quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Círculos, sal e uma árvore ao chão

A última machadada é desferida sobre o tronco da árvore, que não aguenta e tomba. O autor do golpe olha para os lados, seus amigos lhe apontam. Riem. Apesar do dia de festa, ele respira descontente: acabara de adquirir uma enorme dívida.

Em nossa peregrinação pelo vale sagrado de Cusco, Marco e eu seguimos de Ollantaytambo a Maras, povoado localizado a 46 km de Cusco, na província de Urubamba, a 3.380 metros de altitude. Na região, ficam as águas salinas e as ruínas de Moray, nossas próximas paradas. De van, fomos à primeira delas.




Os espelhos d'água das águas salinas.


As águas salinas ficam em Qoripujio, 4 km de Maras, e são exploradas desde a época dos incas. É um enorme aglomerado de tanques, cada um com 5 metros de largura, cheios de água salgada exudadas pela montanha. Em épocas secas, o sol evapora a água deixando o sal.

Segundo a lenda, os primeiros maras surgiram quando Ayar Cachi (“Senhor do Sal”) converteu as montanhas nas proximidades de Cusco. Este povo fazia um importante intercâmbio econômico com os incas e, ainda nos dias de hoje, Maras é a maior produtora de sal do Sul do Peru.


Estradas que levam a Moray

Para as minhas lentes e às de Marco, o que importava era o brilho dos cristais de sol que deixavam a paisagem radiante. Fizemos algumas fotos, apreciamos o lugar e fomos para a segunda parada.

Os círculos de Moray

Aquele momento no carro foi um dos mais bacanas da viagem. Música ao fundo, o Marco conversando com o motorista e eu, na minha, com a cabeça encostada no vidro apreciando paisagens lindas: o céu glorioso, as nuvens fazendo sombra sobre a cadeia de montanhas de Vilcabamba e, em primeiro plano, pastores de ovelhas e campos com flores amarelas.


Momento by myself da viagem. Ótimo.

Moray é impressionante. São imensas crateras em círculos concêntricos, algumas com mais de 100 metros de profundidade, divididas em diferentes níveis de altitude. Eram usadas pelos incas como um laboratório agrícola – para cada nível, um diferente microclima especializado em uma cultura. No total, eles podiam cultivar 250 espécies de plantas.


Os impressionantes círculos de Moray.

As crateras parecem anfiteatros naturais. Cheguei a imitar o Pavarotti enquanto explorava o local. É interessante descer a escadaria, ficar no centro dos círculos e imaginar como este antigo povo era avançado.


Cena bucólica, como se fosse pintada a mão.

Já era tarde. Deu tempo de dar uma última olhada nas montanhas e o tapete amarelo de flores aos seus pés. O motorista nos levou até Maras onde pagaríamos o ônibus para Cusco. E no caminho, nos contou sobre a Kaswa, a festa de carnaval do povoado.



Fim do dia em Maras. Agora, Cusco.


A tradição acontece em fevereiro. A Yunza é o ritual que junta os solteiros da cidade na praça central: eles ficam tomando chica morada e dando leves machadas em uma árvore que é plantada no dia anterior. Quem derruba a árvore fica responsável por organizar a festa do próximo ano – o que não sai barato, cerca de 2 mil soles.

Assim, mesmo com as músicas, as danças e a chica morada, o nosso colega solteiro do início do post acaba terminando a noite um pouco mais pobre.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Rascunhos no Twitter

Amigo leitor!

Agora você pode acompanhar os rascunhos também no site do passarinho azul. Criei um perfil no Twitter para dar pequenas dicas de viagens. Qual é a melhor época do ano para ir a Machu Picchu? Aceito aquela carona de camelo entre a Queóps e a Esfinge? Vale a pena comer na rua de Praga?

Veja em: @rascunhosviagem

Quem gosta de viajar e curte os racunhos acompanhe também por lá. Dê um RT de vez em quando pra ajudar a divulgar.

