domingo, 15 de março de 2009

Perdido em Praga

Virei a esquerda e me deparei com outra ruela, mais a frente outra e mais outra. Um labirinto de ruas, construções antigas e chão de pedras. Estava perdido em Praga. Lindo. Se tem algo que posso recomendar ao visitante da capital checa é isso: se perca! Muito divertido andar sem destino por aquelas ruas acolhedoras.

Opções culturais de Praga. Na cidade, a regra é andar

Parecia que Praga desconfiara de minha despedida da Europa, tão calorosa fora sua recepção. A despeito do tempo fechado pela manhã, os checos não estavam. Adorei a cidade, ao lado de Estocolmo a mais bonita da viagem. E conheci algumas coisas bacanas nos dois dias que fiquei por lá.


Nas andanças encontramos coisas interessantes como as milhares de opções de marionetes

Andar sem rumo por Praga é ótimo, mas há roteiros obrigatórios, claro. Um deles, a praça velha do centro onde se concentram os turistas com sua diversidade linguística. É ótimo falar português e sair pela rua tagarelando sem que ninguém entenda. Na praça tem o relógio astronômico todo bonito e jeitoso, mas indecifrável para um turista pouco empenhado como eu. Tem também a catedral de Tyn, que, estranha, fica atrás de uma construção mais recente.

Portal para a Ponte Carlos. Espaço para comércio, turismo e contemplação

Relógio astronônico de dia e de noite

Outra parada mais óbvia é a Ponte Carlos, ou Charles Bridge, ou o mesmo nome em checo. Lindíssima, toda ornamentada com estátuas e repleta de turistas e muito comércio. A noite, há também mendigos com seu plano de marketing perfeito: de joelhos diante de um chapéu, eles ficam em posição de oração e assim permanecem imóveis. Comovente!

A Ponte Carlos a noite e de dia. Abaixo, o marketing dos mendigos locais: oração


Do outro lado do Rio Vitava, Praga mantém sua formosura. As construções, os jardins, as praças e o ótimo Museu Franz Kafka com um curioso chafariz na entrada e muita história do cidadão ilustre.

Museu Franz Kafka com uma ousada fonte

Mas o legal é andar pela cidade, não como Josef K., de O Processo, buscando por justiça. Tem que desbaratinar mesmo para encontrar as várias lojinhas com seus artesanatos espalhadas pelas ruelas. Típico. Além das matrioshkas russas, há centenas de marionetes de todos os formatos e preços. Alguns são verdadeiras obras de arte.

Simbolismo óbvio. Na nova Praga, ojeriza pelo comunismo

Assim meio an passant, também tem o Museu do Comunismo, localizado acima do McDonald's (ótimo!). Mostra bem a ojeriza da atual Praga, assim como Budapeste, pelos tempos fechados da Cortina de Ferro. O museu é ótimo, cheio de informações sobre este período da história da República Checa.

Símbolos dos tempos de Cortina de Ferro

Não me cansei de ver castelos em Viena, nem cidade medieval de Budapeste. Em Praga, no segundo dia, era a vez de conhecer o imponente castelo. Uma verdadeira cidade emparedada, com jardins, igrejas e construções fantásticas. Andar o dia todo pelas ruas do castelo foi um ótimo desfecho para uma viagem que se encaminhava para o fim.

Igreja no castelo. Mais fotos no orkut, ehhee
Cores do vitral na igreja

Senhoras em uma praça em Praga, tentativa frustrada de contato

Mas havia tempo para assistir a uma apresentação no teatro Lanterna Magika, um conceito muito interessante de teatro. Os atores contracenam com cenários e outros atores projetados em uma cortina – personagens vem e vão pelo vídeo. Muito bom.

