Entrei esbaforido na van que nos levaria à mina de prata. “A chave, onde está a chave?”, tinha perguntado minutos antes. Confusão. Como a diária acabaria ao meio-dia tinha que deixar a bagagem no locker e correr para a van, que já ameaçava sair sem mim. Esbaforido e bufando, desculpei em meu castelhano difícil e reclamei algo no idioma pátrio.
O argentino Marco Villano, grande parceiro de viagem
Ao meu lado, os olhos verdes do argentino Marco brilharam. “Eu falo um pouco de português”, disse em seu castelhano de Santa Fé. Olhei para ele e o examinei. Baixo como eu, rosto salpicado de sardas, cabelos loiros e cacheados, com alguns dreads malucos. Foi ele quem puxou a conversa.
O norte-americano e quase argentino Ben Klopack. Ele e Marcos seguirão rumos distintos nesta história
Marco estudara no Uruguai por um tempo, morando com dois brasileiros – um deles, o Mineiro. Aprendeu alguma coisa de português. Pouca coisa, bem da verdade. “Este aqui é o Ben”, apontou-me. Do banco de trás, foram os olhos azuis de Ben que então me fitaram. “É argentino também?”, questionei. “Não, sou norte-americano”.
Marco e Ben, se preparando para a mina e já dentro dela
Ben mora em Buenos Aires onde estuda Economia. Tem uma característica marcante: é a cara do ator Elijah Wood, o Frodo de “Senhor dos Anéis”. Conhecera Marco em Uyuni e seguiram juntos para Sucre, umas das cidades que descartei de meu roteiro. Chegaram no mesmo dia que eu em Potosí. O destino queria que os três se encontrassem na van, a caminho de uma mina de prata.
Ben Wood. Diz ele que quando tinha cabelo comprido foi em uma festa vestido a Frodo. Ficou idêntico
“Vamos fazer o seguinte”, combinei ao ver Marco todo jeitoso com a máquina na mão, “você tira fotos minhas e eu tiro fotos suas. Depois um envia para outro”. Estava feito o trato, comum entre viajantes solitários que querem se ver nas fotos. E pelo resto da viagem, o tema fotografia seria uma constante entre o argentino e eu.
De volta à van. Mãos
Quando saímos da van fiquei imaginando: “Serão estes meus novos companheiros de viagem?”. Não passara um dia sozinho e o bastão que fora de Max, Jardel e Daniel tinha novos donos.
Bolívia em guerra. As bombas lambiam nossas costas enquanto caminhávamos pelo centro de Potosí, sul do país. Passavam próximas, respingando parte de seu conteúdo. Apressamos o passo, mas era dia de sorte, os algozes tinham outras vítimas em vista.
Meninas alvos e meninos guerreiros. Batalha campal
As bombas, ou bexigas cheias d’água em sua versão realista, são vendidas na própria rua. Há comércio de tudo na Bolívia. Os soldados são meninos, ainda de camisa, terno e gravata – o uniforme da escola. As vítimas, claro, as meninas em seus vestidinhos alvos (no duplo sentido da palavra).
“Isso é comum em toda a Bolívia”, confidenciou-me um cidadão local. Ao final da aula, guerra de bexigas cheias de água nas cercanias da escola. Em Uyuni, eu fora alvejado por uma rajada de metralhadora de água, disparada pelo dedo moleque de um garoto boliviano. Em Potosí, tínhamos que andar espertos: os turistas são o segundo alvo dos meninos.
Melhor correr, ou seremos os próximos alvos
Quando cheguei na cidade, naquela madrugada, respirava alívio. Se estávamos em guerra, a chegada a Potosí seria o desembarque dos aliados na Normandia. Estava morto. Após a tortura no ônibus boliviano, mal sentia as pernas e precisava de descanso.
Cenas de Potosí, cidade situada no sul da Bolívia, a mais de 4 mil metros acima do nível do mar. Nos tempos áureos da mina de prata, Potosí já foi a cidade mais habitada do mundo. Hoje, tem 250 mil habitantes
Fui usado por ingleses como intérprete. Fingiram interesse por mim, fiz as vezes de tradutor espanhol-inglês no táxi e na recepção e, fim de papo, não falei mais com eles. Mas me lixei para isso, queria banho e cama.