Abraço e boa viagem!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Na militar Ollanta, eu estava em guerra

Estava nervoso com a intransigência da mulher na lan house. Passei um puta estresse logo cedo para salvar as fotos em um CD. O sabor do café da manhã se tornara amargo diante de minha raiva. Marco só observava enquanto eu chutava pedrinhas pelas ruas de Ollanta. “Murilo, basta de reclamar”, repreendeu-me. Às vezes é difícil controlar esta fúria que me toma quando algo me emputece. É com se ela assumisse o controle. Aí eu saio do sério mesmo. Não xingo nem falto com respeito, mas elevo o tom. Fico puto, chato.



Enquanto eu chutava pedrinhos, o cão peruano, alheio, dava de ombros

Ollantaytambo não era lugar para isso. A manhã já tinha sido boa com um café especial e as músicas no hostel. Com a beleza daquela cidade de pedras, e com a cara de desaprovação de meu amigo Marco, fiquei mais calmo. Pendurei a câmera no pescoço e fomos visitar mais um sítio arqueológico.


As ruas de Ollanta, ainda cheias das pedras incas

A cidade, aliás, é o próprio sítio. As casas guardam a estrutura inca, com as paredes de pedras e telhados modernos. As ruas são as mesmas por onde andou o povo antigo. Caminhamos e vimos garotos vestindo trajes típicos – turistas desavisados sacavam fotos e eram cobrados em seguida “Ahora, me pagas”. Nós passamos direto.

Ahora me pagas! Não paguei

Bonito o sítio de Ollantaytambo, todo em uma encosta de montanha. A cidade era um posto militar dos incas, mas também um complexo religioso, administrativo e agrícola. E, como toda a região, está cheia de simbolismo. De alguns pontos lá de cima, vimos traços na montanha de frente que lembram rostos humanos.

Na montanha, o rosto de um velho é um dos vários simbolismos

Em uma pedra, o imperador Pachacutec sentava-se voltado para o sol que, no solstício de inverno (21 de junho), nascia exatamente atrás da silhueta de um rosto, na montanha. E por aí vai.

Marquito na escadaria e descansando

O dia de Ollanta, na verdade foi dividido em dois. Tínhamos ainda círculos e águas salinas para conhecer. Próxima parada: o povoado de Maras e suas histórias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O Trem Inca

Então o Trem Inca seguiu seu caminho. Na volta a Cusco escolhemos ir a pé. Difícil encontrar alguém que concordasse com a ideia, pensava eu de Marco. Ele pensava o mesmo de mim. Trato feito, andamos os dois sobre as pedras soltas da linha férrea. Para não machucar os tornozelos, fomos de “trem”.

O famoso Trem Inca (foto: Marco Villano)

Aguas Calientes fica no km 110 da ferrovia que liga Cusco a Machu Picchu. Entre os dois destinos, há um povoado no km 82 onde poderíamos pegar uma van até Ollantaytambo. Fomos pra lá, 28 quilômetros pelo vale sagrado. A pé e soltando fumaça.

Foram quase oito horas andando sobre os trilhos (foto: Marco Villano)

Andamos um bocado pelas pedras que sacolejavam sob os pés. Se a distância é ruim, um terreno hostil piora o percurso. Vimos um senhor andando sobre o trilho do trem usando um pau como bengala para não cair. Aperfeiçoamos a ideia – o pau sobre nossos ombros, os pés sobre trilhos. Apelidamos de Trem Inca.



Pelo caminho, passamos por túneis, driblamos trens (estes de verdade), cruzamos com outros transeuntes. Diante de uma hidrelétrica, almoçamos pão com atum e pão com doce de leite e banana. Buonisimo! Experimentamos a tuna, uma flor de cacto. Vimos picos nevados e passamos por ruínas. O Marco foi mordido por um cachorro. Rimos. Sempre com o bom Rio Urubamba/Vilcanota ao nosso lado. Saímos às 9h para chegarmos às 5h30 no povoado. Não tínhamos pressa.

O caro trem de Machu Picchu a Cusco.

A chegada ao km 82 e a mordida na perna de Marco. Dia maluco.

Mas deveríamos ter tido. No povoado, a última van já tinha saído, não havia hospedagem e estava tarde. Conversamos com uma piazada, buscando informação. Escuro, estávamos exaustos, as pernas latejando, os ombros doloridos. Marco sugeriu andarmos mais 15 km em plena noite! Não foi preciso, por 40 soles, uma van milagrosa nos levou até Ollantaytambo.



