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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Jamanta não morreu!

Pelo contrário, está vivão no ônibus Garcia rumo a São Paulo. Entrou fazendo barulho, conversando em italiano com um grupo de gringos e reclamando del posto chiuso que escolheram para ele.

Oi pessoal. A viagem está só começando. Escrevo sob a neblina grossa da manhã no norte do Paraná. Paramos em Londrina e agora estamos próximos a Jataizinho (do lado de fora da janela acaba de aparecer o belo Rio Tibagi). A previsão de chegada em São Paulo é 14h30, a tempo (espero) de chegar ao aeroporto de Guarulhos até às 18h35, horário do vôo – ou uma hora antes, que é melhor.

A noite foi difícil. Quase não dormi pois ainda guardo compromissos do Labjor – durante a viagem estava terminando os últimos trabalhos da pós. Puta trampo.

Chegamos em Londrina às 6h, fui tomar café e mexer no trabalho. Abri o mac e fique concentrado até encontrar dois baianos que fazem o roteiro Foz-São Paulo para puxar muamba. De início os dois estavam meio arredios, até brincaram sugerindo que eu era agente da Polícia Federal disfarçado, mas depois a conversa fluiu tranqüila.

No horário do embarque vi o ator Cacá Carvalho, o Jamanta da novela Torre de Babel. Ainda lá embaixo, enquanto guardávamos as malas no bagageiro, ouvi uma conversa entre ele e um suposto fã.

“Eu vim aqui para Londrina encontrar um viado”, confessou Jamanta. “Nós trepamos a noite e agora estou indo embora”.

É, o Jamanta não morreu, tá é muito vivo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Agradecimentos

Escrevo diante de um prato de sopa. Imaginem, mac branco e sopa de galinha não combinam. Mas precisava escrever logo este texto. Daqui a menos de uma hora sai meu ônibus, mais uma viagem para o estado de São Paulo. Desta vez, no entanto, o motivo da viagem não é Campinas ou Labjor. O trecho é mais longo.

Antes de começar uma nova viagem, preciso terminar a antiga. Por um semestre fui e voltei para Campinas e, parte desas viagens, relatei para vocês neste blog. Muitas histórias se perderam ao longo desses quilômetros rodados, outras se escondem lá no fundo do bagageiro da memória. Mas sem o Labjor, acabam as viagens para Campinas e acabam os pretexto para alimentar esse blog. Ao menos por hora.

Ainda lembro me da expressão espantada de meus colegas quando dizia que faria tamanha viagem toda semana. Mas acabei faltando apeas a três aulas, sendo que um dos motivos foi o trabalho.

Chegar até aqui dependeu de muito esforço, paciência e força de vontade. Mas também tive a sorte de ter amigos que fizeram todo o meio de campo. Sem eles, minha vida teria sido bem mais difícil e certamente não teria frequentado tantas aulas.

O que dizer, por exemplo, da hospitalidade do Juttel e da Dri, que receberam o velho e chato amigo de braços abertos. Vez ou outra eu reclamava disso e daquilo e era divertido ver o Juttel se irritar. "Eu não acredito que você ainda não lavou a minha toalha" ou "claro que quem vai dormir na cama sou eu". A Dri chegava a pensar, "que cara folgado", mas após as brincadeiras eles me recebiam bem. O colchão na sala e o controle da TV já tinham dono. E com o direito de tera companhia o Sr. Wilson (gato) que dormia aos meus pés todo dia.

Na volta para Foz, a hospitalidade ficava por conta do Flávio, que sempre me recebeu com um sorriso no rosto, apesar de ter que abrir a porta às 2h da manhã. Quando eu chegava, o sofá-cama já estava arrumado e a toalha e um calção separados para meu uso. Morto, apenas dava oi e ia para cama, as vezes ouvindo o deboche brincalhão dele: "dorme aí as suas quatro horas de sono".

Em casa, não tem preço a ajuda do pai e da mão nos meses sombrios antes de chegar meu cartão de crédito. Cada passagem pesava na conta de um ou outro e até hoje os limites de ambos os cartões estão comprometidos - minha dívida está parcelada, vou pagando aos pouquinhos.

O destaque maior é para essas pessoas e para todos que me apoiaram no término de minha pós. Agradeço à empresa em que trabalho, a Itaipu Binacional, por ter investido em mim e me liberado das segundas-feiras. Agradeço aos ônibus bons e aos bons motoristas, etc.

E agradeço a vocês que me acompanharam até aqui. Depois de um tempo viajando, já imaginava como seria registrar tudo aqui no blog e compartilhar com vocês. Essa não é uma despedida, mas o fim de uma aventura e o início de outra. A todos, meus muitos obrigado!

Sabemos que a escolha da companhia é uma escolha pessoal. Agradecemos por ter escolhido a Rascunhos de Viagens.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Lugares e crianças

Há tempos estou para escrever sobre lugares e crianças. Gostaria de dar algumas dicas das melhores poltronas para se escolher em uma viagem e também falar sobre essas incômodas companhias: as crianças. Na última viagem, ainda na ida, tive uma pequena confusão na escolha da poltrona e enfrentei um berreiro infernal de uma criança. Lugares e crianças, aproveito a deixa para contar para vocês.

Sobre lugares, eu havia preparado um pequeno manual para a escolha da melhor poltrona, dependendo das ambições do viajante. Tem que lavar em conta a posição das rodas do ônibus para escapar dos tremiliques, optar pelo clima glacial lá da frente ou tropical cá do fundão. Escolher se quer ficar próximo do entra e sai das pessoas que chegam das rodoviárias ou da bateção de porta do banheiro.

Eu já estou vacinado. Sempre escolhi uma das primeiras poltronas, mas acabo indo para o fundão. O meu problema é que gosto de ler e o pessoal da frente via de regra dorme a viagem toda. Aqui no fundo também fico livre das pessoas que poderiam pensar “o que este louco está escrevendo no notebook?” (como faço agora).

O problema é o cheiro nauseante que irrita as narinas vindo do banheiro. Ou ainda as pessoas que se entopem de água e se desentopem no banheiro (em ambos os casos, passam pertinho de minha poltrona).

Mas a escolha também depende da qualidade do ônibus. No majestoso Catarinense (o melhor da categoria) é muito bom ficar na primeira fila, de frente para a janela do ônibus – a estrada vai correndo aos seus olhos e você nota as eventuais barberagens do motorista.

Outros ônibus, no entanto, são tão apertados que não importa a poltrona, vc vai se dar mal (no avião também é assim, mas já falo dele). Agora, por exemplo, quase não tenho espaço para abrir meu mísero notebook de 13 polegadas. A mulher da frente desceu a poltrona das minhas pernas e por pouco me incapacitou para sempre de ter filhos.

Paradoxo, na viagem da semana passada, de novo Garcia, o espaço entre as poltronas era tão grande que eu não alcançava os pés no chão. Pensei: ou minhas pernas encolheram ou este ônibus está de brincadeira comigo.

No avião é sempre janelinha, claro. Gosto de ver a paisagem descortinando do lado de fora e, apesar dos inúmeros vôos, sempre acabo encontrando coisa nova. Ainda me lembro do trovão que iluminou o céu e deu origem a esse blog (vide primeiro post) e gosto de ver Guarulhos ardendo em chamas quando o avião decola – a iluminação amarelada é muito bonita.