Cara de sono na manhã de Potosí. Noite bem dormida
No outro dia tive um café da manhã digno. Três dias viajando com Jimi e os gringos me deixaram meio desnorteado. Precisava firmar os pés no chão, comer e, ops, correr, porque estava mais uma vez atrasado. Deixei minha bagagem no locker e saí atrás da van que queria ir sem mim – fui o último a entrar, o brasileiro atrasado. O sôfrego eu em ação.
Estávamos indo para uma mina de prata. E então conheci Marco e Ben. Neve na Bolívia
Uns flocos grandes de neve começaram a cair num dia sol. Estranho, neve na Bolívia. A chuva, parecia chuva, era sólida. Granizo, não sei, tinha jeito neve. Aliás, nunca vi neve.
Catedral de Potosí, no centro da cidade
A tarde na Bolívia, após a visita à mina de prata (leia no próximo post). foi para descanso e um breve passeio. Também para almoço junto com um monte de franceses, um americano e um argentino. Andamos pelo centro buscando um lugar para comer. Perguntamos para este e para aquele e fomos acabar em um restaurante normal no centro da cidade.
Bolos e pães em frente ao Comedor Popular
Estava naquela minha de trocar pesos chilenos pela moeda local, bolivianos, no caso – sina que carregaria até o fim da viagem. Precisava pagar a conta do restaurante e fui dar uma volta e negociar com o cara da casa de câmbio. A Bolívia é intrigante; próximo ao Mercadão Popular, ou Comedor Popular, vi bolos sendo vendidos na rua, assim como pães, muitos pães.
Comedor popular. Como nossos mercados, mas na Bolívia
No Mercadão, aquela bagunça, nada diferente de nossos mercadões. Tentamos tirar fotos de algumas cholas, as tias bolivianas, mas elas odeiam isso. Uma gritou alto e apontou a faca para nós. Ameaça.
A chola má nos olha atravessado. Mas esconde a faca
A faca da chola era um prenúncio: estávamos em guerra. Fim de tarde, hora da meninada sair da escola. Os turistas olham ressabiados; as meninas mais ainda. A molecada, ainda fardada, começa atirar os globos de água. Hilário. E gente adulta, como eu ou você, vendendo a munição na rua. Patrocinando a batalha.
Patrocínio da guerra. Gente adulta vende as 'armas' da garotada
Sobrevivemos à guerra e voltamos ao hostel. Hora de partir. Beijei a francesa no rosto, intrigado por não ter dado certo. No hostel, matamos mais um tempo e me juntei ao americano e ao argentino. Resolvi seguir viagem com eles. Era o início de uma longa história.
Elisa estava compenetrada nas palavras-cruzadas que eu levo sempre comigo. Franzia a testa e tentava responder as perguntas, começando pelas mais fáceis. A italiana não entendia bem esse difícil idioma português, mas arriscou um palpite à pergunta “Astro como a Lua”: ESTRELA, escreveu e, como não coubera entre os quadrinhos, colocou um “l”a mais – ESTRELLA, bem italiano.
“Lua é satélite, não estrela”, caçoei, rindo bastante. “Na Itália, Lua é estrela”, devolveu ela, ligeira, enquanto dobrava e me entregava o caderno de palavras-cruzadas. Desistira.
O tema idioma não poderia faltar neste especial, ainda que seja por países da América do Sul, com seu castelhano onipresente. Sempre tem turistas como a italiana Elisa, amiga do hostel El Andaluz, para contar histórias. Mas há outras.
Lá no hostel ainda, o castelhano predominava, e tinha acentos e entonações diferentes dependendo da origem do falante. Os latinos se encontravam no sofá e buscavam um entendimento. Alguns gringos de outras linhagens também.
Longe dali, com outros personagens, o idioma continua rendendo histórias. Foi o inglês de Laerte que me fez conhecer aquela turma bacana, em San Pedro. Ele pedira uma informação no idioma saxão e eu o ajudara, em meu castelhano já um pouco melhorzinho. Laerte agradeceu com o brasileiríssimo “obrigado” e ficamos amigos.
Com o camarada irlandês. Sotaque acentuado
Conheci também um casal de irlandeses que gostavam de falar rápido para me confundir. O idioma inglês, a propósito, me fez passar maus bocados também no salar. Já acostumara o ouvido com as doses de castelhano em Salta e San Pedro. Mas aí me juntei com suíços, uma americana e um brasileiro de inglês fluente. E eu com meu inglês meia boca.
