aqui]


No estádio do Fiorentina, vemos o jogo pertinho. Milan 2 a 1 Fiorentina

Agora estou aqui com o pessoal. Minha boca queima da pimenta da pasta (um baita pratão, italiano come demais). Mas tudo bem, tô aqui conversando com o pessoal, eles imitam o brasileiro falando, muito engraçado [mais pra frente eu conto a história do Cacao Meraviglao]. Muito bom estar em CouchSurfing, beeeem diferente de um frio hotel (como em Bologna e em Verona). Espero que seja assim em Roma, chego lá no dia de meu aniversário.

Tosse, tosse. Estava frio no estádio. Me agasalhei e me escondi debaixo da toca quando estava lá. Quero só ver como vou estar amanhã.

Beijo mamma, beijo pappa, saudades de vocês.
Murilo