Quando chego em Foz, reparo as luzes e a falta delas, reflexo do imenso Parque Nacional do Iguaçu, do lado esquerdo, e do Rio Paraná terminando na Hidrelétrica de Itaipu, do lado direito.

Ainda no avião, há a opção de pegar as poltronas da fileira central, normalmente 11 e 12, bem em cima da asa. Ali, na saída de emergência, o espaço entre as poltronas é bem maior, mas as poltronas não inclinam. Se bem que, em considerando as outras poltronas, a diferença é mínima.

Crianças

Estou escrevendo meio a esmo, mas depois vejo o que saiu. Na verdade o combinado era falar de poltronas e crianças e é o que estou fazendo. Vamos ao segundo tópico.

Se tem uma coisa que não combina é viagem e criança. Mas algumas pessoas ainda insistem nesta mistura perigosa. Não sei se já disse, mas além dessas viagens semanais para Campinas, diariamente eu faço de van o trecho Medianeira – Foz do Iguaçu (acumulado de duas horas por dia – minha vida se passa sobre quatro rodas). Nesta viagem, uma mulher leva todo dia o filho pequeno para a creche, em São Miguel do Iguaçu. Judiação do piazinho que estranha sempre que entra na van cantando seu choro fino. A mulher vai se mudar para SMI e evitar tamanho martírio diário.

Nos ônibus já cruzei com várias dessas pequenas criaturas, desde as que abrem berreiro, passando pelas de estômago fraco e chegando às comportadas que seguem viagem como gente decente.

Uma vez no vôo da TAM, um moleque gritava descabidamente na poltrona de trás. Os pais, um de cada lado, pediam pelamordedeus para o moleque parar, mas ele não parava. Inúmeras vezes pensei na falta que faz um bom chinelo. Cheguei a encarar feio o moleque, quando os pais não estavam olhando, mas não surtiu efeito.

Na viagem atual a menina se calou. Dorme de maneira cândida no colo da mãe – a mesma que desceu sobremaneira a poltrona sobre minhas pernas.

Em outra viagem, acho que a ida da semana passada, a mãe insistia que a filha tinha que ir ao banheiro e toda vez que levava a moleca, ela soltava um grito no meu ouvido fazendo-me acordar de sopetão achando que o ônibus tinha batido. Não sei se xingo ou agradeço. Talvez não fosse a insistência da mãe, a menina tivesse melecado o ônibus com vômito, a pior marca que essas criaturas podem deixar em uma viagem. E por causa de um último grito agudo, eu acordei já na rodoviária de Campinas.

O ônibus segue seu rumo, lotado de crianças (acabei de perceber que lá na frente tem mais duas pequenas). Mas a dona da festa é a menininha negra, do banco de trás. Ela grita mesmo, sem pudor ou compaixão. E a mãe passa incólume, a safada.

Mais do que os gritos o que me irrita em crianças são os pais delas. Já parte da semnoçãozisse de carregá-las a tiracolo em viagens de mais de 15 horas. Depois, tem uns mais espertos que adoram entupir as crianças de comida nas paradas de ônibus. Algumas vezes já previ o óbvio: passei por um pai que entupia a criança de comida na parada. Dentro do ônibus, alguém empesteou o ar com o salgadinho gorduroso que revoltou até o meu estômago. O que dizer do estômago frágil, estufado e sem freios sociais da criança? O resultado é desnecessário dizer.

Deve ter mais o que falar sobre poltronas e crianças, mas não gosto de ficar escrevendo assim a torto e a direito. Mais tarde voltamos a nos falar. Devo algumas explicações aos amigos leitores, mas isso fica para os próximos rascunhos. Até lá.

PS: no fim da viagem, a mãe da menina negra levou a filha ao banheiro – choro insuportável por uma boa meia hora. Mais tarde, a onipresente criança tomou conta do espaço sonoro por quase uma hora. Uma hora de choro alto, manhoso e irritante. Eu mereço.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Fim de viagem

O começo e o fim parece se encontrar nesta minha última viagem. Estou escrevendo do notebook, aproveitando a rede Wi-Fi da Caprioli, na nova rodoviária de Campinas. Tudo novo, rodoviária de primeiro mundo. Estranho ter dado tempo para conhecer esse novo point de encontros e desencontros dos viajantes. A rodoviária ainda não opera para os ônibus de linha, somente para a Caprioli. Por toda parte ouço som de furadeiras, martelos e máquinas de grande porte. Senhoras da limpeza dão os retoques e um quiosque faz as vezes da Praça de Alimentação, que vai abrigar, pelo que vejo, redes como Spoleto, Montana Grill, Bob's, etc.

Daqui do novo, do que sequer foi estreado, parto para minha última viagem de volta. Não gostaria de ser piegas, mas impossível evitar o tom nostálgico. Hoje no Labjor abracei meus colegas, muitos pela última vez. Estranho abraçar um amigo com a certeza de que provavelmente nunca mais o verei (isso já aconteceu outras vezes, sei como é).

Ainda não engoli bem essa idéia de fim do curso. Na verdade, vai demorar um pouco para digestão tamanhas são as preocupações para os próximos dias. Sabe, é como se não tivéssemos tempo para sentimentalismo. Mas uma hora isso aflora. Conto pra vocês.

Agora vou procurar a plataforma onde pegarei o Caprioli. Prometo outros textos sobre o fim das viagens e contar uma novidade. Até daqui a pouco.

Última viagem

Última poltrona do ônibus, último suspiro de paciência, último sopro de vontade, última viagem. Faço mais uma vez o trecho Medianeira – Campinas a bordo do controverso Garcia. Segunda tem aula do Labjor, a última. Após um ano e meio de curso, e meio ano de viagens absurdas, faço a última para concluir a pós. Não significa que nossa relação aqui nos Rascunhos tenha chegado ao fim - o que é tema para outros tópicos.

Toda viagem tem a sua história, seus personagens. Cada um desses meus companheiros de ônibus deve ter seus próprios relatos, dilemas e rascunhos. E aqui, entre mais de 40 poltronas, é uma honra assumir a baqueta de suas história.

Há senhoras velhas, como aquela da poltrona 1 que não quis descer do ônibus para saborear o café da manhã do caríssimo Graal. Há também crianças, como essa pequena criatura duas poltronas atrás, que ficou uma meia hora chorando sem os cuidados da mãe (o que volta a fazer agora). Haja fôlego.

Muitas conversas ocorrem dentro de um ônibus. As pessoas podem falar de trivialidades ou comentar sobre a depressão na qual entrou uma senhora após perder o marido. “Isso acontece muito”, afirmou a mulher na poltrona da frente. Podem apenas puxar uma conversa ou falar de temas grandiosos.

Um ônibus é o palco para uma miscelânea de sensações. No ar misturam-se os aromas químico do banheiro, agradável do perfume do cara aqui ao lado e, claro, gordurento, dos salgados que certas pessoas insistem em trazer para o interior do carro.

Os sons variam. Os “buá, buá” escandalosos de crianças mimadas, os toques de celular mais inusitados, o barulho que o ônibus faz ao passar pelos olhos-de-gato no centro da pista, as conversas cá e acolá.

