domingo, 8 de abril de 2012

Dia 6: Novos amigos em Veneza

Oi Mamma, e pappa, tudo bem?

Sexto dia na Itália (20/02). Estou um pouco cansado. Acabamos de chegar de um barzinho e vou para cama. Amanhã, o dia vai ser longo – meus novos amigos viajam cedo e eu quero acordar em igual horário para aproveitar o dia. Hoje foi muito legal em Veneza, não somente por causa da cidade, mas pela companhia.

O dia em que molhei os pés. Me arrependi por boa parte da viagem

Lembro que quando viajei sozinho pela América Latina, não reclamava de estar sozinho, já que a todo momento encontrava amigos para seguir viagem comigo. Estava aguardando que isso acontecesse nesta viagem a qualquer momento, mas é mais difícil por ser Europa, acho. Então resolvi ajudar. Ontem, quando cheguei em Venezia aconteceu algo que ocorre umas cinco vezes por ano, e, pela primeira vez este ano: a água começou a invadir a cidade.

Dia inteiro andando pela terra das gôndolas

Veneza com a água onde deve estar: nos canais

É realmente interessante: toca um alarme quando a água sobe – eu ouvi o alarme disparar quando escrevia outro email [leia aqui]. Aí, as pessoas começam a se preparar. Colocam as bombas de drenagem para trabalhar e umas proteções em frente às lojas. Estas estruturas já estão lá, são mini portas de metal que sobem para barrar a entrada da água. Então, são colocadas passarelas em toda a cidade para permitir que o pessoal caminhe e os vendedores, com suas botas altas, ficam bombeando a água pra fora de seus estabelecimentos. Foi neste cenário que eu conheci meus dois primeiros amigos de viagem.

Tommy, o casal Kaylen e Roger e o Kyle: novos amigos

Tinha visto o Kyle e o Thomas quando eu fazia o check-in no hostel. Dois americanos que moram no Sul da França para estudar o idioma. Eu vi os dois tomando sorvete em uma gelatteria e fui pra lá também. Como sempre, puxei conversa. "Vocês não vão conseguir chegar ao hostel com estes tênis baixos aí”, disse em inglês apontando para All Star deles. Aí ficamos batendo papo um monte, eles voltaram para o hotel e eu fui sacar algumas fotos.

Fotos. Só não sei o que é

Para chegar ao hostel, enfrentei um rio. Encharquei meu tênis. Tomei um banho de rei e fui dormir. Estava preocupado porque achava ter perdido as chaves – teria que pagar 50 euros por isso. Não consegui dormir. Até mudei de quarto, por causa do ronco insisistente de um cara da cama ao meu lado. Dormi. No outro dia, o cara da recepção disse que minha chave estava segura – eu tinha deixado cair no hall de entrada.

Vitrine com massas. Algo quente em um dia gelado

Tommy me viu pela manhã e me convidou para sair com eles. Kyle estava com outos dois amigos, o Roger e a namorada. Fomos tomar café da manhã. Andamos o dia todo. Estava realmente frio, mas pudemos sentir um pouco de o que é Venezia. Eu sempre tive uma ideia errada: como se fossem uma cidade construída meio no improviso sobre a água. Não é. Venezia é uma cidade normal, mas repleta de canais. E é linda. As ruazinhas, as praças, o grande canal com sua ponte de Rialto, a mais linda de todas. Andamos de verdade por calçadas pequeninas, nos perdendo em lugares não turísticos. Experimentamos caffes e diferentes drinks, inclusive até agora pouco.

San Marco e Rialto, os dois pontos turísticos principais de Veneza

Foi muito bom, apesar do tempo chato que de novo não ajudou. Mas finalmente fazia uma coisa com amigos, da forma que estou acostumado a viajar: quando o programa com os amigos é melhor que a cidade em si [em La Paz, mudei meu roteiro para seguir a viagem com Marco e Ben]. Minha ideia era ver uma ópera, mas preferi ficar com eles. Fazia frio e o coitado com Kyle com roupa curta, mas o dia foi legal. Terminamos com um MacDonald, a embaixada americana na Itália e em qualquer outro lugar

 Na "embaixada americana", um Mac Itália

Agora a noite saímos os cinco para andar de novo. Antes disso, Tommy ficou em uma conversa profunda com outro americano. Catei o Kyle e viemos aqui na internet um pouco. Papo chato o de Tommy. Aí, saímos para a região da Margherita onde tem alguns bares. Experimentamos algumas bebidas e pulamos de bar em bar. E agora estou aqui.

