terça-feira, 9 de julho de 2013

Dia 19: Vesúvio e eu

Dia curto. Dia longo.

Décimo nono dia na Itália (05/03). Dia curto. Estou cansado de caminhar. Os pés, os tornozelos dóem de verdade. Vou dar um descanso para eles. Mas o décimo nono dia começou com um café da manhã. Foi um dia meio deprê. Quando cheguei ao hostel achei que ia entrar naquele clima de hostel. Adoro este clima. Conhecer pessoas diferentes, de outros países, outras culturas. Mas ou eu esteja pouco receptivo ou esteja com má sorte. Na festa, no noite em que cheguei, fiquei mais perdido que pinto em galinheiro errado (gostaram? acabei de inventar). Fui dormir para acordar cedo.

Café, estava falando sobre isso. Fui o primeiro a tomar café, fiquei ali, chegou um grupo de franceses que sentaram ao lado. Fiz minha torrada, meu cereal, meu café aguado. Aí chegou um cara puxando papo em inglês, pedindo se podia sentar à mesma mesa. Eu falei que estava de saída. É, eu não estou sendo receptivo.
 

O chovisco e o cartaz mostram a sina de quem viaja sozinho

Bem, o dia era de Vesúvio. Arrumei minhas trouxas e fui pegar a Circumvesuviana, a linha de trem que circunda todo o Vesúvio. Parei na cidade de Erculano, no trem, sempre buscando alguém para conversar. Nada. Peguei o tour, uma família, uma mulher e um china. Fiz a subida toda sozinho, olhei lá dentro na cratera. Foi interessante ver um vulcão que eu sempre quis conhecer. Mas sozinho?

Dia de neblina na subida do Vesúvio

Nunca tive problemas em fazer as coisas sozinho. Na verdade me dou bem comigo mesmo. Se fico muito tempo com outra pessoa, a não ser que ela seja como eu (o Marcão, da viagem pela América Latina, por exemplo, ou o Juttel da outra vez que vim pra Europa), perco a paciência. Gosto de tomar as decisões por mim mesmo. Quero ir pra cá agora? Vou pra cá agora. Não está no roteiro? Dane-se.


A cratera do Vesúvio. E eu sozinho

Mas tanto tempo viajando sozinho perdeu um pouco de seu glamour. É chato estar do alto de um vulcão histórico, que soterrou cidades inteiras, sentir a emoção de ver os gases saindo, a cratera e tals. E não comentar com ninguém. Resumo da Ópera: tem horas que viajar sozinho é um saco. Tem horas que não. Fico falando sozinho, curtindo meu momento, minhas piras. Fazendo minha viagem. Mas em outras, faz falta alguém para papear.


Por isso que, ao chegar ao sítio arqueológico de Erculano, Patrimônio da Humanidade, não tive a menor vontade de descer para conhecer. Teria que pagar, pegar um audioguia, andar um monte. Para mim, bastam o Foro Romano e o Palatino. Vi o sítio arqueológico por cima e tchau e benção.


Grande Cão de Napoli, história criada pela mente de quem está há muito tempo sozinho

Voltei meio deprê para Napoli, mas pá, me animei de novo. Peguei o metrô para chegar ao porto. Perguntei e me falaram que é longe, uns três quilômetros. E lá isso é longe pra mim. Andei. Andei, andei e andei. Desviei de cocos de cachorros e de lixos na rua. É uma tradição local. Ouvi a sinfonia de buzinas que não acaba nunca nesta cidade. Encontrei o Grande Cão de Napoli [piada interna]. Contei os barquinhos mil, que entopem a vista do mar. E continuei caminhando. Até que resolvi perguntar de novo. O porto era do outro lado. Os tais três quilômetros tinham virado nove.




