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quarta-feira, 11 de março de 2009

O martírio húngaro

O sistema de som tagarelava em idioma terrível. E eu estava puto. Isso é comum para um cara ansioso, impaciente e chato como eu, mas aquele dia estava particularmente puto. Era quase fim da viagem, meu último dia na capital Budapeste – o pior dia em toda Europa (tão ruim quanto à frustração de minha perda de bagagem). Conto para vocês.

Vidraça na estação de trem, símbolo do martíria húngaro

Ainda no terminal de trem, no dia do martírio húngaro, escrevi (mas não publiquei): “De antemão aviso, escrevo este post na estação ferroviária de Budapeste, estou aqui já há quase quatro horas e parece que vou ficar mais...” Não terminei o texto por falta de paciência, mas tento buscar na memória alguns lances deste dia.

Logo cedo saí para mais uma caminhada em Budapeste, nenhum roteiro específico, talvez um museu ou uma praça. Nada de especial. Mas tive que ir e vir para lá e para cá para comprar a passagem de trem rumo à próxima parada. Fiz uma coisa que não se deve fazer em metrôs europeus: não comprar o ticket.

Budapeste, último dia. Perdido

Foi uma única vez, uma só. Em todas as outras comprei o ticket direitinho, embora nunca ninguém tivesse me exigido nada. No dia em que não comprei, fruto da pressa, da correria e da safadeza, me dei mal. Ao sair do metrô uma mulher me parou exigindo o ticket. Banquei o cínico.

Mas depois de espernear, choramingar e reclamar, não teve jeito. Morri com 20 euros de multa. É mais um exemplo, as multas já estão relacionadas no best seller “Método fácil de se perder dinheiro”. É uma boa leitura, recomendo.

Estação de trem e sons incompresíveis latidos no sistema de som

Saí do metrô chutando pedras e placas. Estava puto. Andei impaciente por Budapeste até a estação ferroviária onde perdi algumas boas horas para comprar minha passagem.

Museu do Terror. Apropriado para o dia do martírio

Ainda impaciente, mas já respirando sem dificuldade, conheci o Museu do Terror, a única coisa que salvou o segundo dia em Budapeste. Na verdade o museu é excelente. Fala do período do massare promovido pelo partido nazista húngaro no fim da Segunda Guerra, a primeira fase do terror, e depois sobre o comunismo que tomou conta do país. O segundo terror. Vale muito a pena!

Praça sem sentido pra mim. Preguiça de buscar no wikipedia

De lá, caminhei até uma praça dos heróis. Um monte de estátuas e bustos de gente desconhecida. Bonita, turística, mas sem sentido. Ao menos para mim. Vá, deveria pesquisar e me comportar como um turista decente. Mas não estava com saco pra isso.

Espera, atraso, demora. Sou bom nisso

Assim como as palavras que eram vomitadas pelo sistema de som da estação ferroviária – não entendia nada. Quatro horas sentado, esperando. Trem atrasado, mundaréu de gente e aquela voz bizarra. Comi uma pizza gigante e fiquei esperando, abraçado em minha bagagem.

Adeus Budapeste. Até um outro dia (ou não)

E quando o trem enfim se afastava da cidade, olhei para trás com aquela má impressão do segundo dia em Budapeste. Injustiça, Budapeste é linda. Mas ainda volto lá, nem que seja para coletar de novo a água do Rio Danúbio. Mais a frente vocês entenderão porque.

Sob o céu escaldante de Budapeste

Foi uma Budapeste ardente que encontrei em meu primeiro dia na capital húngara. Havia chegado tarde no dia anterior, mas a tempo de encontrar um hostel barato (leia “Sob a brisa do Danúbio”, de julho de 2008, o último post que escrevi direto da Europa). Mas ao nascer do dia, minha intenção era explorar a cidade e cruzar algumas vezes o belo Rio Danúbio.

Regata para fazer marra. Espere o fim pelo dia...