Fim dia, bebidas e piadas sobre sardas: confundi os termos "freckles" (sardas) e "pimples"(espinhas de rosto) e disse "I like pimples". Eles: "No!"

O pessoal me convidou para passar alguns dias na França em uma cidade no Sul chamada Poo. Eu poderia conhecer Paris e outras cidades bonitas da França. Fique na dúvida. Porque não mudar totalmente minha organização de meses? É uma.

Bem, depois de um dia ótimo com amigos e tals, vou dormir. Amanhã quero visitar agumas ilhas próximas de Veneza e seguir viagem. Vai ser bom, pena que sem o pessoal. A noite, vou para Bologna.

E de lá, continuo a história.

Murilo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dia 5: Batalha campal entre Murilo e Verona

Oi mamma, (e agora) oi pappa

Quinto dia na Itália (19/02). Tudo bem, pessoal? Estou escrevendo de um hostel, em Venezia. Até que enfim cheguei à cidade depois de um dia exaustivo em Verona. Preciso tomar banho e comer alguma coisa para aproveitar o dia amanhã. Mas já faço isso, antes uma conversinha com vocês dois.

Dia inteiro de chuva em Verona. Catzo!

O dia amanheceu chuvoso. Foi assim que Verona me presenteou por eu ter ficado um dia todo por lá. Foi um verdadeiro duelo Murilo X Verona. Ela trouxe frio, eu coloquei luvas e me agasalhei. Então ela trouxe chuva, e eu busquei em um mercado uma guarda-chuva. "Catzo!", esbravejou Verona, e soprou o vento. Seria divertido ver as pessoas lutando para manter os guarda-chuvas abertos, no centro de Verona, debaixo da chuva. Seria divertido se eu não estivesse entre elas.

A arena de Verona deve ser mais bonita sem guarda-chuva

Mas bora lá, quem sai na chuva... Comprei o Verona Cart, por dez euros, que dá direito a várias atrações da cidade. Comecei pela arena, no centro da praça principal. Legal, mas se não estivesse chovendo seria melhor. E no no fim do ano tocará aquele monte de óperas lindas, ai ai...

Centrinho da cidade abandonado. Por que será?

Me molhei bastante e fiquei cada vez mais puto com a máquina fotográfica. Sei que vou me arrepender de não ter comprado uma nova (já me arrependo de não ter vendido um órgão para comprar outra máquina aí no Brasil). Então fui ao CastelVecchio, um castelo medieval na cidade. Bem bacaninha, com um museu medieval e muitas obras renascentistas. Aqui você respira história e ver mais quadros de mil quatrocentos e lá vai cacetada não chega a ser grande coisa. Mas as obras eram realmente lindas.

O bacana Rio Adige. Peguei, claro, minha porção de água

O melhor é a ponte do castelo, que cruza o Rio Adige. Lindo rio, com construções coloridas ao seu redor. Foi como se queimasse a língua em um caffe machiatto local: Verona é linda. Cruzei a ponte e cheguei a um bairro residencial, Veneto, bem bacana. Seria um lugar que eu moraria certamente. Fui ao bar Edige tomar um café, comer una broschetta. Estava quentinho, e o chocolate quente era tão denso que poderia comer a colheradas. Pude respirar e parar de xingar a câmera que não funciona e o maledetto tempo de Verona. Aquela chuvinha chata, igual a de Curitiba, que não chove, só molha.


Quando saí do bar, a chuva tinha ido embora. Bom andar sem o guarda-chuva. Dei mais um giro, desta vez em direção à casa da Julieta. Sim, Verona é a terra de Romeu e Julieta, a inspiração de Shakesperare para escrever seu mais célebre romance. Antes de chegar à casa, consegui pegar a água do rio Adige para minha coleção. Quase fiz uma burrada, ia pular uma cerquinha para chegar a uma escadinha, mas resolvi perguntar: "Scusa, per arrivare giú cosa bisogna fare?" O cara me disse que tinha uma outra descida, permitida, e que eu não precisava fazer bobagem. "Meglio domandare!", disse eu.