Pois bem, voltei. Andei tudo de novo, vi um senhor estranho catando água do mar e me vi, velho e louco, com minha coleção de águas. Alguns caras me pedirarm trocados, outra tradição local. E começou a chover, pasmem, outra tradição. A sombrinha comprada em Verona, providencial, não impediu que eu ensopasse meu tênis e a barra da calça. Mas cheguei ao porto. E comprei o bilhete para Palermo. Teria, no outro dia, uma noite toda viajando de barco, nada de luxo, nada de glamour, nada de romantismo. Um banco, ruim como os de trem, para passar a noite e chegar moída em Palermo. Ao menos custou relativamente barato.




Para voltar para casa, busquei o mapa, sempre no bolso traseiro esquerdo (minha regra 1 de viagem, aliás, a única regra). Bati umas coordenadas, perguntei aqui e ali, comprei uma Fanta, enfrentei a frenética Via Toledo com suas lojas de roupas baratas (só não compro pq se coloco mais uma pena na mochila, fico na Europa). E peguei o metrô de novo. Aqueles mil lances de escadas rolantes e estava no hostel. Festinha de aniversário, eu cansado. Tomei um banho e fiquei mexendo no computador, ajustando alguns parafusos da viagem. Fiz amizade com ninguém...

Dia 18: Moisés completa a trindade de Michelângelo

Décimo oitavo dia na Itália (04/03). Gente boa o Lorenzo. Francesca também, sempre radiante, com um sorriso contagiante. Fala rindo, e se mostra interessada pelo que você diz. Me despedi dela com dois beijinhos e cobrando uma visita ao Brasil. Então fui de carona com Lorenzo ao mesmo ponto de trem, perto do trabalho dele. Lorenzo trabalha em uma empresa que fiscaliza o consumo de energia elétrica. Foi o que entendi. Mas é ator nas horas vagas. Assisti a seus testes, interessante. Ele é do tipo charmosão, bonito e alto, e sempre se despede levantando o canto esquerdo da boca e piscando de leve o mesmo olho.

Para fechar a trindade de Michelângelo, Moisés, na pequena chiesa de San Pietro in Vincoli

Nos despedimos e peguei o trem. Vim conversando com um jornalista de teatro. Falei de Lorenzo. Depois peguei o metro para a estação, deixei minhas bagagens e fui bater perna. Dia rápido, só corrigir algumas faltas. Como a de não ter ido até então a chiesa di San Pietro in Vincoli, onde está a estátua de Moisés, a terceira da trindade de Michelângelo (Moisés, Davi, Pietá). Bela. A igreja também, pequena e sem fachada de igreja. Ali perto, a Santa Maggiore, com teto quadrado. Belíssima.


A belíssima Santa Maria Maggiore

Continuei caminhando, alcancei o bom e velho coliseu e fui pegar a água do Tevero. Passei pela Boca Della Veritá e uma fila para colocar a mão dentro. Necas. Descansei às margens do Tevero, vendo uns pescadores. Coleta da água, pensei que era hora de ir de vez. Ia pegar o trem das 16h42, mas adiantei em duas horas. Corri para a estação olhando para tudo como se fosse a última vez. Diz a lenda que, se joga a moeda na Fontana di Verdi, você volta a Roma. Nunca se sabe.

A Boca Della Veritá. Passei duas vezes por ela, mas não coloquei a mão em sua boca.

Na estação usei o banheiro e comi alguma coisa. Um brioche de chocolate, como sempre. Busquei a passagem e fui esperar o trem. Consegui um lugar no último vagão. Senhora simpática conversando comigo e me dando de comer, hehehe. Ela me fez experimentar um negocio que parece uma cebola, mas tem o gosto suave. Interessante. Na janela, o mar começava a aparecer. Estava meio aflito em chegar a Napoli, cidade de mafiosos, do sul, mas feia e desorganizada.


Fim de dia em Roma, vendo italianos pescarem no Rio Tevero.