Na Lanterna Magika, o real e o virtual se misturam

Música clássica em Praga, Mozart e Strauss no teatro. E cerveja Pilsner

E como a regra em Praga, aliás em toda Europa (mais aliás, em toda viagem), é andar, me despedi de toda essa aventura com uma boa caminhada noturna. Rumei para o hostel. No outro dia cedinho pegaria o voo de volta para o Brasil.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Patriotismo em viagem sinistra

Depois do sistema de som da estação ferroviária de Budapeste, no último dia, e do metrô, no primeiro, a coisa mais estranha que me aconteceu foi a viagem da Hungria para República Tcheca. Estava cansado, vencido pelas horas de espera. Derrotado. Precisava de uma noite de sono para sobreviver ao próximo dia.

Estação ferroviária de Budapeste, momentos finais na cidade

Dividiria a cabine do trem com um casal de húngaros cheio de afagos. Dei uma olhada em volta e encontrei outra cabine vazia. Foi ali que me instalei. Luz apagada e corpo idem, caí no sono. Entrei em um estado de entorpecimento que me levam a duvidar se as coisas que aconteceram foram reais ou fruto da minha imaginação.

Escadas de Budapeste, a chegada foi tão bizarra quanto à saída

Calma, não foi nada demais. Lembro de um senhor barbudo, com uma bengala feita de galho de árvore. Ele entrou e conversou comigo em seu idioma próprio. Eu, meio dormindo meio acordado, respondia sem muito interesse. Ele se posicionou próximo à janela e fez um lanche.

No meio do caminho uma única foto: Bratislava, na Eslováquia.

Lembro de ser acordado com a bengala caindo forte em minha cabeça. Curva do trem, não agressividade do velho. Voltei a fechar os olhos, acordei, dormi de novo. Quando tornei a acordar o velho não estava mais na cabine.

Fazia frio, e num ato de puro patriotismo me enrolei na bandeira do Brasil. Foi assim que terminei uma curta e estranha viagem. O dia, embora chuvoso, já iluminava as vistas. Chegara na República Checa. Praga, minha última cidade na Europa.

Alemão vestindo Brasil em Praga. Enfim, a última parada

E se os leitores deste blog (os três: eu, meu sôfrego eu e meu ego) tiverem fôlego, e paciência, termino essa história nos próximos posts. Aguardem.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O martírio húngaro

O sistema de som tagarelava em idioma terrível. E eu estava puto. Isso é comum para um cara ansioso, impaciente e chato como eu, mas aquele dia estava particularmente puto. Era quase fim da viagem, meu último dia na capital Budapeste – o pior dia em toda Europa (tão ruim quanto à frustração de minha perda de bagagem). Conto para vocês.

Vidraça na estação de trem, símbolo do martíria húngaro

Ainda no terminal de trem, no dia do martírio húngaro, escrevi (mas não publiquei): “De antemão aviso, escrevo este post na estação ferroviária de Budapeste, estou aqui já há quase quatro horas e parece que vou ficar mais...” Não terminei o texto por falta de paciência, mas tento buscar na memória alguns lances deste dia.

Logo cedo saí para mais uma caminhada em Budapeste, nenhum roteiro específico, talvez um museu ou uma praça. Nada de especial. Mas tive que ir e vir para lá e para cá para comprar a passagem de trem rumo à próxima parada. Fiz uma coisa que não se deve fazer em metrôs europeus: não comprar o ticket.

Budapeste, último dia. Perdido

Foi uma única vez, uma só. Em todas as outras comprei o ticket direitinho, embora nunca ninguém tivesse me exigido nada. No dia em que não comprei, fruto da pressa, da correria e da safadeza, me dei mal. Ao sair do metrô uma mulher me parou exigindo o ticket. Banquei o cínico.

Mas depois de espernear, choramingar e reclamar, não teve jeito. Morri com 20 euros de multa. É mais um exemplo, as multas já estão relacionadas no best seller “Método fácil de se perder dinheiro”. É uma boa leitura, recomendo.