Veneto, bairro bacaninha. Mesmo após a chuva

Fui então à torre Lombarti (acho eh é este o nome), subi os mais de 350 degraus e tive uma bonita vista da cidade, com o grande Adige serpenteando por ela. Então fui ver Julieta, tínhamos marcado hora e fui até sua casa. Na frente da famosa varanda, onde Romeu declamava seus versos, vários guarda-chuvas se espalhavam e seres de olhos puxados se acotevalavam. Eram eles, os turistas asiáticos. Na Itália, tem saindo pelo ladrão. Mas nada da Julieta. Subi a escada, pisei na varanda, fui ao quarto e nada. Poderia ter deixado um aviso. "Arnesto nos convidou prum samba, ele mora no Braz..."

Varanda da Julieta sem a dita cuja. Não, aquela ali é só uma turista

Claro, que Julieta não existiu, mas a casa era de uma familia Capuletto, que existiu de verdade. Eles usam como referência, como se aquela fosse a inspiração shakespereana. E para fazer dinheiro. Tem de tudo que é presentinho remetendo a Romeu e Julieta, eu, scusa, não comprei nada!


Ponte de pedra. A melhor vista do belo Adige

Estava cansado de andar, mas fui até a ponte de pedra, entrei em uma igreja magnífica e pronto. Já tinha perdido o trem das 17h e estava para perder o das 18h. Se perdesse o das 19h, ficaria em Verona mais um dia. Comecei a me coçar. Dei um giro pelas ruelas de Verona, fabulosas. Bem cidade antiga mesmo. Quando fui ver, estava perto do trem das 19h e eu, Murilo, estava atrasado. Corri para o hotel pegar minha bagagem, faltava menos de 20 minutos para o trem sair e eu certamente não chegaria a pé. E nada de taxi. Na chuva, fiz a cara número 57 (a que eu uso em perigo, quando estou viajando) e perguntei para um senhor de feição simpática (devidamente pré-selecionado): "Non c’é taxi in Verona?" Ele disse que seria difícil. "Bisogno arrivare nella estacione alle 7". O cara fez o que eu previra: me deu uma carona para estação. Grande seu Sérgio, de Verona.

Até mais, Verona! Gostei da cidade. Moraria aqui

Na estação, corri para o fast ticket, uma máquina onde você compra os tickets. Pedi para o pessoal da fila se, por gentileza, podiam me dar passagem porque meu trem estava saindo. Eles me deixaram passar e ainda ajudaram na compra do ticket. Corri para o trem, mas o horário não era 19h justinho, era 19h18. Tinha tempo de arrumar as bagagens melhor e me alongar. Entrei no trem, fiquei ouvindo música do celular e cantando em portugues, tirei a bota para fazer massagem nos pés. E cá estou.

Desta vez fiz o booking (reserva) pela internet e cheguei rápido ao hostel. Nada de ficar batendo perna de graça. Vou agora tomar um banho e descansar. Amanhã o dia é cheio. Apesar da chuva e dos mil contratempos, Verona foi bem bacana. O que esperar de Venezia?

Recepção em Venezia: mais chuva. Aguardem a próxima carta

Amanhã eu conto.

Beijo paizão, beijo mãezinha, amanhã tem mais.

Murilo

terça-feira, 3 de abril de 2012

Dia 4: Palhaços na despedida de Milano

Ciao Mamma, come stai?

Quarto dia na Itália (18/02). Estou em Verona, em um hotelzinho furreca que me aceitou pela bagatela de 35 euros. Na verdade tem hostels mais baratos que isso e, se tivesse encontrado um CouchSurfing, pagaria nada. Não sei porque vim pra cá, a cidade não é lá essas coisas. Vá lá, nem tudo é um mar de flores.


Bem, levantei tarde hoje em Milano. Chegamos ontem de madrugada, mortos. O tram (aquele trem elétrico que anda no meio do trânsito) demorou para passar e eu estava dormindo em pé. Pegamos o tram e fomos para casa do Tommy, eu, o Tommy, o Mário e o Elio (que moram lá também) e outros amigos do pessoal. Nos espalhamos pela casa para dormir.

Na noite anterior, novos amigos e pouco sono

Foi engraçado, o pessoal é super gente boa. Ficavam me chamando de Mourinho, o técnico do Inter de Milão, e pedindo para eu escalar o time. O Tommy falando em português e sambando – é a resposta dele para nós que, sempre quando imitamos os italianos, mexemos as mãos e falamos “Ma che!”

Lembrar de Tommy e cia me faz pensar que viagem sozinho não é assim tão glamourosa. Se ontem estava no meio do pessoal, hoje estou num quartinho minúsculo de hotel, em Verona, ouvindo música no celular e com frio nos pés (vou ali colocar meias).

