quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sob as luzes vermelhas de Amsterdam

Desde o início da viagem, o Juttel e eu fizemos uma programação casada. Na Europa, a dupla ficou unida por quase toda a viagem. E ali em Amsterdam, após nos despedirmos do Enio e do Dave, começamos a fazer algo que faríamos em todas as cidades: andar. E muito.

Tínhamos tempo. O combinado era não dormir e sair no outro dia às 6h, rumo a Estocolmo. Conhecemos o centro e nos perdemos por algumas ruas, guiados por um mapa improvisado. Visávamos os museus Van Gogh e o Rijksmuseum. Entramos em uma ruela e chegamos a uma exposição em uma “rua fechada” – uns quadros gigantescos e muito bonitos.

Quadros gigantescos e um simpático tiãozão holandês para nos orientar

Mais adiante chegamos a um vilarejo fechado. Casinhas, florzinhas, pracinha, estátuas, igreja, uma árvore centenária. Parecia aquelas cidades abandonadas de jogos como Resident Evil. Um verdadeiro set cenográfico – para sair da vila, passamos por uma porta (surreal).


Vilarejo fechado: entramos e saimos por uma porta!

De volta ao centro da cidade continuamos a caminhar boquiabertos. Aquela arquitetura encantadora, carros, trens. Aos poucos nos acostumamos em andar em meio a tanta informação. Reparei na quantidade de bicicletas amarradas aqui e ali e muitas delas tombadas no chão. Era quase um chavão da cidade: bicicleta tombada. Outra característica, não só de Amsterdam mas de todas as cidades pelas quais passamos, todas estão em obras. Muitas obras. Dizia que a Europa é um canteiro de obras.

O amarelo de Van Gogh

Chegamos ao belíssimo Rijksmuseum, um museu de arte e história que possui uma coleção belíssima de vários artistas, dentre eles um tal Rembrandt, pintor local. O próprio museu é uma peça de arte; ficamos tentados a entrar e conhecer. Mas precisávamos fazer uma escolha. Ali pertinho estava o museu Van Gogh, outro holandês famoso, este pós-impressionista, diga-se. Optamos pelo tom amarelo de Van Gogh, mas não sem um aperto no coração.

Juttel dá uma última olhada parao Rijksmuseum. Preferimos o Van Gogh

Ver as obras de Vincent van Gogh de pertinho valeu a pena. Interessante as pinceladas ligeiras em cada um de seus auto-retratos, o tom amarelo (genialidade ou daltonismo?), a riqueza de cores de quadros como “O Quarto em Arles” e, claro, o belíssimo “Doze girassóis numa jarra”, diante do qual me demorei alguns minutos. Emocionante.

No Vondelpark, algumas horas de sono e uma tentativa frustrada de ler o cardápio

Dali seguimos para outro ponto turístico, o Vondelpark, conhecido por permitir o sexo em suas dependências a partir da meia-noite. O parque é muito bonito, cheio de fontes e lagos. Teve um maluco que se aventurou nadar no lago; e olha que o dia não estava lá tão quente. A despeito do sol, havia um ventinho que incomodava. Estendemos a bandeira do Brasil no gramado e ficamos sacando os caras tentando jogar bola. Acho que dormimos mais de hora sob aquele sol.

A viva España!

A próxima parada era comida e jogo de futebol. A Espanha iria enfrentar a Itália pelas quartas de final da Eurocopa. Nos enrolamos para escolher um lugar, mas encontramos um cantinho repleto de espanhóis. Na TV, antes do jogo, passava comentários sobre o campeonato e algumas propagandas bizarras. Diante dela, como espectadores, um monte de espanhóis alucinados. E Viva España! Jogo emocionante e sem gols, perdemos umas boas quatro horas fechados no bar, acompanhando tempo normal, prorrogação e pênaltis. No relógio, dez da noite passadas, mas ainda havia luz do sol. A Europa é estranha.

Torcida do lado de dentro e de fora do pub. E viva España!

E deu Espanha com defesas do goleiro Iker Casillas. Espanholada saiu festejar na rua, enquanto o Juttel e eu fomos comer um Burger King. Morrendo de fome, demos uma bicuda na idéia de se alimentar só de comida local. Queríamos alimento plastificado. E dá-lhe mordida.

As luzes

Já era noite e estávamos andando feito bestas. Chegamos em uma praça cheia de estátuas em tamanho real e ali perto em um barzinho brasileiro. Bandeira tupiniquim e tudo. Vimos os canais que cortam Amsterdam sob a luz noturna, os poucos pontos de agito. Domingo é foda. Encontramos alguns coffe shops, mas não entramos.

Maconha na vitrine. Não, não entramos nos Coffe Shops

Nosso foco era outro. Procurávamos o famoso Red Light Districit, o reduto onde o sexo é comercializado nas vitrines das lojas. Bizarro. As mulheres se oferecendo atrás de um vidro, fazendo caras e bocas. “Ela gostou de mim”, brinquei. Sorri nervoso, parecia um daqueles filmes futurísticos, em que o mais bizarro é cotidiano.

Das portas saiam rapazes com um brilho no olhar e expressão de satisfeito. E nelas entravam outros, ainda nervosos, sem saber o que fazer com as mãos. Vimos algumas portas se fechando, com o rapaz já sentado na cama. Profissionalismo total. Obviamente não fizemos fotografias. Ali, sexo é coisa séria.

Soneca no Schiphol

Voltamos de Amsterdã para o Schiphol e lá tivemos que esperar o vôo. Estava cansado, com o corpo doendo e cabeça em igual estado. Ensaiei alguns cochilos no banco enquanto o Juttel arrumava suas coisas. Na cabeça levei um boné “I amsterdam”, e a impressão de uma belíssima cidade, presa ao passado por sua arquitetura, mas ao futuro pelos seus recentes costumes.

Sono no aeroporto de Schiphol. Deu de Amsterdam

Costumes que beiram ao cômico e dá espaço às pilhérias, mas que mostram muito de uma cidade onde sexo e drogas passam longe de ser os principais problemas urbanos. Assim é Amsterdam.