Ao fim de dois dias, quando estava indo embora de Budapeste, escreveria: “Ainda guardo nas costas a marca da aventura. Manja aquele queimado ridículo da marca da regata? Estou assim. Saí cedinho de hostel para caminhar e coloquei a camisa da seleção brasileira de vôlei, só para fazer marra. Deu no que deu. No meio do caminho tive que comprar uma camiseta dessas turísticas para proteger as costas, corria o risco de ensolação.”

Entrada da Cidadela: forte húngaro.

“Fora o pimentão do rosto e costas”, continuei em meu relato in loco, “Budapeste foi ótima em seu primeiro dia. Andei, corri de bicicleta, joguei bola, só faltou atravessar o Danúbio a nado para me candidatar às olimpíadas.”


Canhões, tortura, nazismo e comunismo: esses túneis guardam história.

De fato, Budapeste foi show de bola. A cidade é muito bonita, separada em Buda e Peste pelo Danúbio. Conheci a Cidadela, um local onde os húngaros montaram um forte de resistência na 2ª Guerra Mundial – encravado em uma montanha, o buncker é repleto de túneis. Bem cenário de games de guerra, como o ótimo Medal of Honor. Interessante.

Budapeste nas pernas

Buda e Peste separados pelo Danúbio.

Caminhar sempre foi meu forte (vocês verão bem isso no próximo especial) e em Budapeste aproveitei essa vantagem. Venci a cidade nas pernas. Foi caminhando que cheguei ao Royal Palace, sempre na margem Buda do Danúbio – Peste eu veria no outro dia. Neste dia andei feito um camelo. Ou seja, taquei um beduíno em cima das costas, tomei vinte litros de água e sai num bater de cascos pelas ruas de Budapeste.

Aos fundos do Royal Palace, uma estátua bem húngara.

Colorido na cidade emparedada.

Janela da igreja abusa de círculos nada concêntricos

Igreja colorida e estátuas. Budapeste está cheia disso

Minhas costas ardiam enquanto eu andava por aquela cidade entre paredes. Tive que me cobrir com uma camiseta turística para não sofrer de ensolação. A cidade é muito bacana, com construções coloridas, ruas labirínticas e chão coberto de pedras. Uma belíssima vista do parlamento húngaro, do outro lado do Danúbio.

Danúbio e o parlamento, mais ao fundo o Royal Palace

De lá, ainda pé ante pé, cheguei a uma ilha no meio do Danúbio, usada para recreação de budapestinos e visitantes. Um verdadeiro parque, com direito a chafariz e seu balé da águas, grandes bosques, ciclovias, e repleto de pessoas comendo lanche, tomando cerveja Soproni e caminhando.

Dança das águas num chafariz. Para refrescar a cuca e relaxar

Praticantes de Le parkour. O franceses é por minha conta

Aluguei uma bicicleta para conhecer o parque. Bonitas paisagens, franceses praticando Le parkour, senhoras sentadas em cadeiras e casais sob árvores. Encontrei um grupo de iraquianos e húngaros jogando futebol e me integrei ao time dos asiáticos. Não fiz feio: com um gol de cabeça, fechei a fatura do jogo. Quando disse que era brasileiro, o pessoal tremeu nas bases, hehehe.

"Eu não aguento eu não aguento / estou diante do Parlamento. É de noite é de dia / no Parlamento da Hungria"

O fim do ótimo dia, que infelizmente não posso detalhar por não me lembrar de tais detalhes, chegara ao fim. Foi caminhando, sempre caminhando, que atravessei mais uma vez o Danúbio e conheci o belíssimo parlamento húngaro.

Royal Palace, enfim de frente

E foi caminhando que cheguei morto de cansado ao hostel, bem longe dali. Diante do espelho conferi o estrago nas costas e me preparei para o segundo dia em Budapeste que tinha tudo para ser perfeito.

Fim de dia e um vermelhidão já realçado em braços, ombros e pescoço

Mas não foi bem assim.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Sob a brisa do Danúbio

Oi pessoal. Escrevo de um hostel em Budapeste, Hungria - 1h30 hora local, 20h30 horário de Brasília. Consegui um canto, banho quente e wi-fi meio que na louca, e agora escrevo um pouco aqui no blog. Tem sido difícil encontrar wi-fi aqui na Europa, por isso não pude atualizar o blog. Faltam aqui histórias loucas como a Casa Westbankof, as diferentes línguas, as aventuras sobre nuvens, trilhos ou mar. Tento contar isso quando voltar para casa.