Aí, acordei tarde hoje. Estava realmente cansado e com dor nos pés. Preferi usar o meu tênis de montanha, porque os dois pequenos que eu trouxe são uma droga (maldita ideia de trazer o tênis de futebol de salão e deixar o de caminhada em casa, quase comprei um tênis aqui). Outra coisa que quase comprei foi uma máquina fotográfica nova. Já explico porquê.

Milano Clown Festival em meu último dia na cidade

Abracei o Tommy e seu amigo, Vanni, que estava por lá e que vai me receber em Firenze (finalmente encontrei um CS da cidade). Peguei minhas tralhas e fui à luta. Antes de pegar o trem para Verona, quis dar uma passada última na Piazza del Duomo. Fazia sol em Milano. No dia anterior chovera o tempo todo, como Curitiba, chuva chata. No dia em que eu saí fez o maior sol e ia começar um festival de palhaços na cidade. Estava bem agitada a Piazza del Duomo, pena eu não ter ficado na cidade. Queria fazer umas fotos legais do Duomo sob a luz do sol. Maldita máquina, só me deixou com raiva. Até que fiz uma ou outra, não do jeito que eu queria.

Manifestações populares com muito humor

Peguei o trem na estação. Por quatro euros de diferença, preferi a 2ª classe. Tudo bem, viagem normal. Aí cheguei a Verona. Quase cinco da tarde, coloquei minha mala em um looker (guarda-mala) e fui resolver meu problema de pouso. Achei que seria fácil ir ao centro, pegar uma internet, ver se a mulher do CS tinha respondido, se não, buscaria o endereço de um hostel e tchau e bença. Que nada, é impossível se conectar em internet em Verona. Nenhum restaurante tem wi-fi, e das lan house, uma estava fechada e outra o cara estava de má vontade e tinha uma fila enorme. Fui a uma terceira, depois de muito caminar e domandare (perguntar).


Achei o endereço do hostel, mas não o hostel. Acabei ficando neste hotel furreca, porque já estava cansado de andar. O senhor da portaria, beeeem senhor, é estranho: não sei se ele é mal-educado ou muito debochado. Fico com a segunda opção, ele me faz rir. Perguntou onde eu vou com minha mala enorme e sempre que eu faço uma pergunta ele fica me olhando com uma cara séria, como se a dúvida fosse estúpida. É, o cara e gente boa sim.

Portal de entrada: bem-vindo a Verona!

O pessoal daqui é um pouco raro. A mulher não pode te devolver o troco pura e simplesmente, ela tem que jogar as moedas na mesa e fazer cara de c*. O cara da loja de máquinas fotográficas foi o pior. Eu ia realmente comprar uma máquina de 179 euros (uma bem boa, da Panasonic), mas quando pedi para olhar a máquina ele disse que só na vitrine. Quando perguntei se poderia dividir no cartão de credito ele disse que era meio óbvio que, se a máquina viesse em uma parte, o dinheiro tinha que vir numa parte também.

Estou puto com as duas máquinas de fotografar. Uma, aquela piorzinha, fica travando. A outra, simplesmente não faz foto quando tem muita luz. Já perdi um monte de foto boa e se amanhã ela continuar assim, vou ter que engolir o manezão lá da loja.

O anfiteatro de Verona. Em agosto, muitas apresentações culturais

Enfim, depois de um dia corrido quase não vi a cidade direito. Tem um centro bacana, com um portal imenso e uma praça gigante. No meio dela, uma arena romana, como o Coliseu de Roma, só que menor. Amanhã dou uma olhada. Em agosto vai ter apresentações do nível de Aida, Turandot e Carmem, e eu não vou estar por aqui...

Primeiro dia em Verona e algumas más impressões

Bem, é isso. Comi uma pizza gigante (fui atendido por simpáticas muheres, vá-lha-me) e estou no quarto com os pés gelados (sinto que o aquecedor não vai bem). Tive que voltar à estação para pegar minha bagagem e recebi informações erradas quando estava indo. Com o mapa na mão e confuso, pedi ajuda a uma muher que acabou me trazendo até o hotel de carro. Tomei um banho de rei agora, bem quente. Ao menos isso. Estou tomando banho a cada dois dias aqui. Bem ao jeito europeu, eles tomam três vezes por semana, o Tommy me disse, mas não fedem não. Vamos ver onde vou estar amanhã, quero voltar ao banho diário. Agora estou vendo olimpíadas de inverno. Em italiano, claro. Embora, erre algumas vezes, até que tenho me virado bem no idioma (hoje ajudei uma menina de Trento, que encontrei na estação, a traduzir um texto do espanhol para o italiano).