Que nada, fui bem tratado nas informações turísticas da estação. Peguei metrôs organizados e agora estou aqui no hostel. Faz um pouco de frio, é certo, mas vou poder tomar um banho quente e jantar com o pessoal daqui. Amanhã, conheço Napoli, depois a costa Amalfitana e, por último, o Vesúvio. Tô vendo que a Grécia vai ficar para próxima.

Ufa, três dias em um e-mail. Se tivesse a mesma frequência para escrever meu blog, ele seria um sucesso.

Beijo a todos que chegaram até aqui. E abraços a quem ficou pelo caminho. Amo vocês,
Murilo

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Dia 17: a criação de adão

Décimo sétimo dia na Itália (03/03). Fiquei mais tempo na cama, estava cansado. Deixei o Lorenzo sair e fiquei me enrolando. Era um dia especial, dia de voltar ao Vaticano e ver a Capela Sistina. Foi o que eu fiz, meio tarde, depois das 10 e pouco, fui pegar o ônibus para o Vaticano. Sabia de cor, primeiro o 301 até a Ponte Mílvio e depois o 32 para Piazza do Resorcimento. Caminhei para o museu, estava com fome, não tinha comido nada. Mas fui ao museu ainda assim.


O museu é enorme. Na verdade são museus. Tem um egípcio bem completo, com estátuas egípcias interessantes, múmias e papiros. Com o audioguia fiquei perdendo algum tempo ali. Depois tem museus de estátuas, um jardim das estátuas, a sala das musas, outra sala de mapas, outro de arte sacra. E por aí vai.



O negócio começa a esquentar quando vamos andando por áreas onde eram quartos papais. Tem a sala da assinatura, onde está a obra mais famosa de Rafaello Sanzio, A Escola de Atenas. Um afresco belíssimo (pude filmar e bater foto) mostrando os grandes pensadores, filósofos de todos os tempos. Mostrando bem a cultura do Renascimento, valorizando a razão. Na parede oposta, tem uma outra obra muito bonita, A Disputa da Santíssima Trindade, mostrando a Igreja Triunfante (o céu) e a igreja participante. O Rafael manda bem. Em outra sala, a do Incêndio de Borgo, outros afrescos belíssimos de Rafael.


Então cruzamos mais corredores e, voilá, a Capela Sistina. Pequena, se comparada a outras igrejas que vi. Cheia de turistas, e de caras falando "no pictures", "no photos", "sssssshhh". Um saco. Com o audioguia fui vendo parte por parte das obras de Michelangelo. O estupendo Juízo Final, em azul, com os braços de Jesus mostrando o sentido de leitura do quadro, a disputa de anjos e demônios pelo céu. Sensacional.


Correndo o pescoço pelo teto da Capela, lá estão nove desenhos mostrando o livro do gênesis. Da criação da luz, passando pela criação do sol e da lua, a separação da terra em água e, a mais célebre pintura de todos os tempos: A criação de Adão (aquela em que Deus estica o dedo para tocar o de Adão). Emocionante. Segue-se A criação de Eva, o pecado original e três passagens de Moisés, do anúncio ao dilúvio. Nas paredes laterais, histórias de Jesus de um lado e de Moisés de outra, assinados por outros atores como Perugino e, pasmem, Botticceli.


A capela é linda, é a capela mais famosa do mundo. Mas eu estava farto, com fome e cansado. Saí do museu do Vaticano e fui bater perna. Ali pertinho, a mulher queria 5 euros em um panino, 8 se eu comesse ali. Estava com fome, mas não sou burro. Andei mais. Passei pelo castelo Sant' Angelo e depois pelo palácio da justiça. Cruzei o Rio Tevero de novo em direção à Piazza Navona. Parei em um restaurante, pedi uma pizza marguerita. Enorme. Comi com Coca-Cola. A dor de cabeça passou.