Mas chega de Holanda, porque o vôo partiu. Dormimos durante todo o trecho perdendo o café da manhã, para desespero do Juttel. Acordaríamos em Arlanda, o aeroporto de Estocolmo, e eu receberia uma notícia bem desagradável. Para meu desespero.

Isso, no entanto, você acompanha em seguida.

domingo, 13 de julho de 2008

AmsterWhat?

Pisar na Europa pela primeira vez foi emocionante. Sair da Centraal Station e ver aquela bagunça: barcos no canal, trem urbanos, carros, bicicletas, pessoas. Tudo em um cenário emoldurado por edifícios históricos. Mas para alguns, começar a aventura pela Europa por Amsterdam era projeto arriscado. Explico o por quê.

Holandesa e bicicleta, visão comum em Amsterdam

Todo mundo conhece a fama do liberalismo holandês em relação a sexo e drogas. É de lá a famosa Red Light Distrit, uma região da cidade em que prostitutas se oferecem atrás de uma vitrine. Também é de lá o Vondelpark, o parque onde o sexo é liberado - mas é proibido andar com cachorro sem coleira (a Flávia sugeriu ficarmos em frente ao parque vendendo camisinhas e coleiras). É ainda de Amsterdam o conceito dos coffe shops, lugares em que é permitido comprar pequenas quantidades de maconha, cujo uso na Holanda adivinhem: é liberado.

Bicicletas mil. Quase fui atropelado um par de vezes

Por essas características peculiares, muita gente desconfiava que a gente não chegaria íntegros em Estocolmo para a pré-conferência. Existe uma teoria que diz que eu ainda estou no vôo Amsterdam-Estocolmo e tudo que se passou depois disso é um sonho (ou alucinação). O Enio cunhou duas frases para sintetizar nossos receios em relação a Amsterdam. Iria comprar na cidade camisetas com os dizeres: "Fui a Amsterdam e me esqueci de você" ou ainda "Fui a Amsterdam e não voltei". Também o Enio, sempre ele, criou o conceito de "AmsterWhat?" Enfim, para muitos, a passada rápida por Amsterdam provocaria seqüelas.

Com o amigo irlandês Dave. Na Holanda, Heineken

Mas não em pessoas centradas como o Juttel, o Enio e eu que logo no metrô, indo para o centro da cidade, conhecemos o Dave Louis, um irlandês gente boa que nos acompanhou nas primeiras horas em Amsterdam. Passado o susto da primeira vista fomos sentindo o clima daquela cidade, os sons, as cores. Tinha um show ali no centro, vimos o pessoal de todas as raças em mais um rincão cosmopolita deste mundo sem porteira e, claro, paramos para tomar a cerveja local: Heineken (prática que nos acompanharia por toda a viagem).

Festa em Amsterdam para nos receber

Dia de sol e... como venta na Holanda (será que é por isso que tem tantos moinhos de vento?). Ficamos matando um tempo no centro até nos separarmos do Dave e do Enio (ele pegaria o próximo vôo para Estocolmo, o Juttel e eu ficaríamos até as 6h da manhã do outro dia zanzando pela cidade). Nos despedimos do Enio prometendo nos encontrar no outro dia em Estocolmo. Não sei porque, mas a expressão dele não parecia confiante.

Na sequência, as nossas andaças pela apaixonante Amsterdam.

sábado, 12 de julho de 2008

Uma viagem muito louca

O dia era de calor, quando entrei cheio de malas no aeroporto de Guarulhos, dia 21 de junho, há três semanas. Estava com o tempo de folga e sapeei pelo aeroporto à procura de quatro figurinhas. Achei duas delas, o casal Davi e Flávia que tinha de cor e salteado todos os esquemas da viagem.

Com o Davi registrei o mac, e fiz o check-in. Na hora de enviar a mala, ao invés de retirá-la em Amsterdã preferi enviar direto para Estocolmo. O cara estilo francês delicado já tinha colocado a fita de informação, mas não houve problema em cancelar e fazer tudo de novo, para que eu pegasse umas peças de roupa sobressalentes. O problema veio bem depois.

Bem, entramos na área de embarque. Pela primeira vez embarcava ali do lado direito do aeroporto. Viagem internacional, free-shopp, coisa chique. Vi do outro lado do vidro o triste portão 1, dos vôos domésticos - velho de guerra das viagens para Campinas. Corremos para pegar o vôo e fomos uns dos últimos a embarcar, só para não perder o costume. Dentro do vôo encontramos as outras duas figurinhas, Luiz Juttel e Enio. Estava completa a equipe.

Com Juttel e Enio, o time está completo

Estávamos viajando para a Suécia, para participar da 10ª Conferência sobre Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (PCST-10). A pré-conferência aconteceu em Estocolmo e a conferência em Malmö, com programação também em Lunds e em Copenhague (Dinamarca). Na conferência, fizemos uma apresentação sobre nossa instalação "Bem me quer, mal me quer", que realizamos em Campinas, pelo Labjor.

Um vôo muito louco

Primeira vez em vôo internacional, não contava com aquilo. No boeing da KLM se enfileiravam centenas de poltronas, com opções de etnias e nacionalidades dos quatro cantos no mundo, para todos os gostos. Eu fui na janelinha, conversando com um italiano e uma paulista nascida em Taiwan, mas não fiquei muito tempo parado não.

A paulista Jane e o super-viajado italiano. Boas conversas, mas por pouco tempo

Quinze horas de viagem, mais cinco do fuso, precisava andar. Faríamos escala em Amsterdam e pegaríamos outro vôo para Estocolmo. Fui conversar com o pessoal no fundo do avião e sentei em outra fileira, entre dois asiáticos. A viagem foi divertida por ser tudo inédito, eu pirando com a TV na poltrona e o controle mil e uma utilidades. Além de controle da TV e joystick do game, o controle era também telefone. Poderia até fazer uma ligação mediante uso do cartão de crédito, mas dizem que o último que usou o serviço teve que hipotecar a casa quando o avião pousou no Brasil.