Ainda aqui dentro, os rostos são também variados: a velha senhora, a família negra, o estudante, o casal gordo e outro casal em que a mulher é muito mais bonita que o cara. E a diversidade também ocorre lá fora, nas inúmeras paisagens que se descortinam janela afora. A noite, a lua cheia guardou essa viagem. Agora de dia e já no estado de São Paulo, plantações de pinus tomam conta da vista.

Há também comportamentos e comportamentos. A criança chorona, a mãe descuidada, a mulher que desce a poltrona nas pernas do cara de trás que escreve em seu notebook, o rapaz que ronca ao lado ou o outro que come salgado bem pertinho. Mas há também o sorriso franco da moça gorda e da senhora sem fome, ou a gentileza do rapaz que cedeu a poltrona para as amigas sentarem juntas.

Tudo isso em uma única viagem.

Viajar de ônibus é como ter aulas empíricas de sociologia (quando terminei de escrever essa frase, outra criança, esta de sorriso terno, passa ao meu lado) ou antropologia. É enriquecedor conhecer essa amálgama de histórias e, em alguns casos, fazer parte delas.

Já encontrei sacoleiros, viajantes, estudantes, trabalhadores, turistas, aventureiros, nacionais e brasileiros, gente da capital e do dos rincões mais distantes, pessoas sós e eternos amantes. Ou aqueles que simplesmente estão se deslocando de um lugar para outro.

Esta não é uma despedida, estamos longe disso, mas um agradecimento por vocês estarem juntos comigo a cada viagem. Volto em breve.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Parada de ônibus

Pela primeira vez escrevo direto de uma parada de ônibus, coisa da tecnologia. Tenho dez minutos para tomar esse meu pingado e escrever para vocês de meu novo macbook (e dando vivas à tecnologia Wi-Fi).

Hoje o dia foi bastante estressante. A mulher da venda das passagens disse-me que eu estava muito alterado. Pudera, havia largado 1500 reais na mão dela, parcelado outros milão e estava com as horas contadas para decidir minha vida. Por que comigo tem que ser tudo na correria?

Enquanto eu me irritava na agência de viagens, a mulher que me atendia parece que absorvia minhas angústias. Não sei se ela sofre de gagueira, mas estava completamente gaga quando me atendeu. Símbolo de meu nervosismo ou da minha má sorte? Coitada.

Então, de passagem quase comprada, voei para o shopping para me escrever nas conferências (em breve explico o que estou falando). Cheguei no câmbio e os malditos não operavam em coroas suecas (vê se pode). A gente fez um rolo para converter tudo em euros, deixei o pessoal nervoso, mais do que eu estava, larguei mais 900tão e ... perdi o horário do ônibus (que também não avisara que sairia da rodoviária velha).

Peguei o próximo ônibus e aqui estou. E se não correr perco o ônibus novamente.

Até.

Mordendo a língua

Ônibus Garcia, segunda metade da penúltima viagem para Campinas. Ando meio sumido, mas passei correndinho por aqui para rascunhar. Queria escrever sobre o morder de língua. Coisa rápida, prometo.

Há alguns dias venho falando mal da Garcia, empresa da qual peguei birra por oferecer carros ruins para longas viagens. Injustiça. Mas depois das últimas viagens, preciso rever alguns conceitos.

Antes, uma regressão. Vocês já conhecem a história em que peguei o ônibus para fazer a prova de vestibular na UFPR. Aquela família de bom coração que me deu carona para chegar a tempo de fazer a prova. O que vocês não sabem e que naquela mesma viagem aprontei outra das minhas: perdi o ônibus Ouro Verde (do grupo Garcia) que iria para Londrina. A empresa acabou me encaixando em outro ônibus e eu fui de leito, da Garcia.

Outro exemplo aconteceu na semana passada (viagem 14, ainda tem alguém contando?). Lá estava eu pegando mais um ônibus para Campinas. Reclamei e reclamei da qualidade dos ônibus para a mulher das passagens, mas mordi a língua. Doeu.

Quando deu o horário, apareceu o velho conhecido Top Bus da Garcia, aquele mesmo das viagens Medianeira-Londrina, nos idos do século passado quando eu fazia cursinho.

Dormi espichado em uma das primeiras poltronas umas 14h das 16 de viagem para Campinas - foi uma das viagens mas confortáveis neste vaivém doido a Campinas.

Agora, na viagem atual, ônibus portentoso da Garcia novamente. Dois andares, leito e executivo, coisa chique. E na poltrona 39, lá no fundão do ônibus, o carinha aqui dormiu a viagem toda, como um anjo.

Viagem de volta para Foz. Pela primeira vez faço a volta de ônibus, movido por um feriado em Foz do Iguaçu que me desobrigou de correr para o aeroporto. A passagem de volta já está comprada. A empresa? Viação Garcia, claro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sem tempo

Oi pessoal. O relógio da pós-graduação está com a corda quase no fim e tenho um monte de coisas pra fazer, não está dando para passar por aqui para rascunhar. Não por falta de assunto. O que falta é tempo.

Poderia contar sobre a chuva torrencial da última viagem de ida. O portal da cidade de Corbélia jorrando abundantemente a água acumulada, como uma cascata perdida em solo urbano. Poderia falar do oposto: fogo no ônibus! Calma, nada comigo, mas uma boa história que ouvi de um trio de falantes viajantes que iam para São Paulo.

Nesta conversa, sem enrolar, poderia comentar sobre um problema marcante em viagens: crianças pequenas. Choro, bater-de-pé, coisas dessa gentinha que não nos deixa dormir. Ou ainda, sobre escolha de poltronas em vôos e ônibus.

Posso ainda falar da mais nova aquisição que vai me acompanhar nas próximas viagens e otimizar essa nossa conversa online.

Mas não vou falar de nada disso. Adio nosso papo e quando puder volto aqui. Aliás, deveria estar terminando um trabalho.

Até breve.

terça-feira, 27 de maio de 2008

No aeroporto

E então uma grossa camada de neblina baixou sobre Guarulhos mudando os rumos das coisas.

Olá, ia escrever um post sobre o clima de aeroporto. Vejo que o blog está infestado de percepções sobre viagens de ônibus e poucas sobre os vôos. Então, em Guarulhos, comecei a rascunhar este post, mas o caminhar dos acontecimentos o levou para outra direção. Preferi colocá-lo aí embaixo na íntegra. Ficou um pouco longo, mas contei com a atenção imaginária de vocês enquanto escrevia, espero que possa contar novamente agora na leitura:


A infeliz mulher vestida de rosa, a falante latina, o grandioso grupo de chineses, mulheres com lenço na cabeça, homens gordos com camisetas de listras horizontais, rapazes em seus velozes notebooks. Estou parado em Guarulhos. O aeroporto está fechado por causa do mau tempo e meu vôo não tem previsão de saída (a mulher acaba de informar novamente no sistema de som que o vôo está retido). Sei lá quanto tempo fico aqui e, cansado de ler o livro de English grammar, rascunho algumas palavras.

Queria falar sobre esse microcosmo chamado aeroporto. Um lugar que, a exemplo do filme O Terminal com Tom Hanks, as pessoas transformam no próprio lar.

Daqui de onde estou vejo um homem espichado entre duas poltronas; dorme sobremaneira. O grupo de chineses acaba de passar por ele e voltam a tomar seus lugares. Falam alto e acenam. A mulher triste mantém a cara amarrada e encara uma criança. Ao meu lado, uma moça tira o notebook da mochila e começa a dedilhar e, na poltrona de trás, a falante latina fala sobre as belezas do Brasil. Ela deve ser argentina e seu interlocutor espanhol.