Beijo mama, Vou daqui e vc daí. E a gente vai se falando.

Arrivederci e auguri,

Murilo

Outro e-mail: sobre o frio, não está tanto. Já peguei frios em Curitiba muito piores. Ainda não tive a sorte de ver nevar, só neve no chão. Não trouxe muuita roupa de frio, podeia trazer outras só para ter mais opções, mas com estas estou bem protegido.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dia 3: Atrasado para a Última Ceia

Oi mamma

Terceiro dia na Itália (17/02). Meus pés dóem, de verdade. É madrugada, o dia foi todo chuvoso e minha máquina está dando pau (estou pensando seriamente em ir a uma loja da Cannon comprar outra máquina). Estou cansado, bem cansado. Já são quase três da manhã e quero acordar cedo para ir a Verona. Mas estou satisfeito. Hoje o dia foi cheio. E começou com Da Vinci.

 Padre, paciente, espera a confissão.

Como sempre tive que correr. Fui o último a chegar à igreja Santa Maria delle Grazie, que pertence a um convento dominicano, e é famosa pelo afresco “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci. Belíssima. Emocionante ver esta imagem tão famosa em seu tamanho original, no alto de uma parede. O olhar de Pedro, o dedo levantado de Tomas, o rosto cândido de João...

Sendo proibido fazer fotos no interior da igreja, sobrou a fachada

A obra demorou três anos para ser concluída, fato raro na vida de Da Vinci se envolver tanto tempo com um único trabalho. Mas o interessante é que depois da obra terminada, os padres do convento acharam que deveria ser aberta uma porta, bem embaixo do afresco. Aí, teria que arrancar um pedaço da Última Ceia: justo os pés calçados de Jesus Cristo. Sem problemas. Agora, sempre que eu vejo reproduções del Cenacolo Vinciano reparo nos pés de Jesus.

[postado depois: Do outro lado da sala onde está o Cenacolo, tem uma obra de Giovanni Donato do Montofano, 1440-1502, que se chama "Crocifissione", e narra a crucificação de Jesus. Para visitar a igreja é preciso agendar com antecedência. Eu comprei o bilhete, a 8 euro, em http://www.vivaticket.it/, ainda no Brasil. A visita começa às 9h30 e é preciso estar uma hora antes]. Continua a carta...

No Castello Sforzesco, construções e curiosidades

Mas te falei que meus pés estão doendo. Então, caminhei até o Castello Sforzesco, onde passei o dia todo. De museu em museu, andando sempre. Bem interessante, museu do castelo, do Egito, de arte decorativa, da música, entre outros. O dia estava chato, chuvoso. Eu com frio e dor nos pés. Saí do castelo e fui a um restaurante ali perto comer um pennette alla matriciana e um caffe macchiato. Aí fui até a loja Declathon, um paraíso esportista (o pai e o Paulinho iam ficar loucos, tem tudo que precisa para esporte e bem barato). Queria comprar um tênis, porque não trouxe calçado bom para caminhar. Por isso estou com os pés ferrados. Acabei não comprando.

San Siro. Fiquei de fora

Comi uma pasta com vinho. Bem bom. E caminhei ainda mais. Chuva chata o dia todo e a máquina boicotando minhas melhores fotos. Ainda fui ao estádio San Siro, mas não pude entrar. Estava fechado. Falei que sou brasileiro, que queria dar apenas uma espiada. Não deixaram.

Na estação do Duomo, ponto de encontro em Milano

Chovia quando voltei à estação do Duomo e fiquei esperando Tommy e sua trupe. Gente boa o pessoal. Em Firenze, vou ficar na casa de um deles. Fomos a uma cantina tomar vinho, a Cantina Isola. Muito legal, bem decorada, com as prateleiras forradas de vinhos. Você escolhe uma garrafa, pega uma mesa de frios e fica ali papeando.

Para um apreciador de vinhos, isso aqui é paraíso. Meus amigos Tommy fazendo caras, o Alberto, que ficava me chamando de Mourinho, e Vanny, que gosta da sonoridade de "xoxota"

Depois fomos a outro bar. Fiquei conversando com uma menina de Napoli e com outro cara que brincava com meu nome: o pessoal fica me chamando de Mourinho, o técnico do Inter de Milão. O italiano sai capenga, mas já consigo conversar.

No segundo bar, novos amigos e mais italiano. Mário, Marcão, Tommy e o irlandês Roberto.