O quinteto em foto esquisita. Todo mundo olhando pra telinha da máquina

Outra coisa interessante são as comidas, as comissárias de bordo em seus requintados uniformes azul celeste da KLM simplesmente não param de servir comida. É vinho, cerveja, refrigerante, suquinho, sopinha, salada, doce, pão, chocolate, almoço, jantar, café da manhã e etc. Toda hora. O Juttel foi o que melhor definiu nossa situacão a bordo. "Estamos em engorda: presos e sendo alimentados a toda hora", disse se referindo também ao aperto das poltronas.



Flavinha deslumbrada com o azul e branco pintados na janelinha do avião

E lá de cima o céu é mais bonito. A Flávia, pela primeira vez voando, se encantou com mar de nuvens que cobria um oceano. Fiz questão de chamá-la também para ver a costa de Portugal. Estávamos entrando no continente e chegando ao fim da viagem.

Sobrevoamos a Holanda e eu pude ver, com o avião já bem mais baixo, os famosos pôlders, aquelas áreas que o país tomou do mar. Vi os canais, as plantações. Não dava ainda para identifcar moinhos ou vacas, mas a visão já era a diferente que jamais vi. Aos poucos ia me dando conta que em poucos minutos estaria pisando na Europa.


KLM sobrevoa Amsterdam, pela janela dá para ver os pôlders

O avião pousou no magestoso Schiphol, um dos mais grandiosos aeroportos do mundo e parada obrigatória de muitos vôos para Europa. No saguão nos despedimos do Davi e da Flavinha que pegariam o próximo vôo para Estocolmo. A nossa idéia era outra: conhecer Amsterdam.


Vulto: time do "Bem me quer" na Europa. Só faltou o Hércules

Mas sobre isso vocês verão no próximo post.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Sob a brisa do Danúbio

Oi pessoal. Escrevo de um hostel em Budapeste, Hungria - 1h30 hora local, 20h30 horário de Brasília. Consegui um canto, banho quente e wi-fi meio que na louca, e agora escrevo um pouco aqui no blog. Tem sido difícil encontrar wi-fi aqui na Europa, por isso não pude atualizar o blog. Faltam aqui histórias loucas como a Casa Westbankof, as diferentes línguas, as aventuras sobre nuvens, trilhos ou mar. Tento contar isso quando voltar para casa.

Foi meio difícil entender qualé a dos húngaros, e ainda não entendi. Cheguei em um país estranho, com a estação rodoviária fechada, sem mapa nem moeda local. Consegui informações com um camarada que falava inglês assim assim. Ele me indicou a direção e eu peguei o metrô sem pagar e fui. Metrô diferente do esquema de Viena, onde eu já estava dando informações para os turistas.

Caras estranhas no metrô. Tinha um que parece um personagem do Dragon Ball, com aquele bigode grande com as pontas caídas. Um menino brincava de armar o cubo mágico enquanto o outro conometrava (achei que faziam isso só na TV). As pessoas me olhavam com estranhesa e eu torcendo para o cara que cobra os tickets não me pegar enquanto contava as estações que passavam.

Consegui chegar na estação Kelvin tér e me enrolei um pouco para encontrar a rua Lónyay, mas achei. Estava andando feito bobo procurando o número 1093, indignado por estar na quadra com os números 13, 14, 15. "Vou ter que andar umas cem quadras", pensei. Então vi uns jovens em uma mesa de bar, conversando alto. Passei por eles, mas resolvi voltar e perguntei se alguém falava inglês. Nunca faço isso, mas me apresentei como brasileiro.

"Ah, você é brasileiro, então está em casa", disse o Eduardo, um estudante de 22 anos, de Rio Preto-SP, que está morando na Hungria desde o começo do ano, estagiando na Nokia. Ele me informou que o 1093 é o CEP da rua, o número era outro e eu já havia passado por ele.

Encontrei, enfim, o tal hostel Império Max. Sem vagas, fui para outro, perto dali e de onde escrevo agora. Estou em um quarto sozinho e o dono se desfez em desculpas por não me arrumar um quarto mais barato para dividir. Tenho que pagar o horror de 22 euros! O quarto com 8 ficava por 18 euros. Na Suécia e em Viena, paguei quase 50 euros a noite. Aqui, o cara ficou desconcertado por eu ter que pagar tanto. Estou adorando, quarto chique e super barato.

Aliás, dinheiro é algo estranho aqui. Se eu me achava o tal com o bolso cheio de notas de 100 coroas suecas, imagine agora com as notas de mil forintes húngaros. Com 99 dá para comprar uma Coca-Cola, com 450 comprei um baita lanche que até agora não descobri o que tinha dentro.

Estava com fome e sede, fui passear. Usei o troco dos 50 euros que paguei pelo hostel (22 pelo quarto, 15 pela chave - se eu não perdê-la recebo de volta), ou seja 13 euros em forintes. Deu mais de 3 mil na moeda local. A cotação segundo o convesor do mac está em 233 forintes para 1 euro. Ou seja, paguei 44 centavos de euros pela Coca (em Viena, cheguei a pagar 3 euros). O lanche pode parecer caro, mas forrou bem o estômago. Só não sei do que era.

Estou gostando de Budapeste, já de cara o brasileiro Eduardo e o Hispano-húngaro Abraam, dono do hostel, me disseram que eu peciso de mais de um dia para conhecer bem. Vou ter que mudar meus planos e ficar uns dois dias, afinal, Praga não vai sair do lugar.

Para comprovar a beleza do local dei uma caminhada até uma das 9 pontes da cidade. Respirei fundo a brisa do delicioso Danúbio. Amanhã coleto a água para coleção. Segundo o japa com quem eu estava conversando agora, que rio quando eu falei essa históiria da coleção de água, tenho muito que conhecer por aqui.