O olhar triste da outra mulher talvez seja reflexo de sua condição: ela vive sobre uma cadeira de rodas ( não que isso justifique caras amarradas. Tenho uma amiga cadeirante, a Dê, que é uma das almas mais alegres que jamais conheci). Já tinha visto a moça triste e sua família enquanto perambulava pela livraria Laselva. E já por lá ela mostrava na face os dissabores da vida.

A falante continua que é só sorrisos para o amigo espanhol. Falam sobre os modos de pronúncia do Brasil. Sim, ela é brasileira: comentou sobre o 'e' do Sul do país e o 'r' de São Paulo. O espanhol parece interessado e arrisco dizer que se o vôo atrasar mais um pouco a brasileira ganha esta fácil, fácil.

Os chineses também conversam, mas em seu idioma sinistro. Suspeito que não pertençam a apenas um grupo. Conheci há poucos o grupo menor, oito chineses jogando baralho em pleno aeroporto. A empolgação dos gringos chamou a atenção de quem passava por perto, inclusive a minha. Sentei ao lado e tentei entender a regra do jogo, mas não tive sucesso. As cartas têm caracteres chineses e os jogadores vão colocando uma sobre a outra sem qualquer sentido aparente. Ao menos não para mim.

O que percebi, no entanto, foi que os chineses, em sua maioria, são calvos e têm problemas de visão. Dos oito jogadores que fazem parte de minha amostragem, 100% são calvos e 72,5% usam óculos. Também usam camisas, cintos, calças tergal e tênis Nike.

A despeito do atraso dos vôos, o aeroporto parece bastante calmo. Sempre sinto no aeroporto esse clima inebriante. Caminhei há poucos entre passageiros no piso inferior. Vi olhares tensos, rostos cansados, pessoas debruçadas no braço das poltronas e outras honestamente estiradas no chão.

Outra partida se inicia entre os china. A falante mantém a aula de língua portuguesa e a triste mulher se encolhe entre duas poltronas. E no sistema de som, interrompendo o correr rápido de minha caneta, o cara anuncia que um dos quatro vôos foi transferido para o aeroporto de Campinas. Falta de teto em Guarulhos. "Londrina foi pro saco", satirizou um cara aqui do lado em referência ao vôo transferido para Viracopos. Falta saber o destino dos outros três...

(...)

0h32. Continuo no aeroporto. Estou ao lado da jogatina dos chineses. Esqueci de dizer: a mulher brasileira e o espanhol estavam no vôo para Londrina e seguem juntos de ônibus para Campinas. O destino deles agora está nas mãos de Deus... ou na lábia da brasileira.

Aqui atrás, um cara de cabeça raspada e boné vermelho falou ao amigo: "Vamos formar uma dupla e desafiá-los para o truco"...

DO SOM: "Passageiros do vôo 3557 com destino a Foz do Iguaçu, informamos que seu vôo sairá do aeroporto de Viracopos!"

Jogo o bloquinho na mochila e esta nas costas. Com o olhar me despeço dos chineses, das pessoas com seus notebooks, dos dorminhocos de Guarulhos, da moça triste que se encolhe na poltrona. Preciso pegar as malas. Volto a escrever de Viracopos.

(...)

Não teve jeito. Nós fomos mesmo um dos vôos selecionados e embarcaremos em Viracopos. Vim de Campinas até Guarulhos para agora voltar pra lá. Estou em frente ao aeroporto do Guarulhos esperando o ônibus. A chinesada também vai junto. A noite vai ser longa, mas a julgar pela companhia, deve ser animada. Volto em breve.

(...)

Aeroporto de Viracopos, 2h48. Pessoas apoiadas no braço das poltronas, outras plenamente dormindo. Notebooks abertos, rostos cansados, bocejos. Aeroporto é tudo igual.

Estou morrendo de sono e, ao menos para mim, essa brincadeira perdeu a graça. O pessoal se aglomera em um único portão, esperando os vôos. O homem gordo de camiseta de listras horizontais também está aqui e a chinesada não está para carteado.

É a primeira vez que piso em Viracopos e não pude analisar direito o aeroporto. Vi todas as lojas fechadas, inclusive a onipresente Laselva. Espaço amplo, perfeito cenário para as pessoas e suas esperas. Aeroporto é tudo igual. Mas ao menos uma vez na vida, a TAM vai ter que fazer um vôo Campinas-Foz.

Está acontecendo uma onda de reclamações lá na frente, vou ver o que é...

(...)

Avião da TAM, 3h passadas. Fui o primeiro a entrar. Acomodei-me na poltrona 21F, de modo que a asa não atrapalhe a minha vista (janelinha é fundamental). Não sei se são do mesmo grupo, mas alguns chineses sentaram-se ao meu lado. Desconfio que este pequeno grupo nem seja de chineses a julgar pelos traços (aliás, não sei nem se aqueles da jogatina o são). Vou perguntar para essa moça de camisa vermelha, óculos e olhos rasgados aqui do meu lado: "Are you chineses?". "No, corean", respondeu. Deveria desconfiar do sotaque com as palavras bastante acentuadas no final da frase (como o Jin e a San do Lost, ou todos do filme Old Boy). A moça riu e comentou ao colega ao lado sobre minha pergunta. Em coreano.

Agora faz silêncio na aeronave. Estamos naquela pausa entre a entrada das pessoas e o enfim levantar do vôo. Vou tentar dormir e talvez pela primeira vez recuse o lanche da TAM (nada de suco de manga para mim). Talvez. Bastante cansado, despeço de vocês que me acompanharam até aqui. E com uma instantaneidade tabajara, posto tudo no blog quando enfim chegar em casa.


Postado depois:

Cheguei na casa do Flávio às 5h50 da manhã. Dormi meia hora e tive que levantar para ir ao trabalho. Sono acumulado. Não aguentei e tomei o suco de manga da TAM. Sou um vendido. Só agora concluo o registro, publicando este post, e agradeço a todos que chegaram ao final dele.

Conversas de ônibus

Já lhes contei sobre alguns papos de ônibus. Teve aquele são-paulino que tagarelava no celular, ou a muambeira gorda cobrando o dinheiro para a caixinha do motorista. Pois bem, quando não estou dormindo ou lendo, constumo levantar as orelhas para ouvir o que rola no ônibus. Vez ou outra, coisas que valem nota.

Agora há poucos estava conversando com uma mulher que me chama de Forrest Gump (pelo destino errante do personagem, creio eu). Toda segunda nos encontramos na Caprioli rumo ao aeroporto de Guarulhos. Naquela viagem em que eu perdi o ônibus e tive que pegar um táxi, ela viu meu desepero, mas não falou para o motorista parar. Até hoje cobro dela por isso.

Bem, deu para perceber: rascunho do Caprioli. Estava lendo, mas os olhos pesaram. Então inclinei a poltrona para dormir e fui cair no meio da conversa de duas amigas em viagem para Europa. Elas comentam com desdém as recomendações do chefe de uma delas: Se for a Paris, visite o Louvre ou Em Londres, vá ao Big Ben. "Ele fica achando que deu uma baita dica. É óbvio que eu vou ao Louvre", desdenhou.