Foi meio difícil entender qualé a dos húngaros, e ainda não entendi. Cheguei em um país estranho, com a estação rodoviária fechada, sem mapa nem moeda local. Consegui informações com um camarada que falava inglês assim assim. Ele me indicou a direção e eu peguei o metrô sem pagar e fui. Metrô diferente do esquema de Viena, onde eu já estava dando informações para os turistas.

Caras estranhas no metrô. Tinha um que parece um personagem do Dragon Ball, com aquele bigode grande com as pontas caídas. Um menino brincava de armar o cubo mágico enquanto o outro conometrava (achei que faziam isso só na TV). As pessoas me olhavam com estranhesa e eu torcendo para o cara que cobra os tickets não me pegar enquanto contava as estações que passavam.

Consegui chegar na estação Kelvin tér e me enrolei um pouco para encontrar a rua Lónyay, mas achei. Estava andando feito bobo procurando o número 1093, indignado por estar na quadra com os números 13, 14, 15. "Vou ter que andar umas cem quadras", pensei. Então vi uns jovens em uma mesa de bar, conversando alto. Passei por eles, mas resolvi voltar e perguntei se alguém falava inglês. Nunca faço isso, mas me apresentei como brasileiro.

"Ah, você é brasileiro, então está em casa", disse o Eduardo, um estudante de 22 anos, de Rio Preto-SP, que está morando na Hungria desde o começo do ano, estagiando na Nokia. Ele me informou que o 1093 é o CEP da rua, o número era outro e eu já havia passado por ele.

Encontrei, enfim, o tal hostel Império Max. Sem vagas, fui para outro, perto dali e de onde escrevo agora. Estou em um quarto sozinho e o dono se desfez em desculpas por não me arrumar um quarto mais barato para dividir. Tenho que pagar o horror de 22 euros! O quarto com 8 ficava por 18 euros. Na Suécia e em Viena, paguei quase 50 euros a noite. Aqui, o cara ficou desconcertado por eu ter que pagar tanto. Estou adorando, quarto chique e super barato.

Aliás, dinheiro é algo estranho aqui. Se eu me achava o tal com o bolso cheio de notas de 100 coroas suecas, imagine agora com as notas de mil forintes húngaros. Com 99 dá para comprar uma Coca-Cola, com 450 comprei um baita lanche que até agora não descobri o que tinha dentro.

Estava com fome e sede, fui passear. Usei o troco dos 50 euros que paguei pelo hostel (22 pelo quarto, 15 pela chave - se eu não perdê-la recebo de volta), ou seja 13 euros em forintes. Deu mais de 3 mil na moeda local. A cotação segundo o convesor do mac está em 233 forintes para 1 euro. Ou seja, paguei 44 centavos de euros pela Coca (em Viena, cheguei a pagar 3 euros). O lanche pode parecer caro, mas forrou bem o estômago. Só não sei do que era.

Estou gostando de Budapeste, já de cara o brasileiro Eduardo e o Hispano-húngaro Abraam, dono do hostel, me disseram que eu peciso de mais de um dia para conhecer bem. Vou ter que mudar meus planos e ficar uns dois dias, afinal, Praga não vai sair do lugar.

Para comprovar a beleza do local dei uma caminhada até uma das 9 pontes da cidade. Respirei fundo a brisa do delicioso Danúbio. Amanhã coleto a água para coleção. Segundo o japa com quem eu estava conversando agora, que rio quando eu falei essa históiria da coleção de água, tenho muito que conhecer por aqui.

Fica assim então. Vou lá, vejo e conto como foi. Esse post vai na frente dos outros, mas não deixam de me cobrar histórias sobre trocadilhos, conferências e viagens de uma "turminha que vai aprontar muuuuira confusão na Europa". Até mais.