"O céu ficou beleza, mas sua cara não"
Lá no cemitério dos trens, caprichava nas fotos, mas deveria ter caprichado na frase que formaria no idioma alheio. “The sky is beautiful, but your face not”, disse. Riram de mim e tive que concordar. Querer dar aula sobre luz e sombra na fotografia, em inglês, não é comigo.
Aula de espanhol
Ao longo da viagem fui pegando o jeito de falar de nossos vizinhos aí na América do Sul. Tive momentos difíceis com meu melhor amigo da viagem - vocês vão conhecê-lo em breve. “Murilo, no te entiendo”, dizia ele um par de vezes.
No aeroporto de Lima, após perrengue em castelhano
Mas no aeroporto de Lima, na viagem de volta, arrumei um quiprocó com a atendente da empresa Lan digno de mestre. O espanhol saiu tão fácil que vou acabar sendo convidado para a Real Academia Espanhola.
Minhas pernas doíam, especialmente as canelas. As pernas, aliás, já nem mais sentia. O ônibus chacoalhava e eu me espremia com parte da bagagem nos pés. Ônibus boliviano, devia esperar. Cheio, pessoas nos corredores, algumas me olhando. E na poltrona ao lado, um folgado boliviano esparramava as pernas sobre as minhas.
A viagem de Uyuni para Potosí foi a pior de todas. Não me lembro, aliás, de outra tão ruim quanto aquela, em meu longo affair com ônibus. Correra para pegar o busão; sequer dera tempo de tirar a máquina fotográfica do pescoço. Bufava, meio de nervoso, meio de cansado. Foi Daniel quem me acalmou. Depois de percebermos que o ônibus sairia a qualquer momento, ele e eu fomos buscar minha bagagem. O escritório da empresa estava fechado. Liguei para uma chola abrir, tremendo.
Abracei depressa a norte-americana Shannon. Sabia que não voltaria mais a vê-la. Dei um abraço em e beijei o rosto de meu amigo Daniel. Como Max, o pessoal de Salta e a turma de San Pedro, era a vez de Daniel passar o bastão para outro contar a história. Seu tempo acabara. Ou não?
No ônibus, fui o último a entrar. Sentei-me próximo dos suíços que seguiriam para La Paz e fiquei 'apreciando' as curvas e aquele mundaréu de gente. As paradas eram coisas do outro mundo. A quintessência da parada capenga para aquele lanche rápido. Reclamou dos banheiros da rodoviária ou do sanduba gordurento da lanchonete? Você deveria viajar para Bolívia.
Voltei a me ‘acomodar’ no ônibus, mas dormir era impossível. Reparava aquelas cholas (as famosas tias bolivianas/peruanas) sentadas no chão. Uma delas me encarava. Senti-me incomodado, não é de meu feitio ficar sentado enquanto alguém bem mais velho que eu gastava os joelhos em uma viagem difícil.
Pensei. Cogitei. Mas na disputa entre o espírito humanitário e o de sobrevivência, ganhou este segundo. Fiquei sentado, preservando os resquícios de dignidade daquela péssima viagem.
Ela acabaria de madrugada, após seis horas de tortura boliviana. Chegávamos em Potosí e eu serviria de guia para outros gringos.
No meio do nada nós brincávamos. Fotos aproveitando a perspectiva: Daniel nos ombros de Shannon ou todos nós dentro de um boné sendo alimentados a biscoitos. Típico de turistas. No jipe, o cansado Jimi dormia.
O quinteto a Bolívia. Último dia de tour
Todos estávamos sonolentos quando acordamos para nosso terceiro e último dia de tour. Mas Jimi teria outros motivos que só ele pode explicar. Uma namorada em San José, sugerimos. Ou algo que fizera nosso motorista perder o horário de nossa saída. E que nos fizera perder o nascer do sol no Salar de Uyuni.
Jimi. Aventuras, ou outros motivos, o fizeram se atrasar. Mas é gente boa
Era ainda madrugada quando o impaciente aqui acordou. Não aguentava ficar na cama esperando o Jimi que tardava a chegar. Levantei e fui atrás de notícias, acordei um outro boliviano, que foi busca-lo. De onde o cara tirou Jimi não sei. Mas desconfio.
Entre quinuas e um iniciar de sal, o nascer do sol na Bolívia
Saímos apressados e com a cara amassada. Jogamos as malas sobre o jipe e entramos. Corríamos contra o sol, ou ao menos antes de ele surgir no horizonte. Jamais ganharíamos. O jipe levantava poeira por plantações da famosa quinua (alimento altamente protéico e só encontrado ali), quando a primeira pontinha alaranjada surgiu.