Estação de trem e sons incompresíveis latidos no sistema de som

Saí do metrô chutando pedras e placas. Estava puto. Andei impaciente por Budapeste até a estação ferroviária onde perdi algumas boas horas para comprar minha passagem.

Museu do Terror. Apropriado para o dia do martírio

Ainda impaciente, mas já respirando sem dificuldade, conheci o Museu do Terror, a única coisa que salvou o segundo dia em Budapeste. Na verdade o museu é excelente. Fala do período do massare promovido pelo partido nazista húngaro no fim da Segunda Guerra, a primeira fase do terror, e depois sobre o comunismo que tomou conta do país. O segundo terror. Vale muito a pena!

Praça sem sentido pra mim. Preguiça de buscar no wikipedia

De lá, caminhei até uma praça dos heróis. Um monte de estátuas e bustos de gente desconhecida. Bonita, turística, mas sem sentido. Ao menos para mim. Vá, deveria pesquisar e me comportar como um turista decente. Mas não estava com saco pra isso.

Espera, atraso, demora. Sou bom nisso

Assim como as palavras que eram vomitadas pelo sistema de som da estação ferroviária – não entendia nada. Quatro horas sentado, esperando. Trem atrasado, mundaréu de gente e aquela voz bizarra. Comi uma pizza gigante e fiquei esperando, abraçado em minha bagagem.

Adeus Budapeste. Até um outro dia (ou não)

E quando o trem enfim se afastava da cidade, olhei para trás com aquela má impressão do segundo dia em Budapeste. Injustiça, Budapeste é linda. Mas ainda volto lá, nem que seja para coletar de novo a água do Rio Danúbio. Mais a frente vocês entenderão porque.

Sob o céu escaldante de Budapeste

Foi uma Budapeste ardente que encontrei em meu primeiro dia na capital húngara. Havia chegado tarde no dia anterior, mas a tempo de encontrar um hostel barato (leia “Sob a brisa do Danúbio”, de julho de 2008, o último post que escrevi direto da Europa). Mas ao nascer do dia, minha intenção era explorar a cidade e cruzar algumas vezes o belo Rio Danúbio.

Regata para fazer marra. Espere o fim pelo dia...

Ao fim de dois dias, quando estava indo embora de Budapeste, escreveria: “Ainda guardo nas costas a marca da aventura. Manja aquele queimado ridículo da marca da regata? Estou assim. Saí cedinho de hostel para caminhar e coloquei a camisa da seleção brasileira de vôlei, só para fazer marra. Deu no que deu. No meio do caminho tive que comprar uma camiseta dessas turísticas para proteger as costas, corria o risco de ensolação.”

Entrada da Cidadela: forte húngaro.

“Fora o pimentão do rosto e costas”, continuei em meu relato in loco, “Budapeste foi ótima em seu primeiro dia. Andei, corri de bicicleta, joguei bola, só faltou atravessar o Danúbio a nado para me candidatar às olimpíadas.”


Canhões, tortura, nazismo e comunismo: esses túneis guardam história.

De fato, Budapeste foi show de bola. A cidade é muito bonita, separada em Buda e Peste pelo Danúbio. Conheci a Cidadela, um local onde os húngaros montaram um forte de resistência na 2ª Guerra Mundial – encravado em uma montanha, o buncker é repleto de túneis. Bem cenário de games de guerra, como o ótimo Medal of Honor. Interessante.

Budapeste nas pernas

Buda e Peste separados pelo Danúbio.

Caminhar sempre foi meu forte (vocês verão bem isso no próximo especial) e em Budapeste aproveitei essa vantagem. Venci a cidade nas pernas. Foi caminhando que cheguei ao Royal Palace, sempre na margem Buda do Danúbio – Peste eu veria no outro dia. Neste dia andei feito um camelo. Ou seja, taquei um beduíno em cima das costas, tomei vinte litros de água e sai num bater de cascos pelas ruas de Budapeste.

Aos fundos do Royal Palace, uma estátua bem húngara.