Encontramos um lugar dirigido por um simpático hippie. As roupas do cara e a decoração do hostel já acusavam. Mas tinha também a pequena Quilla (Lua, no idioma quéchua), filha do dono. Dormimos o melhor dos sonos para, no outro dia, tomarmos o melhor dos cafés da manhã.

Tínhamos a magnífica Ollanta para conhecer.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Marco Andrés Villano

Vínhamos andando havia horas, pé ante pé, sobre os trilhos do trem. Marco de um lado, eu do outro. Entre nós, um pedaço de pau sobre os ombros nos mantinha em equilíbrio. Era o Trem Inca soltando fumaça desde Águas Calientes em direção a Ollantaytambo.

Marco Villano, amigão de viagem.

O Trem Inca é a melhor ilustração do espírito de camaradagem entre meu amigo argentino Marco Andrés Villano e eu. Uma amizade que, na altura de Cusco já ganhara a força de um trem, mas que começara a pegar velocidade na “estação” de Potosí, ainda na Bolívia

Ainda com Ben, nosso amigo norte-americano, na mina de prata. Nossa amizade começou em Potosí.

Lembro que quando vi Marco na van que nos levaria à mina de prata, já sabia que ele seria um bom amigo de viagem, como Daniel em Uyuni ou a turma de Salta. Não imaginava que se tornaria o melhor de todos.

Marco, como eu, é apaixonado por fotografia. Não foram poucas as mesmas fotos.

“Vamos combinar: eu tiro fotos de você e você de mim”, sugeri como faço sempre que viajo sozinho. Ele aceitou e ali começou o pacto das “mesmas fotos”. Em La Paz, desviei o caminho para andar com ele e com Ben até Copacabana. Foram 13 dias ao lado de Marco. Uma dupla que, a despeito do idioma, se entendia muito bem.

Marcão: paciência de Jó para me aturar por tanto tempo.

“Basta de reclamar, Murilo”, era uma de suas frases, quando eu estava sendo o reclamão de sempre. “Está de bom-humor hoje?”, perguntava. Com Marco, tomei as cusquenhas (eu debochava do sotaque portenho dele, repetindo “currrquenha”), brincamos com a propaganda da “Paceña, es cerveja”, e andamos um bocado.

Em Moray, dias finais da parceria.

“Você é gente boa, Marco... para um argentino”, dizia eu. Tivemos nosso quase lance com as chilenas, os revertérios estomacais em Copacabana e a chuva que atrasou nossa viagem. “Que mala suerte”. No fim, as andanças entre Machu Picchu e Cusco. “Tenemos que meter um buon paso”. O Trem Inca selava o fim da sociedade.

Faltava a despedida.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Pernas em Macchu Picchu

Foi difícil passar por Machu Picchu e ignorar a cidade inca. Tínhamos hora marcada na porta de entrada da trilha que leva à Hayna Picchu, a onipresente montanha atrás de todas as fotos da cidade. Os cabelinhos do braço estavam de pé quando passei pelas construções cheias de simbolismos e pedras perfeitamente justapostas. As ignorei. Seguimos olhando para frente em direção à fila.

A foto clássica. O ponto auge da viagem tinha sido alcançando.

Talvez não tenha sido a melhor ideia. Andamos um bocado por trilhas, passando por antigos postos de guarda incas e chegando ao topo da montanha. Fervia de turistas por lá. Alguns exibindo a bandeira e sendo reprimidos por isso – em patrimônios da humanidade é proibido hastear estandartes.

Do alto de Hayna Picchu tentamos identificar a puma de Machu Picchu.

Bonita a vista – bem mais ao alto que os 2.350 metros acima do nível do mar de Machu Picchu. Víamos a estrada que leva ao Parque, como uma serpente nas costas da montanha. Reparamos a cidade em forma de condor, pontilhada por capas de chuva coloridas - turistas e lhamas é o que mais se vê em Machu Picchu. Tomamos um lanche, tiramos fotos e saímos de lá. Fomos à Grande Caverna, local para rituais religiosos na encosta de Hayna Picchu.