Papo vai, papo vem e elas começaram a fofocar sobre um amigo que passaria um ano na Europa e assim mesmo, na volta, seria contratado pelo Itaú. "Ele vai andar na [avenida] Paulista de terno e gravata, não vai mais se atrair por ela [possivelmente falavam de uma pretendente]."

O último cometário foi sobre blog. Falaram mal. Que só serve para o cara ficar escrevendo o que aconteceu em sua vida. Uma delas gosta de blogs em que a pessoa apresenta a sua visão sobre determinado assunto e não fique apenas narrando seu dia-a-dia. Fiquei cabreiro, é assim mesmo?

Pode até ser, mas vou reclinar só mais um pouquinho a cadeira para ouvir o final da conversa...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Paradas

Labjor, segunda-feira, minutos antes da aula. Rascunhei um post na viagem e gostaria de postá-lo aqui. Se der tempo:

Estou começando a pegar implicância das paradas de ônibus na estrada. Teve uma época em que era tradição: esperava logo parar e sair para tomar meu pingado, gosto de analisar e comparar os pingados de diferentes paradas. Mas muito disso vem perdendo a graça.

Agora são duas da manhã. Estou morto de sono e sei que, se não dormir, de manhã estarei um caco para acompanhar as aulas do Labjor. Aliás, dormir de verdade só na terça-feira, em casa. Estou no ônibus Transpen, parada do Graal. Vinha em um sono relativamente tranqüilo; não que seja fácil dormir aqui na primeira poltrona que eu insisto em escolher (vale um post sobre isso), mas até que consegui tirar um cochilo.

Então o ônibus parou e o pessoal desceu. Ainda com sono, mas já desperto, tive que me levantar para dar um passeio pelo Graal. Andei aqui e ali, e impliquei com a voz do cara que fica anunciando a saída dos ônibus no sistema de som ("atenção passageiros da Pluma, fujam que o ônibus entrou em combustão espontânea"): a vozinha é pior que a da mulher do aeroporto - manjam aquela voz pausada e monótona, sempre pontuando a última palavra da frase? Irritante. Começou uma música legal, estava curtindo, mas o cara da vozinha voltou a dominar o espaço sonoro. Não dá. Saí do Graal e voltei ao ônibus.

Quando entrei no Transpen já senti no ar um conhecido aroma detestável: na segunda fileira de poltronas, pertinho da minha, o rapaz nem fazia cara de culpado ao dar mais uma mordida em seu salgado gordurento.

Agora quero ver se consigo dormir, vai ser difícil, desperto que estou e com os sacolejos da metade final da viagem.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Qualidade de vida

Segue abaixo mais um post escrito no avião, na volta de Campinas na última segunda-feira (12):

A noite é produtiva, o café expresso com açúcar espantou o sono e, aproveitando que o notebook já está ligado, rascunho mais um post. Viagem de volta, mais de dez mil metros de altura. O tema (pausa para turbulência) é conforto, coisa rara nesse vai-e-vem sem fim.

Quem se sujeita espremer-se na classe econômica deve estar preparado para tudo. Mas há coisas piores. Hoje finalmente pude entender na plenitude porque os mineiros chamam ônibus metropolitano de ‘humilhante’. Os saltos que a máquina dá nas lombadas, realmente, provocam situações vexatórias até mesmo para a mais paciente das almas.

Noves fora, temos os ônibus de linha, em que humilhação é palavra de ordem. Imaginem-se enfiados por 16h em um caixote com rodas, tendo que conviver com todas as espécies de criaturas e situações (leiam os top fives aí do lado e conversamos melhor depois). Após sofrer com frio, aperto e desconforto, no entanto, resolvi contra-atacar. E para isso, tratei de comprar armamento e munição.

Há algumas semanas ando com uma almofadinha em forma de meia lua, para colocar no pescoço. A mulher que me vendeu disse que o material é o mesmo usado pelos astronautas da NASA. Não importa, tem funcionado. Podem me chamar de fresco, mas nada como um pescoço firme e livre de eventuais “pescadas”.

Nesta última viagem resolvi melhorar o arsenal. Nos bolsos laterais de minha mochila, a garrafinha de água (outra munição) já não está mais sozinha: carrego também um par de pantufas, que usei nas várias horas do ônibus e uso agora no avião. Coisa de velho? Pode ser, mas melhor que deixar o pé fechado em um sapado apertado sabe-se lá por quanto tempo.

Já tomei a precaução do agasalho, mas a manta axadrezada pertence a um futuro distante. Em algumas viagens, sempre é bom algumas frutas e a inseparável garrafinha d’água. Claro, toneladas de livros e revistas, porque viagem sem ler não tem graça. Mp3 nunca foi minha praia e não será até que eu compre outro.

Mas agora a noite, quando entrei no avião, vi uma novidade. Um cara de bigode e chapéu exibia uma almofada-meia-a-lua como a minha e mais uma arma: um tapa-olho! Com essa ferramenta, fica livre de luzes de leitura ou faróis de carros que ofuscam a vista.

Quem sabe...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Pay attention, please!


Queria escrever esse post lá embaixo no aeroporto, mas não deu tempo. O vôo chegou, o povo embarcou e eu corri botar o notebook na mochila. Agora, após os trâmites de subida e o blá-blá-blá dos comissários de bordo posso voltar a ter convosco. Vamos falar sobre viagens de avião.

Ao longo das três poltronas da asa esquerda a imagem é inspiradora. O rapaz que a poucos ouvia “Beautiful Girl” no máximo volume de seu mp3, agora mergulha em um sono nada vacilante. A bela cena do corpo espichado e pernas para o alto tira todo o glamour de uma viagem de avião na classe econômica.

Certamente também não deve constar nos vídeos institucionais da TAM o camarada da poltrona de trás que, com seus joelhos pontiagudos, brinca entre as minhas quarta e quinta costelas. O breve espaço entre as poltronas já foi digno de nota mas vale este reforço – antes, no entanto, o suco de manga que acabou de chegar (sem gelo, por favor).

O avião sacoleja enquanto dou uma mordida no pão de leite quentinho, cuidando para não sujar o notebook. A voz do comandante toma conta do sistema de som: estamos a 34 mil pés (mais de 10 mil metros) de altitude e a 850 km/h de velocidade, o tempo estimado de chegada em Foz é de 1h40. Céu nublado. Esse comandante é gente boa, sempre trata a equipe de comissários por “muito simpáticos”.

E o vôo prossegue assim como esse post; mas diferente do post, o vôo sabe onde quer chegar. Queria comentar sobre as viagens de avião e como o acúmulo de milhagem faz delas cada vez com menos graça.



Lembro-me bem do primeiro vôo – esperemos antes o cara de trás se ajeitar na poltrona e aumentar o vão entre minhas costelas; agora sim: eu viajara de Curitiba a São Paulo para participar de um workshop aos jornalistas que cobririam a COP/MOP (foto acima). Estava deslumbrado, tudo era novidade. Mas depois do mar de nuvens da primeira viagem, as cenas pela janelinha do vôo viraram uma mesmice só.

Confesso que ainda sinto aquele friozinho na barriga, quando o piloto termina a subida e alinha o avião, e continuo aguardando com paciência o baque que o avião faz ao enconstar no solo, no momento do pouso. Na última viagem para Foz, os relâmpagos da noite me inspiraram criar esse blog. Fora isso, sem novidades. As viagens de avião se resumem à luta contra o site da TAM para comprar a passagem, ao passeio pelo aeroporto e pela Livraria Laselva (onde compro revistas, livros, gibis e Charge), à espera no portão 1C e ao aperto (ou massagear de costelas, como queiram) das poltronas de avião. Nada demais.