Colorido na cidade emparedada.

Janela da igreja abusa de círculos nada concêntricos

Igreja colorida e estátuas. Budapeste está cheia disso

Minhas costas ardiam enquanto eu andava por aquela cidade entre paredes. Tive que me cobrir com uma camiseta turística para não sofrer de ensolação. A cidade é muito bacana, com construções coloridas, ruas labirínticas e chão coberto de pedras. Uma belíssima vista do parlamento húngaro, do outro lado do Danúbio.

Danúbio e o parlamento, mais ao fundo o Royal Palace

De lá, ainda pé ante pé, cheguei a uma ilha no meio do Danúbio, usada para recreação de budapestinos e visitantes. Um verdadeiro parque, com direito a chafariz e seu balé da águas, grandes bosques, ciclovias, e repleto de pessoas comendo lanche, tomando cerveja Soproni e caminhando.

Dança das águas num chafariz. Para refrescar a cuca e relaxar

Praticantes de Le parkour. O franceses é por minha conta

Aluguei uma bicicleta para conhecer o parque. Bonitas paisagens, franceses praticando Le parkour, senhoras sentadas em cadeiras e casais sob árvores. Encontrei um grupo de iraquianos e húngaros jogando futebol e me integrei ao time dos asiáticos. Não fiz feio: com um gol de cabeça, fechei a fatura do jogo. Quando disse que era brasileiro, o pessoal tremeu nas bases, hehehe.

"Eu não aguento eu não aguento / estou diante do Parlamento. É de noite é de dia / no Parlamento da Hungria"

O fim do ótimo dia, que infelizmente não posso detalhar por não me lembrar de tais detalhes, chegara ao fim. Foi caminhando, sempre caminhando, que atravessei mais uma vez o Danúbio e conheci o belíssimo parlamento húngaro.

Royal Palace, enfim de frente

E foi caminhando que cheguei morto de cansado ao hostel, bem longe dali. Diante do espelho conferi o estrago nas costas e me preparei para o segundo dia em Budapeste que tinha tudo para ser perfeito.

Fim de dia e um vermelhidão já realçado em braços, ombros e pescoço

Mas não foi bem assim.

Adeus Juttel!

Vivi com meu amigo e irmão Luiz Paulo Juttel por quase um ano em Campinas. Dividíamos a mesma kitinete, fazíamos juntos o curso de inglês, o Labjor e tudo mais. Tinha hora que não podia ver a cara do catarina, mas ele é gente boa. Como o quase ano de 2007, durante o tour pela Europa fizemos uma programação casada. Mas assim como acabou nossa vida rachando apê, a aventura da dupla pela Europa também chegara ao fim.

Viena: cenário de despedidas

O cenário para despedida não poderia ser melhor: Viena. Depois de embrenharmos entre alemães e espanhóis e bebermos juntos a vitória destes últimos, depois de compartilharmos o chão público da Westbanhof, era hora de conhecermos o que a capital austríaca tinha de realmente bonito. E opções não faltam.

Alexander Dom, imponente e belíssima

A primeira coisa a se fazer, no entanto, foi encontrar um hotel de verdade. Nada de terminal público. Coisa digna! Em respeito às nossas costas, buscamos o acalento de um IBIS. Por lá vimos coisas bizarras como um grupo de mulheres fazendo uma espécie de treinamento-dança-marcha sei-lá-o-que na recepção. E de lá, enfim, fomos conhecer o mundo preservado na redona de vidro da capital austríaca.

No interior escuro e gótico. Alexander Dom impressiona

Viena, redundante dizer, é linda. E parte dessa beleza está espelhada na imponente Alexander Dom, a catedral no centro da Alexander Platz. Belíssima, escura e gótica, parada obrigatória para os turistas na cidade. O centro de Viena, aliás, é bastante cultural. Uma caminhada e você dá de encontro com uma asiática dedilhando um piano. Rapsódia Húngara, lindo. Um pouco mais e encontramos pessoas se apresentando na rua e jornaleiros com exemplares do Kronen Zeirung debaixo do braço. Quase uma Boca Maldita, no coração de Curitiba, mas com ares europeus.