Era ele, o sol. Pedi para Jimi parar e fui apoiado sem muito entusiasmo pelos colegas de carro. Fui o primeiro a sair e me desloquei do grupo. Nascer do sol, em solo boliviano e rodeado de quinua. Não era o mesmo que o salar, mas já era alguma coisa.
Enfim, o branco
Foi com muita emoção e já sem mais sonolência que chegamos ao Salar de Uyuni. Quilômetros a fio de puro sal, ao menos oitenta até nosso próximo ponto. Pedi novamente para o carro parar, queria brincar naquela imensidão.
Às favas com a perspectiva, ficamos pequeninos
Os gringos estavam agora mais dispostos. Para onde olhávamos só víamos nada. O azul do céu e o branco do sal, mais nada. Fizemos aquelas fotos em que a perspectiva do perto e do longe é deixada às favas. O animado Daniel comandou as poses, posicionei a máquina no tripé e “flash”. Então, Jimi se vira mais uma vez no banco do carro e se dá conta do horário. De volta à estrada.
De longe, uma ilha. Bandeira boliviana fincada e cactus milenares
Mais algum bom tempo rodando sobre o nada até que uma ilha surgiu na nossa frente. A Isla del Pescado, assim chamada devido sua forma de peixe. Nela, cactus milenares e com mais de dez metros de altura buscam no céu um abrigo do branco de ofuscar olhos cá debaixo. Sobreviventes e fenomenais.
Mais cactus, mais branco e mais personagens
Apreciar o salar do alto da ilha é se aproximar de um algo a mais, muito além disso e daquilo. Talvez aquela ausência de cor, ou somatória de todas para ser mais preciso, signifique algo. Uma tentativa de comunicação em forma de branco, de nada. Confuso e difícil de explicar, bem difícil. Mas emocionante.
Do alto da ilha, tudo parece pequeno
O sal nos esperava também no hotel feito dele. Dormiríamos por ali não fossem os problemas nos carros da frota. É nada não. Lambemos paredes e estátuas para provar a matéria-prima da argamassa. Sal puro.
Hotel de sal. Eu provei, é sal
Fim de salar, fim de viagem
O almoço foi numa vila, no Salar de Colchani, onde compramos algumas bugigangas e lembranças. Comprei um rak sak (aquela bolinha de pano cheia de milho para ficar chutando) e desafiei os gringos para um “altinha”. Eles não sabiam do que eu estava falando.
Cansados, demos chance para uma última parada. Um cemitério de trens, resquícios dos tempos gloriosos em que o comercio de prata, vindo das minas de Potosí, era grande naquela região. Hoje, são carcaças. Cadáveres.
Cadávares a céu aberto. O cemitério de trens é nossa última parada
Na pequena cidade de Uyuni, respiro antes das próximas aventuras na Bolívia, começou o clima de despedidas. Primeiro do Jimi, nosso motorista e amigo. E depois dos parceiros de viagem.
Venda colorida em Uyuni. Parada para respiro e despedidas
Comprei um descongestionante nasal para aliviar o seco e a poeira de dias acumulada em minhas narinas, que eram puro sangue seco - por toda viagem, andava com um lenço molhado debaixo do nariz, mas aquilo já estava me matando. Descarregamos fotos em uma lan house; a atendente, uma criança, fedia a salgadinho. Atualizamos internet. Estava tranquilo, andando com o Daniel atrás de comida, quando me dei conta. Meu ônibus estava saindo.
Correria, típico. Talvez seja sina correr atrás de ônibus. Ou pior, seja sina conviver com este sôfrego eu. Corro para não perder a lotação e vocês se preparam para não perderem a viagem.
O sal começa a engrossar nos pneus do jipe de Jimi. O carro para. Não pelo sal, mas por um pneu furado. Estávamos no meio do deserto, na beira do salar de Uyuni. Outro carro vem nos ajuda, mas também tem problemas. Um pneu, um sistema elétrico. E uma criança de quatro meses no carro vizinho.
Pela manhã, lhama e gringo. Tudo misturado na Bolívia
Levantamos cedo naquele dia para seguir viagem. O sol tinha um amarelo gostoso em sua inclinação mais fotogênica. Fazia frio, tomamos um bom café e chá de coca e encaramos o ventinho da altitude.
Pela manhã tínhamos companhia. As aves e ovelhas que brigavam por comida, e lhamas que vinha buscar direto no lixeiro. Domesticadas, elas não davam muita bola para aquele monte de gringos e seus sotaques.