Após toda viagem, ao chegar em Foz, cansado e com sono, pego um táxi para o apê de meu amigo Flávio. Pés no chão, que no outro dia levantamos cedo para mais uma jornada de trabalho.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Como as outras

Aeroporto de Guarulhos; notebook em uma poltrona, eu em outra. Acabei de assistir em três partes (lixo de bateria) ao ótimo O Informante. Já comprei a nova Piauí, já comi meu Charge e só aguardo a dona voltar a gritar no sistema de som, desta vez chamando o vôo que me interessa (agora são 22h45, o vôo chega às 23h15).

Escrevo rapidamente do aeroporto e amanhã coloco no blog (maldito PC sem wireless). Quase fim de mais uma segunda-feira e de mais uma viagem como todas. No ônibus o de sempre. Ainda assim, rascunhei alguma coisa nas primeiras horas de viagem. Compartilho com vocês:

Primeiro foi o atraso do ônibus, depois a mulher que se espichava em minha poltrona, aí então a mãe pergunta à filha: “está sentindo enjôo?” Segundos depois o ônibus dobra à esquerda e pára na rodoviária de Matelândia, a primeira após Medianeira.

Quando o ônibus parou em Céu Azul (a segunda), pensei “aí tem coisa”. Retomei a minha poltrona e ouvi a mulher, mãe da filha, dizer que o ônibus pararia muitas vezes ao longo da viagem. Isso com um ar de consentimento. Lá na frente, uma criança mais nova chora agudo e, aqui do meu lado, a mulher que antes tomara minha poltrona desaba dizendo “preciso me recuperar da ressaca”, enquanto maliciosamente esfrega o cotovelo em meu braço. Haja.

Escrevo este rascunho em uma página de meu inseparável O mundo sem nós, de Alan Weisman. Tento me concentrar no capítulo sobre os oceanos, mas não consigo. Talvez seja o entra-e-sai das pessoas no banheiro ou o odor do químico da privada que irrita as narinas. Sei que será uma looonga viagem...

Mudo a posição do notebook, ele sentado na poltrona e eu no chão (porcaria de tela – não fica parada e precisa se escorar em algo para ficar aberta). Faltam poucos minutos para a ladainha chamar meu vôo. Dá tempo para outro relato, ainda no ônibus:

Meio de viagem. A menina desandou a falar, uma gracinha, mas precisa de tecla SAP. Criança quando aprende a falar não pára. A mulher baladeira continua se insinuando. Já terminei o livro (ótimo), tentei assistir ao filme O Informante, mas a bateria do notebook arriou, já ouvi todo o Bee Gees do mp3 e devorei a Piauí. Sem sono, não me resta outra coisa a fazer senão escrever.

Meio de viagem. A mulher do lado diz que se escrevesse em ônibus teria mal-estar. Parece que está tentando puxar conversa – há poucos perguntou o que era a luzinha vermelha do mp3. Daqui a pouco paramos em Londrina e eu tomo mais um pingado.

Viagem longa. Deveria ter trazido mais o que ler.

Cheguei em Campinas às 7h30. Acordei ao som da menina que para tudo apontava e perguntava “o que é isso mãe?”. Perdi o mp3. Deixei no ônibus e quando voltei para buscar já não estava mais lá. Quando escrevi os fascículos Método Fácil de Perder Dinheiro, criei um método especial: fazer essas viagens semanais descabidas para Campinas! Tudo bem, as viagens em si geram um baita gasto. Mas eu tenho ajudado.

Agora me dêem licença que vou correr para pegar o vôo. Também não vou ficar dando sorte para o azar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Uááá!!

Nem seis da madrugada e o som da passarada era insuportável. Enrolei um edredom na cabeça para abafar o barulho, mas não consegui voltar a dormir, aquilo martelava tão forte quanto o bate-estaca de meses anteriores.

O tema deste post é o sono em viagem, mas vale uma pequena regressão. Nunca fui um cara de sono fácil. Pelo contrário, minha tradicional implicância com as coisas se estende ao bater de asas do pernilongo que me faz perder o sono. Literalmente. Fico prestando atenção naquele flap-flap e passo semanas com olheiras absurdas. Tá certo, a vida de animal corporativo ajuda - acordo todo dia às 5h20 reclamando ao despertador "cê tá de brincadeira comigo". Mas perder uma noite de sono por qualquer razão que seja aprofunda as olheiras (lembrem-me de contar a história do ratinho, de dias atrás).

O caso da passarada ocorreu quando eu morava em Curitiba com o Edimar - um corajoso amigo que dividiu o apê comigo por quatro anos. Talvez ele se lembre, e tente disfarçar um sorriso irônico, do dia em que eu levantei da cama de madrugada, com um gravador na mão, para pesquisar o porquê daquela algazarra dos passarinhos.

Outros casos se acumulam por toda a minha infeliz existência. O Luiz Paulo, outro corajoso amigo, teve que conviver com meus resmungões toda vez que dedilhava o teclado de seu computador. Madrugada alta, quitinete pequena, e eu rolando na cama para dormir. Em noites que ele resolvia virar trabalhando, das duas uma: ou me arrastava junto como um zumbi manso ou eu teria que pegar minhas cobertas e pedir asilo no apê dos vizinhos.


Mas o blog é sobre viagens e vamos nos centrar nelas. Para passar bem no ônibus, tem gente que se entope de Dramin, mas nem assim consegue fechar os olhos nas longas horas em terreno desconhecido e chacoalhante. Aliás, passar uma longa viagem dormindo sem problemas é coisa para seres escolhidos, gente que terá privilégios na seleção da espécie. E apesar de minha chatice com o barulho mais imperceptível, posso me considerar um privilegiado. Na maior parte das viagens, sigo meu sono sossegado.

Isso quando o frio não congela meus pés (tornando a gangrena uma hipótese plausível) ou o motorista resolve treinar para o Rally dos Sertões. Foi assim na viagem para Campinas do dia 21/04 (a oitava). Após a parada no Graal, o motorista optou por desviar de São Paulo, passando pela chamada "Serrinha". Ali, solavanco é regra e dizem que você pode fabricar um milk-shake, sentado na poltrona. Por mais que tente, não dá para dormir.

Nessa viagem cheguei a Campinas pregado. E, após 14h, ali no trecho de Americana, enfim consegui dormir um pouco. Estava tão cansado quando estacionamos na rodoviária de Campinas que cogitei encarar o motorista com os olhos inchados e cheios de súplica implorando: "Posso ficar matando um tempo aqui?"

Não deu. Peguei o ônibus metropolitano e fui balançando para Unicamp, sentado naquela parte levantada da roda e maldizendo mentalmente todas as pessoas felizes com seus assentos. Quando cheguei à universidade fui direto à Praça da Paz. Ali no banco duro de concreto fiz o mesmo que fizera em minha primeira ida para Campinas, quando tudo começou, na primeira aula do Labjor.