Música e cultura na Alexander Platz, a Boca Maldita com sotaque austríaco.

Conhecemos os gigantescos jardins do Palácio de Schönbrunn e arriscamos o mesmo roteiro do dia anterior. Castelos, palácios e praças colossais, mas sem o colorido da final de campeonato. O amarelo de fim de tarde anunciava o tardar da hora, mas ainda dava tempo de passar no bacaninha museu Albertina, com algumas exposições modernas de Paul Kee, as figuras de Oscar Kokoschka e clássicos belíssimos de Monet a Picasso. Show. Ali pertinho, era hora de dizer adeus.

Palácio de Schönbrunn: jardins e labirintos

Castelos gêmeos, um diante do outro. Passeio por Viena sem o auê da final de campeonato

No Albertina: Paul Kee, Oscar Kokoschka, Monet e Picasso

E para quem passou por toda Europa (uma parte dela, vá lá) provando as cervejas aqui e ali, nada melhor à dupla dinâmica brindar a separação com cevada. Em Viena, Ottakringer, uma cerveja de estudantes. Bem boa.

Um brinde a Juttel! Ottakringer, cerveja de estudantes. Veja aqui

Juttel estava apressado, e meio perdidão (assim como eu). Meio litro de Ottakringer não é para iniciantes. Meio cambaleando ele correu para sua condução e eu fui dar mais uma volta pela cidade. A despedida foi meio assim, também na correria – abraço apertado e até logo. “Nos vemos em Praga”, disse ele.


Mas eu não o veria mais, nem na Europa nem no Brasil. Tinha outros planos para meu fim de viagem...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Respiro: em Foz do Iguaçu, vá a Puerto Iguazu

E pela ponte sobre o grande rio eu caminhava chutando pedrinhas. Oi pessoal, como estão? Meio sem noção um respiro no blog parado como está, mas eu precisei fazer. Antes de terminar o especial Europa e preparar o próximo especial, vale uma parada. Coisa rápida. Logo ali em Puerto Iguazu.

Fui pra lá justamente para comprar a passagem para a próxima viagem, que vai alimentar esse blog quando as histórias na Europa acabarem. Mas uma coisa de cada vez, terminando um, falo do outro.

E justo, fui pra Puerto comprar a passagem. No caminho encontrei um alemão, coisa branca, gente boa. Fiquei batendo papo com o moleque que a princípio achei ser da Armênia. Culpa das tentativas de português dele.

Na alfândega brasileira, o gringo precisou carimbar seu passaporte europeu. Eu não precisava descer do ônibus, mas o fiz, só pra ficar fazendo sala pro cara. Foi meu primeiro erro.

Perdemos cerca de 1h e 17 minutos até o outro ônibus chegar. Eu com medo de não conseguir comprar a passagem. Mas deu certo. Passamos pela alfândega argentina, todo mundo desceu para pegar o visto de entrada e eu disse: “não preciso”.

Eis meu segundo erro.

Ir ali e voltar, pra que visto de entrada no país? Bobagem. Seguimos de ônibus até a rodoviária e beleza, consegui comprar a passagem. Fiquei feliz pela ideia de comprar pesos ao invés de comprar a passagem em reais. Economizei uns 40 reais só na diferença de câmbio. Comprei ainda uma blusa, tomei uma Quilmes, matei lanche e alfajor, peguei uma água e bora de volta.

Não tinha mais ônibus, vamos desacotovelar os joelhos e andar. Com a garrafinha de água na mão dei mais um giro. Vi um cara cantando tango e pensei em parar pra tomar uma cerveja. Aí conclui que seria a coisa mais depressiva do mundo sentar, tomar uma cerveja sozinho, ouvindo um cara cantando tango.