Lhamas e turistas é o que mais se vê no Peru.

Nunca andamos tanto. Voltamos exaustos à cidade inca e, pela segunda vez, a ignoramos. Era hora de comer alguma coisa fora do Parque Arqueológico: tomamos uma sopa com Coca-Cola (!). Esticamos as pernas, relaxamos. Ainda teríamos toda a tarde.

A serpente, o puma e o condor

Os incas foram um povo interessante. Ligados à natureza, eles botavam símbolos em tudo – do formato de um templo ao seu posicionamento em relação ao sol. A trilogia inca – os três níveis espirituais representados por animais – está por toda a parte: a serpente diz respeito ao mundo de baixo, o Ukupacha, o mundo dos mortos; o puma é o mundo do meio, Kaypacha, dos homens; por fim, o condor é o mundo de cima, Hananpacha, o mundo dos espíritos.

Simbolismos: pedra imita a montaha Hayna.

Com um guia turístico, aprendemos sobre a trilogia. Vimos como as pedras do templo do condor se parecem com as asas da ave; conhecemos o templo das três janelas também em referencia à trilogia. Passamos pelas áreas agrícolas e urbanas da cidade inca.

Casa de las três ventanas, uma das várias habitações da cidade inca.

Lá do alto, no início da cidade, o recinto do guardião. A primeira zona agrícola, em forma de escadaria, onde lhamas pastam atualmente. Depois, a porta principal, a torre, os depósitos, as fontes. Conhecemos o setor real, provável moradia do imperador Pachacuteq. Passamos pelo observatório, a praça principal, o grupo das três portadas até chegar novamente do outro lado, diante da rocha cerimonial, que imita a montanha Hayna Picchu ao fundo.



Chovia em Machu Picchu. Marco e eu já estávamos fartos de andar e a noite avançava pelo céu inca. Deixamos a cidade sagrada em direção a Águas Calientes. Ônibus a sete doletas? Fomos a pé. Caía uma chuva fina e um cachorro ia conosco – ora atrás, nos seguindo, ora na frente, nos guiando. Quando chegamos lá embaixo ele tinha sumido. Era uma alma de cão garantindo que chegássemos ao destino, brincamos Marco e eu.

Marco e eu com as bandeirinhas invertidas.

Peguei minha porção de água do Rio Urubamba (a coleção, já falei dela por aqui), tomamos banho e fomos jantar. Na mesa, as bandeirinhas do Brasil e da Argentina. Experimentamos o tal Pisco Sauer, bebida cuja autoria é motivo de briga entre Peru e Chile. Embora o dia fantástico, estávamos sem assunto. Marco e eu sabíamos que nosso tempo de parceria estava acabando.

Mas teríamos tempo para uma última viagem.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Deslumbre

Há algum tempo aprendi a não me deslumbrar com as coisas. Outro dia tomava vinho com o cineasta Francis Ford Coppola, enquanto conversávamos trivialidades no Lago de Itaipu. Oh, grande coisa! Coppola, figuraça, é um cara comum. Como você ou eu, ele tem necessidades fisiológicas, problemas de insônia, torcicolo. Embora seja um mito.

Aplico a mesma regra do não deslumbramento a lugares. Tenho curiosidade de conhecer os locais que marcaram a história mundial - Colisseu, Pirâmides do Egito, Ilha de Páscoa, entre outros. Mas ao chegar nestes locais, percebemos que tudo é feito de pedra ou concreto. É palpável, nada mágico, de outra dimensão. É chão, céu e um monte de coisa no meio. Como na nossa vizinhança ou no local de trabalho.

Marcão, parça de viagem.

Mas em Machu Picchu não foi bem assim.

Criei uma expectativa tremenda antes de entrar na sagrada cidade inca. Era o ponto alto desta viagem que venho contando para vocês. Esperava encontrar algo especial, mas tinha sempre a tal regra do não deslumbramento. E, naquela manhã, saberia se a tal regra se aplicaria também a Machu Picchu.