E agora estou aqui. O pessoal está arrumando as camas e eu estou buscando um hostel em Verona. Difícil encontrar CouchSurfing lá. Bem, vou reservar um quarto e dormir.

Beijo mamma, beijo em todo mundo. Continue acompanhando o diário.

Murilo

sábado, 31 de março de 2012

Dia 2: Monumentos no pós-morte

Oi mamma

Segundo dia na Itália (16/02). Dia para bater perna. Peguei o trem urbano, o “tram” (ele é elétrico e se mistura no meio dos carros, bem louco) e fui até o Cimitero Monumentale. Muito grande, tem uns túmulos do tamanho de igrejas, esculturas enormes, muito interessante. Deixa o cemitério da Ricoleta, de Buenos Aires, no chinelo. Aí fui ao centro. Vi o lindo Duomo e a Galleria Vittorio de novo, e fui até o Palácio Reale onde tem exposições. Não vi nada.


 Cimitero Monumentale: obras de arte no pós-morte

A Piazza del Duomo estava apinhada. Vai ter jogo Milan X Manchester hoje. Puts, não vou. Cheio de inglês gritando a música do time e bebendo cerveja. Aí fui ao Teatro Scala. Hoje tem encenação do Dom Quixote, um balé. Também não vou ver. Estou querendo ir à Gênova só para ver uma apresentação de Nabuco, do Verdi. Este sim valeria a pena. Mas o teatro é bem bonito, tem um museu também com a histórias de óperas lindas e que um dia vou ver, como Turandot, La Traviata, Carmen, La Boheme, Ottelo, entre outras.


 Na Piazza, próximo à Galleria

Fui ainda à Pinacoteca, só para dar um giro. Mas tinha andado demais, meus pés doíam. Antes, almocei pizza. Uma pizza enorme de margherita só para mim, com vinho e uma sobremesa. Bem bom. Quando saí do cemitério, passei em uma rua de chineses, tomei café em um bar de brasileiros e comprei um cachecol. Estava bem frio.


Na Itália, não existe o conceito "pizza em pedaço"

Aqui na casa do Tommy tem aquecedor e está bem quentinho. Ontem, quando deitei na cama, cheguei a ficar comovido com o conforto (não tinha dormido no dia anterior à viagem e depois só dormi no voo da Iberia - péssimo). O pessoal é muito receptivo, eles não estão aqui agora, mas o Tommy mandou uma mensagem dizendo que está para chegar. Estou com os pés esticados, para relaxar. Eles merecem.

Piazza del Duomo apinhada

Amanhã vou ver a "Última Ceia". Numa dessas, vou já amanhã para Verona. Mas vamos ver, os amigos do Tommy estão arrumando um futebol e talvez eu fique um dia mais só para não fazer desfeita.

Beijão mama, Milano é bem bonita (e olha que tinham me falado mal da cidade).

Dá um beijo no povo.

Murilo

sexta-feira, 30 de março de 2012

Dia 1: Na casa de Tommy

Oi mamma, tudo bem? Pela primeira vez, este "mamma" tem razão de ser. É o meu primeiro dia na Itália (dia 15/02). Estou em Milano, numa noite fria, entre vários amigos. Estou na casa de Tommy, Élio e Mário, três estudantes muito gente boa aqui de Milano. Eles acabaram de preparar uma bela cena, com direito a um delicioso vinho. Está meio frio e os caras deixaram o vinho na sacada para dar uma esfriada. Tudo muito bom para um dia cansado. Te conto por quê.

O voo de Foz a São Paulo deu uma atrasada. De São Paulo a Madri atrasou bastante também. O voo não foi dos melhores, nem se compara com a KLM que faz conexão em Amsterdam. Tinha muito criança e a gente pode definir a qualidade do voo pela quantidade de miudos que está nele. Mas vá lá, conheci a Cristina e a Camila, que me deram outras boas sugestões da Itália.


No início da viagem, Itália era só passagem. Depois resolvi explorar um pouco mais, chegando a Milano e descendo ao Sul do país. Agora quero conhecer também o Norte. Acrescentei Verona e Venezia. Vou ficar menos tempo na Grécia.

Frio no interior do Duomo e quadros belíssimos expostos

Aqui, está ótimo. Passei um pouco de frio a tarde e tive que carregar todas as malas o dia todo. Mas valeu a pena. Conheci o Duomo, uma igreja enorme e linda. Lindíssima. Depois subi a torre do Duomo. Quando o guarda me viu com as duas malas gigantescas perguntou: "Sicuro?". Cheguei bufando lá em cima, com as pernas bambas. Depois dei umas bandas. Andei um monte até me encontrar com Tommy e sua turma, na estação de metrô, no alto de uma curiosa escada musical.