Fica assim então. Vou lá, vejo e conto como foi. Esse post vai na frente dos outros, mas não deixam de me cobrar histórias sobre trocadilhos, conferências e viagens de uma "turminha que vai aprontar muuuuira confusão na Europa". Até mais.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Jamanta não morreu!

Pelo contrário, está vivão no ônibus Garcia rumo a São Paulo. Entrou fazendo barulho, conversando em italiano com um grupo de gringos e reclamando del posto chiuso que escolheram para ele.

Oi pessoal. A viagem está só começando. Escrevo sob a neblina grossa da manhã no norte do Paraná. Paramos em Londrina e agora estamos próximos a Jataizinho (do lado de fora da janela acaba de aparecer o belo Rio Tibagi). A previsão de chegada em São Paulo é 14h30, a tempo (espero) de chegar ao aeroporto de Guarulhos até às 18h35, horário do vôo – ou uma hora antes, que é melhor.

A noite foi difícil. Quase não dormi pois ainda guardo compromissos do Labjor – durante a viagem estava terminando os últimos trabalhos da pós. Puta trampo.

Chegamos em Londrina às 6h, fui tomar café e mexer no trabalho. Abri o mac e fique concentrado até encontrar dois baianos que fazem o roteiro Foz-São Paulo para puxar muamba. De início os dois estavam meio arredios, até brincaram sugerindo que eu era agente da Polícia Federal disfarçado, mas depois a conversa fluiu tranqüila.

No horário do embarque vi o ator Cacá Carvalho, o Jamanta da novela Torre de Babel. Ainda lá embaixo, enquanto guardávamos as malas no bagageiro, ouvi uma conversa entre ele e um suposto fã.

“Eu vim aqui para Londrina encontrar um viado”, confessou Jamanta. “Nós trepamos a noite e agora estou indo embora”.

É, o Jamanta não morreu, tá é muito vivo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

No trem

Viagem de trem Estocolmo – Malmö. Quatro horas de viagem em um trem muito louco. Tem vagões para tudo, para crianças brincarem, cachorros latirem, pessoas dormirem e suecos lerem. No ultimo caso, impossível ler com esse nosso barulho.

O Enio tomou sua água Loka e o Juttel escreve cartões postais. Comigo tudo bem, a não ser pelo fato de estar com uma puta dor nas costas (carregar mochila) e de estar com a mesma roupa desde que saí do Brasil. No aeroporto Arlanda, de Esocolmo, fui o vencedor no sorteio de quem teria a bagagem extraviada. Palmas para mim.

Bem, esse é o primeiro post porque só agora conseguir parar para escrever. Nem sei ainda quando vou postá-los, mas tão logo encontrar uma wi-fi envio para vocês. Seguem na seqüência alguns rascunhos meio a esmo. Vamos ver o que posso fazer.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

OPERAÇÃO EUROPA



Vocês devem ter percebido o aviso do ícone acima. É isso mesmo, estou indo pras Europa. Na verdade estou indo mesmo, meu ônibus pra Guarulhos sai daqui a pouco e eu tenho pouco tempo para escrever esse post.

Vamos apresentar, na Suécia, um trabalho da pós-graduação. Depois de passar por Estocolmo e Malmö, vamos descer para Berlim, Viena, Budapeste e Praga. Viagem de duas semanas que vou tentar ir contando pra vocês. Não percam.

Agora vou correr, imagina perde o primeiro ônibus! A viagem nem bem começou e já estou atrasado.

Até.

Agradecimentos

Escrevo diante de um prato de sopa. Imaginem, mac branco e sopa de galinha não combinam. Mas precisava escrever logo este texto. Daqui a menos de uma hora sai meu ônibus, mais uma viagem para o estado de São Paulo. Desta vez, no entanto, o motivo da viagem não é Campinas ou Labjor. O trecho é mais longo.

Antes de começar uma nova viagem, preciso terminar a antiga. Por um semestre fui e voltei para Campinas e, parte desas viagens, relatei para vocês neste blog. Muitas histórias se perderam ao longo desses quilômetros rodados, outras se escondem lá no fundo do bagageiro da memória. Mas sem o Labjor, acabam as viagens para Campinas e acabam os pretexto para alimentar esse blog. Ao menos por hora.

Ainda lembro me da expressão espantada de meus colegas quando dizia que faria tamanha viagem toda semana. Mas acabei faltando apeas a três aulas, sendo que um dos motivos foi o trabalho.

Chegar até aqui dependeu de muito esforço, paciência e força de vontade. Mas também tive a sorte de ter amigos que fizeram todo o meio de campo. Sem eles, minha vida teria sido bem mais difícil e certamente não teria frequentado tantas aulas.

O que dizer, por exemplo, da hospitalidade do Juttel e da Dri, que receberam o velho e chato amigo de braços abertos. Vez ou outra eu reclamava disso e daquilo e era divertido ver o Juttel se irritar. "Eu não acredito que você ainda não lavou a minha toalha" ou "claro que quem vai dormir na cama sou eu". A Dri chegava a pensar, "que cara folgado", mas após as brincadeiras eles me recebiam bem. O colchão na sala e o controle da TV já tinham dono. E com o direito de tera companhia o Sr. Wilson (gato) que dormia aos meus pés todo dia.

Na volta para Foz, a hospitalidade ficava por conta do Flávio, que sempre me recebeu com um sorriso no rosto, apesar de ter que abrir a porta às 2h da manhã. Quando eu chegava, o sofá-cama já estava arrumado e a toalha e um calção separados para meu uso. Morto, apenas dava oi e ia para cama, as vezes ouvindo o deboche brincalhão dele: "dorme aí as suas quatro horas de sono".

Em casa, não tem preço a ajuda do pai e da mão nos meses sombrios antes de chegar meu cartão de crédito. Cada passagem pesava na conta de um ou outro e até hoje os limites de ambos os cartões estão comprometidos - minha dívida está parcelada, vou pagando aos pouquinhos.