Fila em Machu Picchu. Deslumbre ou não?

Marco e eu acordamos bem cedo naquele dia. Ainda era escuro e já estávamos de bilhete na mão, tomando café na rua, na fila do ônibus prontos para chegar à cidade sagrada.

Machu Picchu fica no alto de uma montanha. Ela foi encontrada por acaso, pelo historiador norte-americano Hiram Bingham, em 24 de julho de 1911. Talvez o deslumbramento de Bingham tenha sido maior que o meu quando viu a cidade perdida, enquanto era puxado pela mão por Pablito Alvarez, um peruano de 11 anos, filho de agricultores.

Para chegar até lá, atualmente, é mais fácil que nos tempos de Bingham. O ônibus zigue-zagueia ceifando a encosta da montanha até chegar ao Parque Arqueológico. A subida demora pouco, mas os vai-e-vens me ajudam a refletir sobre aquele fim de viagem. Estaria, em minutos, diante de um dos monumentos mais importantes da história.

Primeira impressão: Machu Picchu e Wayna Picchu.

Entramos na fila do Parque. Turistas de roupas coloridas e capas de chuvas roubam um pouco da magia do lugar. Até que, após uma curva, a cidade inca se abre em minha vista. Pedras, muitas pedras, e uma montanha ao fundo.

A regra do não deslumbramento conhecia sua primeira exceção...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Esclarecimentos aos seguidores

Blog parado. É eu sei. Dei uma ajeitada no layout e tals, mas textos, fotos e vídeos, nada. Fui inventar de fazer o Especial Andes, tal como o Operação Europa, me amarrei e deu nisso. Blog parado.

Odeio me prender a alguma coisa. Quando viajei em fevereiro do ano passado pela América do Sul, achei que valeria contar toda a história aqui. Seria legal escrever enquanto ainda estava viajando, mas sei que seria difícil. Da próxima, faço exatamente isso. Com o tempo, a viagem se isola em um canto obscuro da mente, o tesão diminui. Resumo da ópera: blog parado.

E de lá pra cá teria outras coisas para escrever. Não fiz pelo compromisso de seguir a história dos Andes e terminá-la antes. Teria falado, por exemplo, sobre as peripécias do Bonfim, um Honda Civic que trouxe de Aracaju e que já não é mais eu. Teria comentado curtas viagens de ônibus em que senhoras desavisadas ficam procurando a poltrona 37 desde a primeira fileira - o que também me irrita. Ou teria narrado a última viagem, desta vez para Itália, Grécia e Egito. Com certeza, faria com bem mais afinco.

Mas agora tem que terminar. Aos poucos que seguem a história vale a pena saber o que acontece no final. Estamos em Machu Picchu, em pleno coração do império Inca. Não vale abandonar o barco agora. De lá passaremos por mais ruínas incas, veremos lindas linhas em Nazca, conheceremos a capital do Peru.

Isso se eu me lembrar de alguma coisa. Até lá!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Pelas santas do Vale Sagrado – parte final

Uma vez, subi com amigos o pico do Marumbi, na Serra do Mar do Paraná. A pé. Foi um dia inteiro andando pela linha de trem até chegar ao cume. A viagem até Machu Picchu foi uma experiência parecida, mas muito mais emocionante. Mais do que a imponência e a magia que sugerem o Vale Sagrado, a viagem ficou marcada pelas intermináveis caminhadas.

Vale Sagrado debaixo de nossas botas. Tínhamos muito que caminhar

“É difícil encontrar alguém disposto a caminhar desse jeito”, disse eu a Marco. O argentino pensava o mesmo de mim. Após duas viagens de vans, contaríamos somente com pernas e vontade para chegar à cidade sagrada. Antes disso, teríamos que encontrar uma linha de trem, no caminho de uma hidrelétrica. A noite estava chegando. "Tenemos que meter un buon paso", dizia Marco.



A nossa trilha de migalhas de pão era o próprio Urubamba. Ele e paredões intermináveis de rocha do onipresente Andes. Emocionante cruzar pontes e sentir emparedado pela cordilheira. E preso por um céu que de cinza se tornava escuro. Era quase noite, e faltava para chegarmos.