Il Duomo di Milano no primeiro dia na Itália

O cara representa o que há de melhor do espírito CouchSurfing. Como viajante, ele sabe o que viajantes precisam. Foi muito atencioso, apresentou os amigos e cedeu o quarto e a cama para eu dormir. Passei toda a janta ouvindo esta italianada falando bem rápido (até que entendi alguma coisa). Estou falando em italiano com eles, quando não entendo algo, pergunto em espanhol. O Tommy insiste em conversar comigo em espanhol, o que dificulta o aprendizado. Conversamos bastante sobre as diferentes regiões da Itália, seus distintos acentos e costumes, e eles me deram mais dicas de lugares para conhecer. Vou ter que rifar a Grécia.

Cena italiana entre amigos: Clara e Cammy na casa de Tommy, Élio e Mário

Amanhã já tô com o roteiro montado. Os lugares que valem a pena conhecer em Milano. Depois de amanhã, vou ver "A Última Ceia", de Da Vinci. Aí quero ir para Verona ou Venezia. Estava meio preocupado hoje a terde, carregando as malas pesadas de lá pra cá, sem lenço, nem documento. Mas com a recepcão tão calorosa desses amigos italianos, me senti de volta em casa. Isso é bom, um aprendizado para saber o bem que fazemos ao receber as pessoas em casa.

Bem, vou indo dormir. Agora já passa de uma da manhã por aqui. Amanhã tem coisa para fazer.

Beijo pra vc e pro pessoal.

Arrivederci,

Murilo

quinta-feira, 29 de março de 2012

Novo especial: Cartas da Itália

Em fevereiro e março de 2010, fiz uma viagem de 35 dias entre Itália, Atenas, na Grécia, e três cidades no Egito. Desde o primeiro dia, escrevi regularmente, primeiro para minha mãe, a mamma, e depois para o pai. Acabou virando metódico – todo o dia eu escrevia uma espécie de diário para estes leitores seletos: meus pais.

Depois que acabei de escrever o especial sobre a viagem nos Andes, fui dar uma olhada nas outras viagens. Lembrei-me dos e-mails e resgatei, em minha caixa de enviados, todos eles. De início, queria pegar as informações e reescrever aqui no blog. Mudei de ideia. Os textos estão cheio de sentimentos e têm o calor do momento que foram escritos. Seria um desperdício editá-los. Vou publicá-los na íntegra, em forma de “cartas”. Sem cortes.

Nasce assim, o terceiro especial deste blog: “Cartas da Itália”, assim chamado porque foi neste país que passei a maior parte daquelas férias. Embora impreciso, permito-me esta licença poética.

O que quero destacar nestes próximos 35 textos é um pouco do espírito CouchSurfing, esta comunidade de viajantes em que pessoas recebem gente estranha em casa sem pedir nada em troca. Tive muita sorte com os CS durante a viagem. Tanto aqueles que me receberam em suas casa até os outros que apenas passaram algumas horas comigo.

A viagem foi bastante solitária. Bem diferente do especial dos Andes, em que conheci um monte de gente. Mas foi também a viagem do CouchSurfing. Sem este pessoal, não teria feito metade das coisas que fiz. E talvez não teria o que colocar neste blog.

Sem mais delongas, seguem os textos, sempre usando os meus pais como interlocutores (não estranhem). Cada dia estará sinalizado no começo do post, mantendo o esquema original. E, de forma diferente que foi nos outros especiais, “Cartas da Itália” não vai impedir que eu escreva sobre outras viagens. Para ler todos textos um atrás do outro, basta clicar na aba ali em cima.

Aos queridos leitores: “Cartas da Itália”.

terça-feira, 27 de março de 2012

Vida de aeroporto

As poltronas do aeroporto Jorge Chávez, de Lima, não são tão confortáveis quanto as do Cumbica, em Guarulhos. Sei lá, nada ergonométricas, pouco cômodas para uma noite de sono. Não era a primeira vez que eu viraria a noite dormindo em aeroporto e, regra da vida, não será a última. Mas as doze horas que passei no aeroporto de Lima tinham um quesito especial: desta vez, a culpa não foi minha.