Em outro restaurante, dois caras com músicas instrumentais. Muito bons. Mas era hora de andar. Caminhei do centro de Purto Iguazu até a alfândega argentina. Andando cheio de marra com minha garrafinha, enchi de água na alfândega com uns carinhas gente boa. Estava atravessando pro lado de cá quando... Opa!

Fosse brasileiro, o cara fardado perguntaria “O amigão, onde vc pensa que vai?” Achei que era meio óbvio, mas respondi que para o Brasil. Ele perguntou de meu visto de entrada e eu comecei a me fazer de desentendido.

Vocês não têm ideia como eu consigo ser cínico quando quero.

Fui até um gordo gago que disse que eu tinha que ter um papelzinho. Investi na ideia de que não sabia de papelzinho nenhum. E o cara me ofereceu uma multa. De início, recusei.

Já disse uma vez que sou rei em criar dificuldades, um sobrevivente aos obstáculos criados por mim mesmo. Também já escrevi aqui, lá nos idos tempos de viagens para Campinhas, os métodos fáceis de se perder dinheiro. Pois aí vai mais um:

“Faça de tudo para pagar multas, muitas multas”.

Fiquei de cara e resolvi chiar. Mas aí o militar ameaçou encrespar. Deu-me um um empurrão e eu pensei “xiii, argentino, sei não”. E outra, vou viajar no sábado a partir de Puerto Iguazu, tudo o que eu menos preciso é conseguir encrenca com a alfândega.

Tá, eu pago, mas os caras só aceitam em peso e eu tinha deixado as últimas notas naquela blusa invocada. Teve um que sugeriu que eu voltasse ao centro de Puerto Iguazu para trocar o dinheiro se fosse necessário. Só provocação, mas fiz nada disso. Fui até o outro lado e fiquei papeando com uma guardinha gente boa, que me levou a uma lojinha e me apresentou a uma vendedora de cara inocente.

- Você me vende pesos?, perguntei.
- Não posso, só se vc comprar coisas em reais; te dou o troco em peso.
- Tá, então eu te dou quarenta reais e compro um bombom, tudo bem?

Ela me olhou com cara sem-graça.

- Diz aí, quanto tá a SUA cotação?, perguntei, já me preparando para a facada.
- O peso tá 0,80, disse. Em tempo: a cotação no câmbio era de 0,65.
- Tá, então me vende 50 pesos, respondi entregando quarenta reais. Olhei para a guardinha e fiz um sinal de apunhalado, sentindo a lâmina fria girar entre minhas quarta e quinta costelas.
- Você sabe que fez um péssimo negocio né? Olhou e riu-me, a vendedora.
- Sim, eu sei. E saí.

Fui com a nota de 50 pesos pagar o gordo gago. Dei uma de diplomata, não queria ficar sujo com os caras. Mero interesse pessoal. Disse que não sabia da exigência, que só entrei no país pra comprar uma passagem e voltar, que no Paraguai eles não exigem isso.

- É por isso que eles estão daquele jeito, deu de letra um dos caras-alfândega.

Ouvi ao fundo a batida rápida de uma bateria. “Tedish”

Com o papelzinho na mão e 40 reais / 50 pesos a menos no bolso, caminhei para longe dali, atravessei o trecho entre as duas alfândegas, cruzei o Rio Iguaçu já desiludido com as caronas e fiquei chutando pedrinhas.

No caminho pensei em todo o dia pelo qual havia passado. Uma tarde cheia de aporrinhações e o término de dia diferente. Pirei um pouco sobre o que fazer para mudar, mas conclui que não dá. Esta é a minha sina: a de conviver comigo mesmo. Para sempre.

Aí cansei e liguei para o Flávio, amigo do peito e salvador da pátria, me buscar na alfândega do lado brasileiro.

Estava sem dinheiro para o táxi.