O destaque maior é para essas pessoas e para todos que me apoiaram no término de minha pós. Agradeço à empresa em que trabalho, a Itaipu Binacional, por ter investido em mim e me liberado das segundas-feiras. Agradeço aos ônibus bons e aos bons motoristas, etc.

E agradeço a vocês que me acompanharam até aqui. Depois de um tempo viajando, já imaginava como seria registrar tudo aqui no blog e compartilhar com vocês. Essa não é uma despedida, mas o fim de uma aventura e o início de outra. A todos, meus muitos obrigado!

Sabemos que a escolha da companhia é uma escolha pessoal. Agradecemos por ter escolhido a Rascunhos de Viagens.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Lugares e crianças

Há tempos estou para escrever sobre lugares e crianças. Gostaria de dar algumas dicas das melhores poltronas para se escolher em uma viagem e também falar sobre essas incômodas companhias: as crianças. Na última viagem, ainda na ida, tive uma pequena confusão na escolha da poltrona e enfrentei um berreiro infernal de uma criança. Lugares e crianças, aproveito a deixa para contar para vocês.

Sobre lugares, eu havia preparado um pequeno manual para a escolha da melhor poltrona, dependendo das ambições do viajante. Tem que lavar em conta a posição das rodas do ônibus para escapar dos tremiliques, optar pelo clima glacial lá da frente ou tropical cá do fundão. Escolher se quer ficar próximo do entra e sai das pessoas que chegam das rodoviárias ou da bateção de porta do banheiro.

Eu já estou vacinado. Sempre escolhi uma das primeiras poltronas, mas acabo indo para o fundão. O meu problema é que gosto de ler e o pessoal da frente via de regra dorme a viagem toda. Aqui no fundo também fico livre das pessoas que poderiam pensar “o que este louco está escrevendo no notebook?” (como faço agora).

O problema é o cheiro nauseante que irrita as narinas vindo do banheiro. Ou ainda as pessoas que se entopem de água e se desentopem no banheiro (em ambos os casos, passam pertinho de minha poltrona).

Mas a escolha também depende da qualidade do ônibus. No majestoso Catarinense (o melhor da categoria) é muito bom ficar na primeira fila, de frente para a janela do ônibus – a estrada vai correndo aos seus olhos e você nota as eventuais barberagens do motorista.

Outros ônibus, no entanto, são tão apertados que não importa a poltrona, vc vai se dar mal (no avião também é assim, mas já falo dele). Agora, por exemplo, quase não tenho espaço para abrir meu mísero notebook de 13 polegadas. A mulher da frente desceu a poltrona das minhas pernas e por pouco me incapacitou para sempre de ter filhos.

Paradoxo, na viagem da semana passada, de novo Garcia, o espaço entre as poltronas era tão grande que eu não alcançava os pés no chão. Pensei: ou minhas pernas encolheram ou este ônibus está de brincadeira comigo.

No avião é sempre janelinha, claro. Gosto de ver a paisagem descortinando do lado de fora e, apesar dos inúmeros vôos, sempre acabo encontrando coisa nova. Ainda me lembro do trovão que iluminou o céu e deu origem a esse blog (vide primeiro post) e gosto de ver Guarulhos ardendo em chamas quando o avião decola – a iluminação amarelada é muito bonita.

Quando chego em Foz, reparo as luzes e a falta delas, reflexo do imenso Parque Nacional do Iguaçu, do lado esquerdo, e do Rio Paraná terminando na Hidrelétrica de Itaipu, do lado direito.

Ainda no avião, há a opção de pegar as poltronas da fileira central, normalmente 11 e 12, bem em cima da asa. Ali, na saída de emergência, o espaço entre as poltronas é bem maior, mas as poltronas não inclinam. Se bem que, em considerando as outras poltronas, a diferença é mínima.

Crianças

Estou escrevendo meio a esmo, mas depois vejo o que saiu. Na verdade o combinado era falar de poltronas e crianças e é o que estou fazendo. Vamos ao segundo tópico.

Se tem uma coisa que não combina é viagem e criança. Mas algumas pessoas ainda insistem nesta mistura perigosa. Não sei se já disse, mas além dessas viagens semanais para Campinas, diariamente eu faço de van o trecho Medianeira – Foz do Iguaçu (acumulado de duas horas por dia – minha vida se passa sobre quatro rodas). Nesta viagem, uma mulher leva todo dia o filho pequeno para a creche, em São Miguel do Iguaçu. Judiação do piazinho que estranha sempre que entra na van cantando seu choro fino. A mulher vai se mudar para SMI e evitar tamanho martírio diário.

Nos ônibus já cruzei com várias dessas pequenas criaturas, desde as que abrem berreiro, passando pelas de estômago fraco e chegando às comportadas que seguem viagem como gente decente.

Uma vez no vôo da TAM, um moleque gritava descabidamente na poltrona de trás. Os pais, um de cada lado, pediam pelamordedeus para o moleque parar, mas ele não parava. Inúmeras vezes pensei na falta que faz um bom chinelo. Cheguei a encarar feio o moleque, quando os pais não estavam olhando, mas não surtiu efeito.

Na viagem atual a menina se calou. Dorme de maneira cândida no colo da mãe – a mesma que desceu sobremaneira a poltrona sobre minhas pernas.

Em outra viagem, acho que a ida da semana passada, a mãe insistia que a filha tinha que ir ao banheiro e toda vez que levava a moleca, ela soltava um grito no meu ouvido fazendo-me acordar de sopetão achando que o ônibus tinha batido. Não sei se xingo ou agradeço. Talvez não fosse a insistência da mãe, a menina tivesse melecado o ônibus com vômito, a pior marca que essas criaturas podem deixar em uma viagem. E por causa de um último grito agudo, eu acordei já na rodoviária de Campinas.

O ônibus segue seu rumo, lotado de crianças (acabei de perceber que lá na frente tem mais duas pequenas). Mas a dona da festa é a menininha negra, do banco de trás. Ela grita mesmo, sem pudor ou compaixão. E a mãe passa incólume, a safada.