Cadeiras ajeitadas e minha última viagem adiada

Vocês já devem ter lido aí pelo blog quando um cochilo instantâneo me fez perder o vôo para Foz do Iguaçu [relembre]. Também lerão mais pra frente sobre as 24 horas que passei no aeroporto de Madri. Em Lima, aculpa foi de um problema de comunicação. Conto pra vocês.

Durante meus mais de 20 dias pela América do Sul, pude treinar bem o portunhol. E o idioma estava afinadíssimo quando discuti com a atendente da LAN, empresa aérea chilena onipresente no subcontinente. Na época, ela fazia parceria com a TAM para vôos ao Brasil (hoje, as duas se fundiram).


Manhã no aeroporto. Bora? Deu?

Quando apresentei minha reserva de passagem, a mulher começou a dedilhar o computador. Como isso me irrita. Ela olhava na tela, caminhava para um lado, conversava com colegas, digitava de novo, fazia cara feia. Na hora, peguei o gravador e salvei a mensagem:

“A mulher não para de bater naquele negócio; está começando a me dar nos nervos. Estou começando a achar isso meio complicado. Vou esperar”.


Puto, mas, vá lá, bora tentar aproveitar o aeroporto

Dito e feito. A LAN conseguia ver a minha reserva, mas não conseguia liberar a passagem. Liguei para a TAM no Brasil, gastei meus últimos soles em telefonemas. Não adiantou.Perdera o voo e só viajaria no outro dia. Tive que passar a noite no aeroporto.

Terminal

É interessante a vida no aeroporto. Quando escrever sobre minha viagem à Itália, falo sobre as 24 horas no Barajas, de Madri. A diferença é que o de Lima é muito chato. Perde até para a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Dei um giro rápido e me demorei procurando um lugar para esticar as pernas.


Seis por meia dúzia. A última mordida peruana

Gastei meus últimos soles com uma simbólica mordida final da lhama peruana. Depois de tudo que gastei com câmbio, com o Western Union, comprando reais, virar dólar, depois real, depois peso chileno, bolivianos, soles, ainda tive que pagar uma obscura taxa de aeroporto de 30 dólares. Não tinha dinheiro nenhum, mas, lembram-se daqueles 800 reais com os quais comecei a viagem? Sobraram R$ 100. Passei por mais um câmbio absurdo e deixei meus últimos trocados.

Queria chegar logo ao Brasil.

Depois de uma noite mal dormida, passei mais uma tarde em Guarulhos. Em solo nacional, pude abusar do cartão de débito. No fim da noite, peguei o bom e velho voo das 23h45, aquele dos tempos de Campinas. Chegaria de madrugada em Foz do Iguaçu para trabalhar no outro dia. Faz mal não, tudo valeu a pena.

Fim de viagem.

domingo, 25 de março de 2012

Lima caótica

Em meu último dia de viagem (ao menos eu imaginava ser o último), fui à Punta Hermosa conhecer alguma praia bacaninha. Uma hora e meia de ônibus e barulho. Muito barulho.

Playa Blanca, areia negra

Em Punta, cheguei à Playa Blanca. O nome é estranho dada a cor negra da areia. Deve ser pela neblina que teimava em estragar as paisagens de Lima. Caminhei pela areia, molhei os pés, entrei onde não devia.

Romance no centro de Lima

Almocei ceviche e tomei uma Polar antes de voltar ao centro de Lima. De ônibus novamente, passei por bairros feios, com lixo e ferragens – parece aqueles filmes futuristas de um mundo caótico e abandonado.

Casinhas coloridas

O centro, aliás, é todo caótico. Eu estava farto do barulho das máquinas. Parecia que a cidade toda estava em obras. Passei por uma livraria, conversei com o livreiro; andei por uma feira – no som, flautas de bambu tocavam o tema de Titanic. No Brasil, peruanos flautistas tocando música brega é bastante comum... meu tio Ademir que o diga.


Forever alone

Na Plaza de Armas (toda cidade peruana tem a sua), vi o palácio do governo. Era fim de tarde, o sol deixava ainda mais amareladas as construções antigas. Dei mais algumas bandas, me arrependi de não ter pego a água do rio Rímac para a coleção, e voltei ao hostel.

Fim de tarde. Fim de viagem

Fui de táxi até o aeroporto, conversando sobre o fim da viagem. Viajar é ótimo, mas voltar para a casa é melhor ainda. Sentia saudades do Brasil, do idioma, do feijão e dos meus parentes e amigos.

Mais adiaria por mais algumas horas o reencontro.