Matei mais um tempo na Piazza Navona, tomando sorvete e vendo os pintores fazerem seu trabalho. Experimentei um tal Tartufo, em uma sorveteria onde, no dia anterior, havia conversado com uma brasileira de Rondônia. Ela não estava lá. Caminhei em direção à piazza Venezia, em busca de ônibus. Havia marcado às 20h com Lorenzo e Francesca, iríamos à casa de um amigo dele. Caminhei um monte até achar o terminal. E depois para pegar o ônibus correto. E depois esperar o ônibus sair, dar um giro pela cidade toda até a capodelinea na Via Marcini. E mais um outro ônibus para via Cássia. Quando estava chegando a casa, eles já estavam no carro.


Foi bacana jantar o meio da italianada. Vinho, alcachofra frita (tradicional de Rama), mussarela de búfula, alguns salames. Fiquei conversando com Lucca sobre música brasileira. Ele é veterinário e toca saxofone (lembrei da Bruna na hora). Depois comemos um (não lembro o nome da pasta) ao pesto, um molho verde bem bom. Me despedi do pessoal, romano dá dois beijinhos no rosto, tanto homem como mulher. E fomos para casa. Dormi para acordar em meu último dia em Roma.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Dia 16: praças e ruínas em um dia de andança

Escrevo de um hostel bem bacana em Napoli. Eu adoro hosteles. Cheguei aqui cansado e o cara foi bem receptivo, fala em português e me deu um monte de dicas sobre a cidade. Vou ficar mais tempo que esperava. Mas voltamos um dia no tempo.

Um dia de andança sem rumo por Roma

Décimo sexto dia na Itália (02/03). Peguei o dia cedo para fazer pequenas coisas. Fui de carona com o Lorenzo até uma estação de trem para baixar na Piazza del Popolo. Dia quente, de sol. Pessoas por ali andando, ou sentadas próximas aos leões no pé do Obeslisco. Caminhei pela praça e sentei para tomar um caffé machiato com una brioche. Fiz meu plano de passeio do dia, o primeiro passo seria conhecer a chiesa de Santa Maria del Popolo, Pequena, mas muito bonita, cheia de capelas. Em uma, de graça, duas obras de Caravaggio, Conversão de Saulo e Crucificação de Paulo. Belíssimas.


Chiesa Santa Maria del Popolo e o Obelisco na Piazza del Popolo 

Mas o dia prometia mais. Passei pelo Mausoléu de Augusto, onde tem uma fonte bacaninha, depois fui em direção a Piazza Venezia, caótica como sempre. Estava me enrolando, passei pela Piazza Spagnia antes, onde tem uma belíssima escadaria com uma igreja lá no alto. Subi, tomei um sol, descansei. Voltei a caminhar, agora sim, para o que interessava: o foro romano e o palatino.


A linda Piazza di Spagina e La Fontana di Trevi, ambas à luz do dia

Perdi algum tempo por lá. Tentando entender o que a mulher do audioguia falava. Mostra onde os romanos trabalhavam, seus tribunais, e suas casas. Muito interessante, ruínas sobre ruínas, mas dá para ter uma ideia, mínima ao menos, de como era. Fiquei um bom tempo por lá, mas estava com fome. Dei a volta no Foro, passei pela frente do Coliseu de novo, e fui até a praça Boca della Veritá. Tem uma cabeça com uma boca onde todo turista bota a mão. Não fiz isso. Cruzei a ponte Palatino, estava cansado. Caminhei mais um pouco até a Piazza Navona, onde está nossa embaixada e a fonte dei quatri fiumi. Fiquei um tempo lá.


Tempos antigos. Ruínas e mais ruínas no Foro Romano e no Palatino

Piazza gostosa, cheia de artistas, músicos e pintores. Tomei um sorvete, e fiquei ouvindo uma cantora cantar em francês no meio da rua. Bello. Sentei-me em uma mesa no restaurante da frente e pedi um spaguete óleo e pimenta (eu tinha me esquecido como era pimenta em italiano e pedi sem saber. Estava forte que era o diabo). Comi ouvindo a cantora.