Lhamas e aves brigam pelo enquadramento. A ave ganhou
Nos preparamos para sair. Dei uma última olhadela para Laguna Colorada, em seu ângulo desfavorável. Ajudamos o Jimi a carregar o jipe e seguimos viagem. O som boliviano voltou a tomar conta do jipe de Jimi. Conversava com os amigos estrangeiros. Aguardávamos surpresas.
Uma árvore de pedra e alguns metidos a engraçadinhos
E vieram em forma de árvore. A Árbol de Piedra, parecida com as formações esculpidas pelo vento de Vila Velha, no Paraná. Também fantástica. Subimos aqui, ali, acolá e exploramos tudo. Com máquinas nas mãos e ideias na cabeça – vide foto colhendo uma maçã da árvore. Coisa boba.
Caminhada pelas últimas lagoas
Na sequência da viagem voltaram desfilar as lagunas altiplânicas. Cada uma com sua particularidade, Honda, Hediona e Cañepa. Não podia mais ver lagoas e seus flamingos dando uma de saci. Mas a vista é linda.
Parada para almoço com pico nevado ao fundo
No caminho também nos seguiam picos nevados, em cumes de 5.200 metros de altitude, e vulcões em atividade. Pequenos paradoxos bolivianos. O carro deu seu primeiro aviso – Jimi pediu para seguirmos um trecho complicado a pé, para não forçar o jipe. Andamos um pouco e ali paramos. Hora do almoço.
Coca-Cola e almoço gelado. Comida feita pelas não menos frias cholas bolivianas
Comida ao céu aberto, gelada. Preparada por uma das tias bolivianas de cara fechada. Elas nuca riem. Mas como o paladar é inversamente proporcional à fome, a comida estava ótima. O local foi bom para relaxar e ouvir o silencio. Ou fazer o montinho de pedra como reza a tradição local.
Montinho. Faça um desejo e aguarde, quando o monte cair, realiza
Próxima parada...
Então seguimos viagem e o sal engrossou igual em espeto de chão gaúcho. De repente, o jipe para. Pneu. Nosso herói faz o seu serviço, enquanto um conterrâneo também para e presta auxílio. Mas na hora de dar a partida é o carro do outro que não responde.
Jimi frustrado, um pneu furado e nós parados
Notamos que por alguns momentos a música de Jimi parara de tocar. “Parou?!”, vibramos ainda incrédulos. Engano, poucos minutos depois e a batida bolviana voltou a dominar o ambiente e nossas mentes.
Dois times se juntam. Tempo parado também serve para fazer amigos
Saímos todos dos carros e nos encontramos com o outro grupo. Muitos gringos no meio do nada. Ao fundo, pequenos furacões davam feições de deserto ao que de fato a região era. Jimi e o conterrâneo ajeitavam a parte elétrica do carro do outro e uma mãe boliviana ninava o pequeno de quatro meses no colo.
San José del Deserto
Tivemos que parar na pequena San José, uma cidadezinha no meio do deserto. Compramos alguns chocolates, tirei algumas fotos dos meninos que se lambuzavam com o salgadinho laranjado. No carro, meus amigos faziam o tempo passar a base de cantoria. Mas o tempo havia passado demais.
Meninos, seus rostos rosados e salgadinhos laranjados
Tanto que no final das contas ficamos em San José. Nada de passar a noite em hotel de sal, uma pena. Mas tomamos um banho quente (que depois foi cobrado por um cara da hospedagem , também como manda a tradição local). Tomamos sopa, comemos macarrão, nos esbaldamos na bolacha e no café. E descansamos.
Fim de dia e redemoinhos. Lugar para passar a noite
Não sem antes ver o sol se pôr. Aquele mesmo das lhamas e ovelhas, no mesmo tom amarelado. Tomamos vinho sob o vento frio. Daniel e eu conhecemos um cemitério de múmias chalpas – pelo tempo super seco, a região é um oásis para os arqueólogos, explicou ele. Já a guia local explicou nada.
A múmia preservada pelo clima seco do deserto
“Essa tribo nunca via o sol, só a noite. Então uma vez eles saíram no sol e morreram e estão aí até hoje”, ou algo do tipo. Eu não entendi nada. O Daniel menos.
Mas já era noite, voltamos ao alojamento tateando no escuro. Tínhamos que descansar. No outro dia veríamos um salar.