quinta-feira, 19 de junho de 2008

Lugares e crianças

Há tempos estou para escrever sobre lugares e crianças. Gostaria de dar algumas dicas das melhores poltronas para se escolher em uma viagem e também falar sobre essas incômodas companhias: as crianças. Na última viagem, ainda na ida, tive uma pequena confusão na escolha da poltrona e enfrentei um berreiro infernal de uma criança. Lugares e crianças, aproveito a deixa para contar para vocês.

Sobre lugares, eu havia preparado um pequeno manual para a escolha da melhor poltrona, dependendo das ambições do viajante. Tem que lavar em conta a posição das rodas do ônibus para escapar dos tremiliques, optar pelo clima glacial lá da frente ou tropical cá do fundão. Escolher se quer ficar próximo do entra e sai das pessoas que chegam das rodoviárias ou da bateção de porta do banheiro.

Eu já estou vacinado. Sempre escolhi uma das primeiras poltronas, mas acabo indo para o fundão. O meu problema é que gosto de ler e o pessoal da frente via de regra dorme a viagem toda. Aqui no fundo também fico livre das pessoas que poderiam pensar “o que este louco está escrevendo no notebook?” (como faço agora).

O problema é o cheiro nauseante que irrita as narinas vindo do banheiro. Ou ainda as pessoas que se entopem de água e se desentopem no banheiro (em ambos os casos, passam pertinho de minha poltrona).

Mas a escolha também depende da qualidade do ônibus. No majestoso Catarinense (o melhor da categoria) é muito bom ficar na primeira fila, de frente para a janela do ônibus – a estrada vai correndo aos seus olhos e você nota as eventuais barberagens do motorista.

Outros ônibus, no entanto, são tão apertados que não importa a poltrona, vc vai se dar mal (no avião também é assim, mas já falo dele). Agora, por exemplo, quase não tenho espaço para abrir meu mísero notebook de 13 polegadas. A mulher da frente desceu a poltrona das minhas pernas e por pouco me incapacitou para sempre de ter filhos.

Paradoxo, na viagem da semana passada, de novo Garcia, o espaço entre as poltronas era tão grande que eu não alcançava os pés no chão. Pensei: ou minhas pernas encolheram ou este ônibus está de brincadeira comigo.

No avião é sempre janelinha, claro. Gosto de ver a paisagem descortinando do lado de fora e, apesar dos inúmeros vôos, sempre acabo encontrando coisa nova. Ainda me lembro do trovão que iluminou o céu e deu origem a esse blog (vide primeiro post) e gosto de ver Guarulhos ardendo em chamas quando o avião decola – a iluminação amarelada é muito bonita.

Quando chego em Foz, reparo as luzes e a falta delas, reflexo do imenso Parque Nacional do Iguaçu, do lado esquerdo, e do Rio Paraná terminando na Hidrelétrica de Itaipu, do lado direito.

Ainda no avião, há a opção de pegar as poltronas da fileira central, normalmente 11 e 12, bem em cima da asa. Ali, na saída de emergência, o espaço entre as poltronas é bem maior, mas as poltronas não inclinam. Se bem que, em considerando as outras poltronas, a diferença é mínima.

Crianças

Estou escrevendo meio a esmo, mas depois vejo o que saiu. Na verdade o combinado era falar de poltronas e crianças e é o que estou fazendo. Vamos ao segundo tópico.

Se tem uma coisa que não combina é viagem e criança. Mas algumas pessoas ainda insistem nesta mistura perigosa. Não sei se já disse, mas além dessas viagens semanais para Campinas, diariamente eu faço de van o trecho Medianeira – Foz do Iguaçu (acumulado de duas horas por dia – minha vida se passa sobre quatro rodas). Nesta viagem, uma mulher leva todo dia o filho pequeno para a creche, em São Miguel do Iguaçu. Judiação do piazinho que estranha sempre que entra na van cantando seu choro fino. A mulher vai se mudar para SMI e evitar tamanho martírio diário.

Nos ônibus já cruzei com várias dessas pequenas criaturas, desde as que abrem berreiro, passando pelas de estômago fraco e chegando às comportadas que seguem viagem como gente decente.

Uma vez no vôo da TAM, um moleque gritava descabidamente na poltrona de trás. Os pais, um de cada lado, pediam pelamordedeus para o moleque parar, mas ele não parava. Inúmeras vezes pensei na falta que faz um bom chinelo. Cheguei a encarar feio o moleque, quando os pais não estavam olhando, mas não surtiu efeito.

Na viagem atual a menina se calou. Dorme de maneira cândida no colo da mãe – a mesma que desceu sobremaneira a poltrona sobre minhas pernas.

Em outra viagem, acho que a ida da semana passada, a mãe insistia que a filha tinha que ir ao banheiro e toda vez que levava a moleca, ela soltava um grito no meu ouvido fazendo-me acordar de sopetão achando que o ônibus tinha batido. Não sei se xingo ou agradeço. Talvez não fosse a insistência da mãe, a menina tivesse melecado o ônibus com vômito, a pior marca que essas criaturas podem deixar em uma viagem. E por causa de um último grito agudo, eu acordei já na rodoviária de Campinas.

O ônibus segue seu rumo, lotado de crianças (acabei de perceber que lá na frente tem mais duas pequenas). Mas a dona da festa é a menininha negra, do banco de trás. Ela grita mesmo, sem pudor ou compaixão. E a mãe passa incólume, a safada.

Mais do que os gritos o que me irrita em crianças são os pais delas. Já parte da semnoçãozisse de carregá-las a tiracolo em viagens de mais de 15 horas. Depois, tem uns mais espertos que adoram entupir as crianças de comida nas paradas de ônibus. Algumas vezes já previ o óbvio: passei por um pai que entupia a criança de comida na parada. Dentro do ônibus, alguém empesteou o ar com o salgadinho gorduroso que revoltou até o meu estômago. O que dizer do estômago frágil, estufado e sem freios sociais da criança? O resultado é desnecessário dizer.

Deve ter mais o que falar sobre poltronas e crianças, mas não gosto de ficar escrevendo assim a torto e a direito. Mais tarde voltamos a nos falar. Devo algumas explicações aos amigos leitores, mas isso fica para os próximos rascunhos. Até lá.

PS: no fim da viagem, a mãe da menina negra levou a filha ao banheiro – choro insuportável por uma boa meia hora. Mais tarde, a onipresente criança tomou conta do espaço sonoro por quase uma hora. Uma hora de choro alto, manhoso e irritante. Eu mereço.

4 comentários:

Renato Mahalo disse...

ufa, li tudo! haha imagina o Murilo com filhos haha!

Anônimo disse...

Oi tudo bom?
Desculpe pela invasão.
Eu de curiosa e li seu blog, achei muito
interesante a forma como vc conta e escreve seuas
viagens. Continue escrevendo mais histórias, elas dão
ótimos risos! Pois é legal a forma como vc interage com leitor. È engraçãdo!!!rs...Até a próxima história.=)

Anônimo disse...

Muito bom seus textos, mas eu pensava que você gostava de crianças!! Agora lendo isso, fiquei na dúvida!!

Murilo Alves Pereira disse...

Eu adoro crianças, mas nao as leve para o ônibus, hehee