Dormi como um anjo!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Na ponta do lápis

Certa vez disse pra minha mãe que eu sou um sobrevivente. Um cara que tenta sobreviver ao mundo, desviando dos obstáculos postos por ele mesmo. É isso aí, eu sobrevivo a mim. Tenho uma habilidade tremenda de criar confusões e de sair delas. Mas isso já está me cansando.

Um ponto importante dessas viagens para Campinas é o aspecto financeiro. Alguém já deve ter imaginado que não fica barato ir e voltar para lá toda a semana. Na verdade tenho que controlar tudo na ponta do lápis. E driblar algumas dificuldades extras.

A mais importante é como comprar a passagem de avião. Semanalmente pululam nos sites das companhias de aviação promoções e mais promoções de viagens a preços rasteiros. Nunca aproveitei nenhuma delas. Primeiro que a promoção é para um dia específico, uma hora específica e voltada para pessoas que estajam vestindo jeans e camisa pólo azul. Não dá.

Depois que também preciso de um horário específico, nem tão cedo na segunda, nem tão tarde na terça. Ou seja, depois do Labjor e antes do expediente do dia seguinte. É difícil, só o vôo 3557 da TAM às 23h45 de Guaraulhos chegando às 1h25 em Foz consegue esses pré-requisitos. E esse vôo nunca tem promoção.

A Gol e a Ocean Air também fazem o trecho São Paulo - Foz, mas em horários cômicos. O vôo da Ocean Air é quase 200 reais mais barato, mas não encaixa no perfil. O da Gol também sai bem mais em conta.

O negócio é enfrentar o site da TAM e encarar outro problema: pagar no cartão. Nesse mundo pós-moderno o importante não é ter dinheiro, é ter crédito. Embora receba o salário em dia e os freelas aqui e ali, nunca consegui comprar as passagens com meu próprio cartão.

O Visa do Banco do Brasil está capenga, vence em maio e, portanto, não serve mais para fazer compras no crédito. O outro cartão, da Caixa, é uma porcaria de cartão de débito onde eu recebo meu ordenado. A Mastercard está para me enviar o cartão de crédito internacional e o caraio a quatro há 40 dias. Erros de endereço e cá estou eu chupando o dedo.

Resumindo: continuo comprando parcelado no cartão dos outros e pagando quase à vista. As contas se acumulam e o lápis já está quase sem ponta. E eu não sei como vou pra Campinas essa semana.

Alguém aí empresta o cartão? Ou um apontador.

55 horas no pé

Acabei de postar que em uma das viagens embarquei fedido e suando em bica. Já teve outros momentos em que passei algumas horas sem tomar banho e já encontrei seres que realmente precisavam ser apresentados à água e ao sabão. Quando fui pra Fortaleza, os quatro dias dentro do ônibus renderam algumas horas a mais de fedor. Mas em uma viagem em especial, bati todos os recordes.

Foi na viagem número 3, a mesma em que perdi o vôo GRU-IGU (post abaixo, por favor). Havia deixado para viajar só no domingo à tarde, logo, cheguei em Campinas na segunda de manhã e fui direto ao Labjor. Contem comigo: no domingo, um pouco antes do almoço, eu tinha calçado o sapato.

Após as 14h de viagem e os 40 minutos de ônibis metropolitano cheguei à Unicamp, umas duas horas antes do início da aula. Sentei na escadaria do Labjor e tentei adiantar alguma coisa no notebook. Estava com sono, o mesmo sono acumulado que me faria perder o vôo, horas mais tarde.

As aulas se passaram, peguei o Caprioli para Guarulhos e perdi o vôo. Tive que passar a noite no aeroporto com o sapato ainda no pé. Peguei o vôo da manhã e fui direto para o trabalho em Foz do Iguaçu.

Quando cheguei em casa, às 19h de terça-feira, finalmente tirei o sapato. Meu pé parecia uma uva-passa o coitado. E o cheiro era indescritível. O sapato está até hoje na lavanderia e ninguém tomou coragem de lavá-lo. Já dei como perdido.

Relógio, um inimigo

Por muito tempo fui conhecido como o cara mais impontual do mundo. Lutei contra essa fama, pois acho uma falta de educação deixar os outros esperando. E mudei, agora só jogo contra o relógio quando o único prejudicado for apenas eu. Mas tenho abusado. Muita gente diz que eu não levo a sério o tempo e meu histórico advoga contra mim. Bem, seguem alguns relatos.

Não me recordo quando a correria começou. Lembro que no primeiro vestibular para UFPR desci no ponto errado e tive que pegar uma carona salvadora para chegar no local de provas, apenas alguns minutos antes dos portões fecharem (minha mãe diz que reza até hoje para aquela família). No Enem, ano antes, a Comby do pai quebrara no meio da estrada e lá fui eu de carona para Foz do Iguaçu. Isso no século passado.

Em outra ocasião, eu estava tomando banho sossegado na casa dos Coppi, quando batem na porta: "Murilo, que horas é o seu ônibus?", perguntou a Mari. "Dez horas [da noite]", respondi desprocupado. "Aqui tá dizendo que o ônibus é as nove". Saí correndo do chuveiro, me enxugando pelo caminho. Joguei tudo na mala e o tio Ademir me levou para a rodoviária. Até hoje o sincronismo de sinais verdes na Almirante Tamandaré é história na família.

Também em Curitiba, já perdi ônibus para Campinas, tendo que pegar outro fazendo conexão em São Paulo. Em outra viagem, precisei peitar o ônibus para ele parar. Estava com um monte de malas e quando cheguei ele já havia saído. Atravessei duas avenidas e pulei na frente do ônibus. E ele parou.

Quem parou também foi outro ônibus quando eu estava fazendo uma viagem por Iporanga, no Vale do Ribeira de São Paulo. A Sueli no volante, o ônibus lançando poeira em nossa cara. Perseguição igual àquela feita em Campinas, com o Phillip e o Norito, atrás do Caprioli (leia post abaixo). A diferença é que nessa, nós alcançamos o ônibus. Quando entramos, a Tati e eu encontramos uma escurssão de evangélicos. Fomos cantando músicas religiosas o resto da viagem.

Atraso recente

Mas como esses rascunhos se voltam às viagens para Campinas, vale uma última história, que também faz parte da série de fascículos Método Fácil de se Perder Dinheiro. Foi na primeira das viagens para Campinas, uma sexta-feira. Chegara do trabalho e correra para uma lan house (o notebook estava comemorando aniversários no conserto). Tinha que resolver alguns pepinos, sugerir algumas pautas e, claro, comprar a passagem de avião (a volta).

Passei antes na rodoviária e prometi voltar depois com o dinheiro para comprar a passagem. Gastei um tempo na lan, fui ao Banco do Brasil e bingo! Qual é o código de meu cartão? Antes que me critique um aviso: o banco tinha mudado meu código e fazia tempo que não usava o cartão.

Fiquei puto. Consegui, no entanto, falar com um funcionário do banco que já estava fazendo planos de sexta-feira com a família pelo celular. O cara foi gente boa, cancelou meu código e eu pude sacar o dinheiro.

Corri para a rodoviária, mas precisava pegar o comprovante de pagamento do vôo na lan house e tive a idéia de comprar a passagem quando fosse embarcar. Fui para casa para me arrumar e ao chegar no quarto percebi que tinha deixado cair na rua todo os 120 reais da passagem!