Um dia de caminhada

Pontes, várias sobre o Rio Urubamba

Passamos sobre uma cachoeira que saía, pasmem, de dentro de uma rocha. “Cuidado: zona de caida de rocas”, dizia a placa. Nossa preocupação era outra. Já estava tarde e teniamos todavia una buon paso para caminar. Nos quilômetros finais, uma van de chilenos nos salvou. Mesmo encontrando a trilha de tem, jamais acertaríamos os atalhos pelo meio da mata. Os chilenos sabiam.



E foi com eles que caminhamos mais um par de horas, no escuro, pela linha de trem. As luzes das lanternas mostravam o caminho e, vez ou outra, gritávamos “hoyo” (buraco) – quando um gritava, todos gritavam para avisar o que vinha de trás.

Noite com chilenos na linha de trem. Algumas horas no escuro

Tarde da noite, chegamos a Aguas Calientes. Até teríamos, Marco e eu, uma aventura com as duas chilenas que faziam parte do grupo. Mas, pela primeira vez, outras necessidades, as de descanso, falaram mais alto. Estávamos mortos. E as chilenas também. Deixamos as possíveis aventuras amorosas para um outro dia. Quem sabe depois de conhecermos Machu Picchu.

Era o nosso compromisso para as próximas horas.

Pelas santas do Vale Sagrado – parte 2

Quando cursava jornalismo, em Curitiba, adorava, nas férias, voltar para a casa dos meus pais, em Medianeira. A mãe fazia a comida mais trivial de todas – arroz, feijão e carne de porco – e eu me fartava. “Deve passar fome em Curitiba, este menino”, talvez pensasse minha querida mãe. Não era isso. O fato é que até a comida mais trivial vira a ambrosia dos deuses, depois de meses comendo em restaurante universitário. Ainda mais, se for comida de mãe.

Feijão, arroz, frango à milanesa e um café especial. Satisfeito

A lembrança veio após a segunda colher de um delicioso feijão com arroz em Santa Teresa, a segunda santa de nossa história. “Ainda volto aqui”, dizia Marco, deslumbrado com a pureza e o encanto da cidadezinha. Eu me divertia com o feijão, após quase um mês viajando por cidades pouco afeitas a nossa iguaria tão brasileira.

Corre menino: fim de aula, na praça da cidade

Santa Teresa, de fato, é uma graça. A cidadezinha foi totalmente soterrada por um deslizamento de terra e reerguida pelos próprios moradores. Em homenagem ao povo, foi construída a Plaza Cívica de la Solidariedad, diante da qual eu saboreava meu feijão, arroz, salada e frango à milanesa. No fim do almoço, um café diferente – um concentrado líquido que colocamos na água quente com açúcar. Muito bom.

Plaza de la Solidariedad em homenagem ao povo de Santa Teresa

Ficamos aproveitando aquela pequena cidade, ali, de sua praça principal. As crianças, voltando da escola, corriam aqui e ali; senhores passavam de bicicleta. E para testar se de fato fazíamos sempre a mesma foto, Marco e eu trocamos de câmera. As fotos ficaram iguais...

Mesma foto: trocamos as máquinas. Não adiantou

A parada foi ótima, mas tínhamos que seguir caminho. Um cheiro bom tomava conta do ar: compramos pão quentinho e outros quitutes para a viagem. “Tenemos que meter un buon paso”, recomendou Marco. Era meio da tarde, o tempo esta fechado e não poderíamos correr o risco de encarar estrada a noite.

Caminhamos em direção a uma hidrelétrica.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pelas santas do Vale Sagrado – parte 1

O café da manhã em Cusco tinha um sabor especial. Não era o café e o leite em saches, ou o doce de goiaba na torrada. Era o sabor da expectativa. Após o desayuno, começaríamos nossa viagem para Machu Picchu.



Deixamos nossa bagagem no hostel e, de malas menores nas costas, fomos até a região onde se pegam as vans para o povoado de Santa Maria, a primeira santa desta história. Antes de entrar na van, murilice minha: esqueci o tripé dentro do taxi. Teria que fazer fotos da cidade sagrada com um equipamento a menos.