Mais do que os gritos o que me irrita em crianças são os pais delas. Já parte da semnoçãozisse de carregá-las a tiracolo em viagens de mais de 15 horas. Depois, tem uns mais espertos que adoram entupir as crianças de comida nas paradas de ônibus. Algumas vezes já previ o óbvio: passei por um pai que entupia a criança de comida na parada. Dentro do ônibus, alguém empesteou o ar com o salgadinho gorduroso que revoltou até o meu estômago. O que dizer do estômago frágil, estufado e sem freios sociais da criança? O resultado é desnecessário dizer.

Deve ter mais o que falar sobre poltronas e crianças, mas não gosto de ficar escrevendo assim a torto e a direito. Mais tarde voltamos a nos falar. Devo algumas explicações aos amigos leitores, mas isso fica para os próximos rascunhos. Até lá.

PS: no fim da viagem, a mãe da menina negra levou a filha ao banheiro – choro insuportável por uma boa meia hora. Mais tarde, a onipresente criança tomou conta do espaço sonoro por quase uma hora. Uma hora de choro alto, manhoso e irritante. Eu mereço.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Fim de viagem

O começo e o fim parece se encontrar nesta minha última viagem. Estou escrevendo do notebook, aproveitando a rede Wi-Fi da Caprioli, na nova rodoviária de Campinas. Tudo novo, rodoviária de primeiro mundo. Estranho ter dado tempo para conhecer esse novo point de encontros e desencontros dos viajantes. A rodoviária ainda não opera para os ônibus de linha, somente para a Caprioli. Por toda parte ouço som de furadeiras, martelos e máquinas de grande porte. Senhoras da limpeza dão os retoques e um quiosque faz as vezes da Praça de Alimentação, que vai abrigar, pelo que vejo, redes como Spoleto, Montana Grill, Bob's, etc.

Daqui do novo, do que sequer foi estreado, parto para minha última viagem de volta. Não gostaria de ser piegas, mas impossível evitar o tom nostálgico. Hoje no Labjor abracei meus colegas, muitos pela última vez. Estranho abraçar um amigo com a certeza de que provavelmente nunca mais o verei (isso já aconteceu outras vezes, sei como é).

Ainda não engoli bem essa idéia de fim do curso. Na verdade, vai demorar um pouco para digestão tamanhas são as preocupações para os próximos dias. Sabe, é como se não tivéssemos tempo para sentimentalismo. Mas uma hora isso aflora. Conto pra vocês.

Agora vou procurar a plataforma onde pegarei o Caprioli. Prometo outros textos sobre o fim das viagens e contar uma novidade. Até daqui a pouco.

Última viagem

Última poltrona do ônibus, último suspiro de paciência, último sopro de vontade, última viagem. Faço mais uma vez o trecho Medianeira – Campinas a bordo do controverso Garcia. Segunda tem aula do Labjor, a última. Após um ano e meio de curso, e meio ano de viagens absurdas, faço a última para concluir a pós. Não significa que nossa relação aqui nos Rascunhos tenha chegado ao fim - o que é tema para outros tópicos.

Toda viagem tem a sua história, seus personagens. Cada um desses meus companheiros de ônibus deve ter seus próprios relatos, dilemas e rascunhos. E aqui, entre mais de 40 poltronas, é uma honra assumir a baqueta de suas história.

Há senhoras velhas, como aquela da poltrona 1 que não quis descer do ônibus para saborear o café da manhã do caríssimo Graal. Há também crianças, como essa pequena criatura duas poltronas atrás, que ficou uma meia hora chorando sem os cuidados da mãe (o que volta a fazer agora). Haja fôlego.

Muitas conversas ocorrem dentro de um ônibus. As pessoas podem falar de trivialidades ou comentar sobre a depressão na qual entrou uma senhora após perder o marido. “Isso acontece muito”, afirmou a mulher na poltrona da frente. Podem apenas puxar uma conversa ou falar de temas grandiosos.

Um ônibus é o palco para uma miscelânea de sensações. No ar misturam-se os aromas químico do banheiro, agradável do perfume do cara aqui ao lado e, claro, gordurento, dos salgados que certas pessoas insistem em trazer para o interior do carro.

Os sons variam. Os “buá, buá” escandalosos de crianças mimadas, os toques de celular mais inusitados, o barulho que o ônibus faz ao passar pelos olhos-de-gato no centro da pista, as conversas cá e acolá.

Ainda aqui dentro, os rostos são também variados: a velha senhora, a família negra, o estudante, o casal gordo e outro casal em que a mulher é muito mais bonita que o cara. E a diversidade também ocorre lá fora, nas inúmeras paisagens que se descortinam janela afora. A noite, a lua cheia guardou essa viagem. Agora de dia e já no estado de São Paulo, plantações de pinus tomam conta da vista.

Há também comportamentos e comportamentos. A criança chorona, a mãe descuidada, a mulher que desce a poltrona nas pernas do cara de trás que escreve em seu notebook, o rapaz que ronca ao lado ou o outro que come salgado bem pertinho. Mas há também o sorriso franco da moça gorda e da senhora sem fome, ou a gentileza do rapaz que cedeu a poltrona para as amigas sentarem juntas.

Tudo isso em uma única viagem.

Viajar de ônibus é como ter aulas empíricas de sociologia (quando terminei de escrever essa frase, outra criança, esta de sorriso terno, passa ao meu lado) ou antropologia. É enriquecedor conhecer essa amálgama de histórias e, em alguns casos, fazer parte delas.

Já encontrei sacoleiros, viajantes, estudantes, trabalhadores, turistas, aventureiros, nacionais e brasileiros, gente da capital e do dos rincões mais distantes, pessoas sós e eternos amantes. Ou aqueles que simplesmente estão se deslocando de um lugar para outro.

Esta não é uma despedida, estamos longe disso, mas um agradecimento por vocês estarem juntos comigo a cada viagem. Volto em breve.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Parada de ônibus

Pela primeira vez escrevo direto de uma parada de ônibus, coisa da tecnologia. Tenho dez minutos para tomar esse meu pingado e escrever para vocês de meu novo macbook (e dando vivas à tecnologia Wi-Fi).