Coloquei a mochila nas costas e fui correndo, suado, cansado e com os olhos voltados para o chão. Obviamente alguém mais feliz encontrara o dinheiro antes. Tive que sacar novamente o mesmo valor e voar para rodoviária. Comprei a última passagem, segundos antes de fechar o mapa do ônibus e de ele sair de fato.

Fedido e com 120 reais a menos no bolso eu fiz a minha primeira da série de viagens para Campinas.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Criaturas bizarras

Adoro ir pra São Paulo. Gosto de parar na rede Graal e ver aqueles artesanatos de sempre (além de pagar espetaculares 3,90 por um salgado), gosto daquele clima da rodoviária do Tietê, das pessoas que circulam, da revistaria News, etc. O que me desagrada é a linha de ônibus Foz do Iguaçu-São Paulo. Digo o porquê.

Primeiro que os ônibus da Pluma são péssimos. Absurdo apresentarem ônibus tão ruins para viagens de 14h (teve uma vez, em uma viagem para Curitiba que começou uma goteira no ônibus, tivemos que parar e a reclamação foi geral, mas isso é outra história). Mas os maiores culpados são os passageiros. Vai parecer preconceito meu ou piti gratuito, mas certas criaturas realmente me tiram do sério.

Quem se lembra do início daquele filme Um dia de Fúria, com Michael Douglas, sabe do que estou falando. Ele no carro, a mosquinha em seu pescoço, a menininha lhe encarando, o cara buzinando, o calor, as crianças brincando no ônibus, a cara demoníaca do Garfield. O final vocês conhecem. Eu nunca saí por aí explodindo tudo, mas teve vez que me deu vontade. Voltamos no tempo.

Há alguns anos eu fazia uma viagem de Londrina para Medianeira e tivera o infortúnio de pegar um ônibus pinga-pinga, aqueles que param nos rincões mais improváveis. No finalzinho da viagem, depois de mil paradas, uma criança de estômago rebelde vomitou bem pertinho de mim. Aquela gosma líquida e fedida ficou dançando no chão do ônibus, me ameaçando. Encolhi as pernas na poltrona e enfiei a cara para fora da janela. Começou a chover...

As viagens para São Paulo (ainda) não tiveram vômitos e crianças, mas tem vários elementos que me irritam sobremaneira. A primeira ida para Sampa (a quinta das viagens para Campinas) foi surreal. Já na rodoviária de Medianeira um cara perguntou ao motorista se "dá tempo de ir ali comprar um salgado?".

E eu nem tinha entrado no ônibus.

Peguei uma poltrona lá no fundo. Passei por pessoas dormindo de boca aberta, senhores encolhidos, sentei e enfiei a cara no livro. Fiquei perto do banheiro, de onde horas depois surgiu um cheiro nauseante que se misturou ao cheiro de salgado gordurento.

Não passou muito tempo e uma gorda de camiseta curta começou a discursar: "Olha a gente tem que juntar dinheiro para a caixinha! Todo mundo tem que colaborar. Quer economizar agora, depois nos param e o prejuízo é bem maior".

Caixinha? Que caixinha?, me questionei. Mas voltei ao livro. A gorda veio andando e parou do meu lado pedindo o dinheiro. Na minha inocência eu disse que não sabia dessa tal caixinha e ela: "Você é muambeiro?". Eu: "não". Ela: "Então e é por isso". E voltou ao seu discurso.

Não conseguiram juntar os 300 reais da caixinha, mas por sorte (para eles) o ônibus não foi parado.

Mais bizarrice

Duas semanas depois (a sétima viagem para Campinas), novamente fiz uma paradinha em São Paulo (Star Wars e casamento, leiam no post anterior). Quando entrei no ônibus, de cara, tinha um maluco careca e sem camisa, sentado lah no fundo, sobre aquele frigobar onde ficam os copinhos d´água. Ele me mirava nos olhos. Fiquei sabendo depois que o cara era egresso da cadeia e estava querendo fazer pose de valentão.

Desta vez a minha poltrona era a primeira. Ajeitei minhas coisas e fui ao banheiro, quando vi um cara gordo falando no celular. Ele coçava a barriga, deixando a cueca aparecer. Pasmem, a cueca era do São Paulo FC!!

Aquele cara seria o incômodo da viagem. Ficou um bom tempo no celular conversando alto com um cara a quem ele chamava de "Contramão". Falava palavrões e tinha um tique - igual aqueles "mentira" ou "sei, sei" que todo mundo diz ao telefone, mas muito mais ridículo - que me irritava demais. Uma mulher pediu para ele parar de falar alto e ele deu o clássico infantil "a boca é minha, falo o que eu quiser".

Eu não conseguia me concentrar no livro. Por várias vezes visualizei a cena: eu me levantava calmamente, chegava até o são-paulino, tomava-lhe o celular e jogava pela janela, e arrebentava a cabeça do escroto no braço da poltrona. A tela mental era cada vez mais real, eu já estava fechando o livro, abrindo o cinto da poltrona e cerrando os punhos.

Mas aí o cara desligou o celular e me aquietei no meu canto.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Brisa congelante

O friozinho de Medianeira me leva a postar o último texto de hoje sobre isso: o frio. A mamma já dizia: "coloque o agasalho menino", mas e eu lá sou bobo de ficar carregando roupa a mais nas mãos durante as viagens. Dá no que dá.

Mas convenhamos, motorista de ônibus não tem a menor noção de temperatura agradável. E se for pra errar, todos eles nivelam por baixo. O resultado é a senhora se encolhendo debaixo da manta xadrez de um lado e a criança de colo chorando do outro. No meio, o bestão aqui trincando de frio.

Foi assim na última viagem Curitiba-Campinas e também na penúltima Curitiba-Foz do Iguaçu. Apesar da inocência rara do motorista neste episódio, conto-lhes sobre a viagem para Foz.



Era a segunda-feira do dia 14/04 (a sétima, não percam as contas). Naquele fim-de-semana eu havia viajado para São Paulo (a linha Foz-Sampa é digna de nota, me cobrem!) para ver a exposição Star Wars com uns amigos. A toque de caixa, no fim da noite, corri para o casamento de uma amiga, a Lívia, também em São Paulo. Depois, morto de sono às 5h da manhã, viajei com uns colegas para Campinas.

Na segunda-feira, após as aulas do Labjor, saí no meio da tarde para pegar o vôo - desta vez em Congonhas e desta vez pela Gol. Cheguei naquela Curitiba fria que conheci no inverno de 2000. Era já tardezinha, 35 minutos para começar a formatura de meu amigo Edi. Na Reitoria da UFPR, corri ao banheiro para colocar o terno, momento em que todo mundo também se dispôs a tirar água do joelho e ajeitar o topete. E eu lá, trocando de roupa.

Acompanhei a bonita colação de grau da turma de Geologia e, enquanto todos foram para o jantar de confraternização, eu peguei um táxi para a rodoviária. Comi uma esfirra fria e me preparei para uma noite mais fria ainda.

"Você não poderia diminuir o ar?", implorei ao motorista. Mas naquela única vez a culpa não foi dele. O tempo estava realmente muito frio e o sistema de calefação quebrado. Vesti toda a pouca roupa da mochila, cobri os pés com uma bermuda, as mãos com o paletó e me encolhi no banco. Mas o espantalho que criei não conseguiu espantar o frio.

Em Foz de Iguaçu, pela primeira vez em muito tempo, agradeci pelas tardes quentes de rachar mamona.