Pela janela, Marco curte a paisagem

A van, cheia de moradores locais, contornou os Andes. Desfiladeiros e paredões gigantescos, uma paisagem à Senhor dos Anéis. Atravessamos várias vezes o rio Vincanota, o mais importante da região, que troca de nome para Urubamba e, depois de muitos quilômetros, deságua no Amazonas.

E então a chuva nos parou. Pausa para o café

Mas então a chuva nos parou. Quem acompanha os noticiários deve ter visto a devastação no Vale Sagrado com a cheia do Urubamba, no começo de 2010. Chove muito naquela região no início do ano, mesma época em que eu estive lá, em 2009. Daí a trilha inca estar fechada. E também por isso, um deslize de terra ter nos parado por quase uma hora, logo no início da viagem.

Uma hora de espera, hora de tomar café...

... preparado por uma mulata suada. Trabalha a mulher

“Cuidado: zona de derrumbres”, informava a placa. Paramos para tomar um café quente preparado por uma mulata suada. Ela fazia PFs e outros quitutes em meio à fumaça e ao calor do fogo. Chovia do lado de fora. Mas fomos informados que a estrada estava de novo aberta. A viagem seguiu.

Marco, e seu novo amigo, aproveitam a viagem

Na van, música moderna peruana e uma longa conversa com meu amigo Marco. Ouvi de novo sobre Franco, o irmão-herói, e sobre a mãe, famosa pelos pães caseiros feitos no forno de barro, nos fundos de casa. Um dia ainda visito meu amigo em Santa Fé. Um senhor insistia em repousar sua cabeça no ombro de Marco, como fizeram Ben na viagem para Copacabana. E do lado de fora, paredões, povoados e o majestoso Urubamba acompanhavam nossa aventura.

Chovia em Santa Maria. E crianças curtiam a água


Vans se enfileiram. A viagem tinha que seguir

Santa Maria estava próxima. Viria depois de muitas curvas, subidas e descidas. E, como outros povoados, estava debaixo d’água – não pela cheia do Urubamba, mas pela chuva sem trégua. Algumas mulheres vendiam frutas em barracas, crianças brincavam na água e outras vans se enfileiravam. Estávamos no meio da viagem.



E outra santa nos aguardava.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Enfim, no umbigo do mundo

A buzina do táxi já tinha tirado o Marcão do sério e estava fazendo o mesmo comigo. Em Cusco, o sinal é a buzina – os taxistas não podem ver viajantes andando que “barulham” para saber se queremos o serviço. Queríamos só andar, sem pressão. Difícil.

No umbigo do mundo, enfim

Na rodoviária de Cusco já tinha sido assim. Entre os gritos de vendedores de passagem, uma mulher nos pressionou com sua opção de hostel, o melhor da cidade e com o melhor preço. Eu estava disposto aceitar, mas o Marco não. “Melhor andarmos e procurarmos nós próprios”, falou em castelhano. Pegamos um táxi, caminhamos. Antes disso, vi o Daniel andando sozinho pela rodoviária. Sabia que me encontraria com ele novamente.

Batemos perna por Cusco, sempre com a melodia infernal dos taxistas. Malditas buzinas. Passamos pela Plaza del Armas, no centro; fomos recusados em um hostel, mas encontramos outro, muito bom, diga-se, da rede Backpackers. Boa cama, bom banho e um bom café da manhã. Havíamos encontrado o nosso lar no umbigo do mundo.

El Sol ou Inti K'ijllu? Principal rua mostra a mistura de culturas

O centro de Cusco é louco. As pessoas querendo vender de tudo, mulheres oferecendo massagens. Sei, massagens... Turistas de todos os cantos. Estávamos diante do perfeito exemplo de destruição de uma cultura por outra. Sobre o cadáver dos edifícios incas, imponentes igrejas espanholas tomavam conta da vista. E o comércio tomando conta de tudo. Bonito, mas triste.