Hoje o dia foi bastante estressante. A mulher da venda das passagens disse-me que eu estava muito alterado. Pudera, havia largado 1500 reais na mão dela, parcelado outros milão e estava com as horas contadas para decidir minha vida. Por que comigo tem que ser tudo na correria?

Enquanto eu me irritava na agência de viagens, a mulher que me atendia parece que absorvia minhas angústias. Não sei se ela sofre de gagueira, mas estava completamente gaga quando me atendeu. Símbolo de meu nervosismo ou da minha má sorte? Coitada.

Então, de passagem quase comprada, voei para o shopping para me escrever nas conferências (em breve explico o que estou falando). Cheguei no câmbio e os malditos não operavam em coroas suecas (vê se pode). A gente fez um rolo para converter tudo em euros, deixei o pessoal nervoso, mais do que eu estava, larguei mais 900tão e ... perdi o horário do ônibus (que também não avisara que sairia da rodoviária velha).

Peguei o próximo ônibus e aqui estou. E se não correr perco o ônibus novamente.

Até.

Mordendo a língua

Ônibus Garcia, segunda metade da penúltima viagem para Campinas. Ando meio sumido, mas passei correndinho por aqui para rascunhar. Queria escrever sobre o morder de língua. Coisa rápida, prometo.

Há alguns dias venho falando mal da Garcia, empresa da qual peguei birra por oferecer carros ruins para longas viagens. Injustiça. Mas depois das últimas viagens, preciso rever alguns conceitos.

Antes, uma regressão. Vocês já conhecem a história em que peguei o ônibus para fazer a prova de vestibular na UFPR. Aquela família de bom coração que me deu carona para chegar a tempo de fazer a prova. O que vocês não sabem e que naquela mesma viagem aprontei outra das minhas: perdi o ônibus Ouro Verde (do grupo Garcia) que iria para Londrina. A empresa acabou me encaixando em outro ônibus e eu fui de leito, da Garcia.

Outro exemplo aconteceu na semana passada (viagem 14, ainda tem alguém contando?). Lá estava eu pegando mais um ônibus para Campinas. Reclamei e reclamei da qualidade dos ônibus para a mulher das passagens, mas mordi a língua. Doeu.

Quando deu o horário, apareceu o velho conhecido Top Bus da Garcia, aquele mesmo das viagens Medianeira-Londrina, nos idos do século passado quando eu fazia cursinho.

Dormi espichado em uma das primeiras poltronas umas 14h das 16 de viagem para Campinas - foi uma das viagens mas confortáveis neste vaivém doido a Campinas.

Agora, na viagem atual, ônibus portentoso da Garcia novamente. Dois andares, leito e executivo, coisa chique. E na poltrona 39, lá no fundão do ônibus, o carinha aqui dormiu a viagem toda, como um anjo.

Viagem de volta para Foz. Pela primeira vez faço a volta de ônibus, movido por um feriado em Foz do Iguaçu que me desobrigou de correr para o aeroporto. A passagem de volta já está comprada. A empresa? Viação Garcia, claro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sem tempo

Oi pessoal. O relógio da pós-graduação está com a corda quase no fim e tenho um monte de coisas pra fazer, não está dando para passar por aqui para rascunhar. Não por falta de assunto. O que falta é tempo.

Poderia contar sobre a chuva torrencial da última viagem de ida. O portal da cidade de Corbélia jorrando abundantemente a água acumulada, como uma cascata perdida em solo urbano. Poderia falar do oposto: fogo no ônibus! Calma, nada comigo, mas uma boa história que ouvi de um trio de falantes viajantes que iam para São Paulo.

Nesta conversa, sem enrolar, poderia comentar sobre um problema marcante em viagens: crianças pequenas. Choro, bater-de-pé, coisas dessa gentinha que não nos deixa dormir. Ou ainda, sobre escolha de poltronas em vôos e ônibus.

Posso ainda falar da mais nova aquisição que vai me acompanhar nas próximas viagens e otimizar essa nossa conversa online.

Mas não vou falar de nada disso. Adio nosso papo e quando puder volto aqui. Aliás, deveria estar terminando um trabalho.

Até breve.

terça-feira, 27 de maio de 2008

No aeroporto

E então uma grossa camada de neblina baixou sobre Guarulhos mudando os rumos das coisas.

Olá, ia escrever um post sobre o clima de aeroporto. Vejo que o blog está infestado de percepções sobre viagens de ônibus e poucas sobre os vôos. Então, em Guarulhos, comecei a rascunhar este post, mas o caminhar dos acontecimentos o levou para outra direção. Preferi colocá-lo aí embaixo na íntegra. Ficou um pouco longo, mas contei com a atenção imaginária de vocês enquanto escrevia, espero que possa contar novamente agora na leitura:


A infeliz mulher vestida de rosa, a falante latina, o grandioso grupo de chineses, mulheres com lenço na cabeça, homens gordos com camisetas de listras horizontais, rapazes em seus velozes notebooks. Estou parado em Guarulhos. O aeroporto está fechado por causa do mau tempo e meu vôo não tem previsão de saída (a mulher acaba de informar novamente no sistema de som que o vôo está retido). Sei lá quanto tempo fico aqui e, cansado de ler o livro de English grammar, rascunho algumas palavras.

Queria falar sobre esse microcosmo chamado aeroporto. Um lugar que, a exemplo do filme O Terminal com Tom Hanks, as pessoas transformam no próprio lar.

Daqui de onde estou vejo um homem espichado entre duas poltronas; dorme sobremaneira. O grupo de chineses acaba de passar por ele e voltam a tomar seus lugares. Falam alto e acenam. A mulher triste mantém a cara amarrada e encara uma criança. Ao meu lado, uma moça tira o notebook da mochila e começa a dedilhar e, na poltrona de trás, a falante latina fala sobre as belezas do Brasil. Ela deve ser argentina e seu interlocutor espanhol.

O olhar triste da outra mulher talvez seja reflexo de sua condição: ela vive sobre uma cadeira de rodas ( não que isso justifique caras amarradas. Tenho uma amiga cadeirante, a Dê, que é uma das almas mais alegres que jamais conheci). Já tinha visto a moça triste e sua família enquanto perambulava pela livraria Laselva. E já por lá ela mostrava na face os dissabores da vida.

A falante continua que é só sorrisos para o amigo espanhol. Falam sobre os modos de pronúncia do Brasil. Sim, ela é brasileira: comentou sobre o 'e' do Sul do país e o 'r' de São Paulo. O espanhol parece interessado e arrisco dizer que se o vôo atrasar mais um pouco a brasileira ganha esta fácil, fácil.

Os chineses também conversam, mas em seu idioma sinistro. Suspeito que não pertençam a apenas um grupo. Conheci há poucos o grupo menor, oito chineses jogando baralho em pleno aeroporto. A empolgação dos gringos chamou a atenção de quem passava por perto, inclusive a minha. Sentei ao lado e tentei entender a regra do jogo, mas não tive sucesso. As cartas têm caracteres chineses e os jogadores vão colocando uma sobre a outra sem qualquer sentido aparente. Ao menos não para mim.

O que percebi, no entanto, foi que os chineses, em sua maioria, são calvos e têm problemas de visão. Dos oito jogadores que fazem parte de minha amostragem, 100% são calvos e 72,5% usam óculos. Também usam camisas, cintos, calças tergal e tênis Nike.

A despeito do atraso dos vôos, o aeroporto parece bastante calmo. Sempre sinto no aeroporto esse clima inebriante. Caminhei há poucos entre passageiros no piso inferior. Vi olhares tensos, rostos cansados, pessoas debruçadas no braço das poltronas e outras honestamente estiradas no chão.

Outra partida se inicia entre os china. A falante mantém a aula de língua portuguesa e a triste mulher se encolhe entre duas poltronas. E no sistema de som, interrompendo o correr rápido de minha caneta, o cara anuncia que um dos quatro vôos foi transferido para o aeroporto de Campinas. Falta de teto em Guarulhos. "Londrina foi pro saco", satirizou um cara aqui do lado em referência ao vôo transferido para Viracopos. Falta saber o destino dos outros três...

(...)

0h32. Continuo no aeroporto. Estou ao lado da jogatina dos chineses. Esqueci de dizer: a mulher brasileira e o espanhol estavam no vôo para Londrina e seguem juntos de ônibus para Campinas. O destino deles agora está nas mãos de Deus... ou na lábia da brasileira.

Aqui atrás, um cara de cabeça raspada e boné vermelho falou ao amigo: "Vamos formar uma dupla e desafiá-los para o truco"...

DO SOM: "Passageiros do vôo 3557 com destino a Foz do Iguaçu, informamos que seu vôo sairá do aeroporto de Viracopos!"

Jogo o bloquinho na mochila e esta nas costas. Com o olhar me despeço dos chineses, das pessoas com seus notebooks, dos dorminhocos de Guarulhos, da moça triste que se encolhe na poltrona. Preciso pegar as malas. Volto a escrever de Viracopos.

(...)

Não teve jeito. Nós fomos mesmo um dos vôos selecionados e embarcaremos em Viracopos. Vim de Campinas até Guarulhos para agora voltar pra lá. Estou em frente ao aeroporto do Guarulhos esperando o ônibus. A chinesada também vai junto. A noite vai ser longa, mas a julgar pela companhia, deve ser animada. Volto em breve.

(...)

Aeroporto de Viracopos, 2h48. Pessoas apoiadas no braço das poltronas, outras plenamente dormindo. Notebooks abertos, rostos cansados, bocejos. Aeroporto é tudo igual.

Estou morrendo de sono e, ao menos para mim, essa brincadeira perdeu a graça. O pessoal se aglomera em um único portão, esperando os vôos. O homem gordo de camiseta de listras horizontais também está aqui e a chinesada não está para carteado.

É a primeira vez que piso em Viracopos e não pude analisar direito o aeroporto. Vi todas as lojas fechadas, inclusive a onipresente Laselva. Espaço amplo, perfeito cenário para as pessoas e suas esperas. Aeroporto é tudo igual. Mas ao menos uma vez na vida, a TAM vai ter que fazer um vôo Campinas-Foz.

Está acontecendo uma onda de reclamações lá na frente, vou ver o que é...

(...)

Avião da TAM, 3h passadas. Fui o primeiro a entrar. Acomodei-me na poltrona 21F, de modo que a asa não atrapalhe a minha vista (janelinha é fundamental). Não sei se são do mesmo grupo, mas alguns chineses sentaram-se ao meu lado. Desconfio que este pequeno grupo nem seja de chineses a julgar pelos traços (aliás, não sei nem se aqueles da jogatina o são). Vou perguntar para essa moça de camisa vermelha, óculos e olhos rasgados aqui do meu lado: "Are you chineses?". "No, corean", respondeu. Deveria desconfiar do sotaque com as palavras bastante acentuadas no final da frase (como o Jin e a San do Lost, ou todos do filme Old Boy). A moça riu e comentou ao colega ao lado sobre minha pergunta. Em coreano.

Agora faz silêncio na aeronave. Estamos naquela pausa entre a entrada das pessoas e o enfim levantar do vôo. Vou tentar dormir e talvez pela primeira vez recuse o lanche da TAM (nada de suco de manga para mim). Talvez. Bastante cansado, despeço de vocês que me acompanharam até aqui. E com uma instantaneidade tabajara, posto tudo no blog quando enfim chegar em casa.


Postado depois:

Cheguei na casa do Flávio às 5h50 da manhã. Dormi meia hora e tive que levantar para ir ao trabalho. Sono acumulado. Não aguentei e tomei o suco de manga da TAM. Sou um vendido. Só agora concluo o registro, publicando este post, e agradeço a todos que chegaram ao final dele.