Marcão, ao seu jeito, curtindo Cusco

Nas andanças nos juntamos à Paula, uma brasileira perdida por Cusco. Andamos a nossa maneira, meio querendo fazer nada. O estilo Marco e Murilo de ser que só uma terceira pessoa se adaptaria. Mas Paula não era como Ben, e não se adaptou. Tiramos nossas “mesmas fotos”, trilhamos pela calle El Sol, vagamos pelo Centro de Artesanato. E cruzamos mais uma vez com Daniel.

Bom encontrar um velho amigo, o mesmo que me acompanhou por todo o tour em Uyuni, agora ali, em Cusco. Estava com uma amiga também, outra brasileira. Os cinco andamos juntos, almoçamos algo qualquer e experimentei a tal chicha morada – um suco à base de milho roxo. Doce, mas estranho.

Daniel, de volta e novos amigos de viagem

Chovia em Cusco, e Paula já se integrava aos dois novos colegas. Tentamos conhecer os atrativos da cidade – as igrejas, o convento. Construções incas, agora católicas. Vimos umas apresentações culturais, danças típicas de várias regiões do Peru. Bem interessante, um dia de Cusco. À noite, fotos da igreja, sob a chuva. Marco se deu bem por ter um mini-tripé. Eu tentei segurar a câmera no muque. Não fizemos a mesma foto.

Chove em Cusco. Fotos noturnas e eu sem meu tripé

Depois, janta. Marco estranhava nosso modo brasileiro de nos comunicar e ficou um pouco na dele. As vezes eu traduzia uma ou outra piada, mas no idioma universal, meu amigo portenho saboreava uma boa cusqueña – a cerveja local – conosco.

Danças típicas peruanas, no centro cultural

Era tarde quando voltamos ao hostel. Cansados, não nos incomodamos com as pessoas que dividiam o quarto ou com a bagunça que acontecia no salão de festa. De fato, um bom hostel, mas no outro dia, teríamos uma missão importante: trilhar até Machu Picchu.

domingo, 30 de maio de 2010

Na chegada ao Peru, maná

Acordei com a cabeça doendo. O som da televisão me incomodava – um vale-tudo gritado em castelhano, alto e desnecessário. Mas o problema não se resumia à TV; a poltrona também não era das melhores, não tinha onde colocar os pés e o banco mal reclinava. Ao meu lado, a situação de Marco era pior. Sua poltrona não travava na posição reclinada; ele tinha que ficar segurando a trava da poltrona o tempo todo com a mão. Amanheceu com o braço dolorido.

Novo país na nossa viagem: Bem-vindos ao Peru

Estávamos em mais um ônibus, seguindo de Copacabana a Cusco. Pouco tempo antes, havíamos cruzado a fronteira com o Peru. O Lago Titicaca ainda tomava conta do cenário e faria isso por um bom tempo. Ou ao menos até Puno, a outra entrada para o lago, já no país vizinho. Nossa primeira parada.

Ninguém nos disse, mas teríamos que trocar de ônibus. Era noite e chovia frio e fino, a mala de Marco, com a capa de proteção amarelo luminoso, veio rápida. A minha não. Lembrei da Europa e de outras experiências em que minha mala ficara para trás. Mas então a mochila apareceu, por último, protegida pela capa preta, que a tornara invisível nas sombras do bagageiro. “Precisa comprar uma capa como a minha”, brincou Marco.

Na rodoviária, fizemos uso da internet e, famintos, experimentamos comer alguma coisa. “Maná”, foi a pedida de Marco, uma espécie de pipoca doce, sem açúcar e sem gosto. Um isopor. “Malísima”, dizia eu imitando Marco. Estava muito ruim.


Pegamos o outro ônibus, o tal busão com a televisão sintonizada em luta livre e onde Marco abraçou a poltrona no sentido real da palavra. Aquele mesmo cujo motorista, sem noção, parou o veículo no meio da estrada, assim, do nada. Bastou um brasileiro indignado gritar pela janela "vamos embora", para o motorista seguiu em frente. O que ele estava fazendo, ignoro.

Ajeitamos nossas malas, a minha de capa preta, a de Marco, amarela, no bagageiro e subimos. Quando passei pelas primeiras poltronas, um rosto familiar surgiu sorrindo para mim.

Era meu bom e velho amigo Daniel, o catarinense.