A noite, a caótia Piazza Venezia (de perto, o monumento nem parece tão caótico)

Aí corri andar. Tinha marcado com o Lorenzo em outra parte da cidade, mas com meu mapa mágico no bolso, faço tudo. Sai batendo perna, cruzando via Vitorio Emanuelle, passando pela Piazza Venezia a noite, dando a volta e chegando ao Coliseu, onde fiz algumas fotos noturnas. Aí, fácil, via Cavour e já estava onde tínhamos combinado. Compramos uma cerveja local e ficamos jogando conversa fora. Ele tentando falar: "Leite quente faz mal para o dente da gente". Impossível.

Colosseo a noite. Igualmente lindo

De carro, fomos encontrar Francesca, a namorada de Lorenzo. E jantamos em um restaurante mais ou menos. Eu comi o antepasto, um monte de verduras, queijos e legumes, e depois um nhoque. Estava farto. Aí paguei a conta para nós três, o mínimo que poderia fazer por quatro dias de hospitalidade do casal.

Voltamos para a casa. Era noite e eu estava cansado. No outro dia teria uma visita diferente para fazer.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dia 15: pão e circo

Ciao Bello


Decimo quinto dia na Itália (01/03). Texto rápido, estou indo dormir. Hoje foi dia de Coliseu. E de ônibus. Peguei um qualquer para Ponte Mílvio e de lá fui apé até o centro histórico. E como andei, pela via Farmina. O centro é bacana. Começa com a Piazza del Popolo e suas várias igrejas. Um obelisco bem no meio e fontes dos dois lados. Depois, a caótica Piazza Venezia, com o Vitoriano, um templo gigantesco em homenagem a rei Vitorio Emanuelle II. Ele sobre um cavalo, estátuas representando as regiões da Itália. Lindo.



Ali já é a boca da história. Atrás tem o Campidólio, o Foro Romano e o Palatino. Sítios arqueológicos a céu aberto. E o majestoso Colosseu, no final. Peguei um guia eletrônico e fui ouvi histórias sobre o Anfiteatro Flávio, construído entre 70 e 90 d.C., quando esta família mandava por aqui. Na época de Nero foi construída uma estátua gigante ao imperador. O colosso tinha quase a altura do anfiteatro e deu o apelido ao coliseu. Mas nas guerras, derreteram a estátua de bronze para fazer armas.


O coliseu tem vários arcos, o maior só permanece na face norte. É aquela parte maior, depois da quebrada. Ele resistiu a dois terremotos, que derrubaram os arcos maiores. Mas quando a Igreja Católica começou a construir igrejas em Roma, depredaram o coliseu: pegaram o mármore caído para levantar, entre outras, a Basílica de São Pietro. Um papa tornou o coliseu cristão, encerrando a depredação. Uma cruz está lá até hoje.



Dentro é magnifico.  Dá para ver bem as diferentes zonas na arquibancada, designados aos diferentes públicos e diferentes camadas da sociedade. O imperador ficava na boca do palco. Depois viriam os senadores, e assim por diante até chegar aos plebeus livres e às mulheres. Sim, elas eram consideradas a parte mais baixa da sociedade e ficavam isoladas para serem lembradas disso (com exceção da imperatriz e das esposas dos senadores). A entrada era free, tinha comes e bebes e tal (daí a expressão "pão e circo"). Tinha ingresso, com numerada, área de entrada. Como num campo de futebol. E no teto, uma estrutura permitia içar uma enorme tenda cobrindo o coliseu em dias muito quentes ou de chuva branda.


As batalhas aconteciam na arena, que era feita de madeira e tinha areia em cima. Eram homens e animais. Hoje, vemos o subterrâneo da arena, de onde vinham os animais ou objetos cenográficos, para o palco - era içado por roldanas, invenção egípcia. Dos animais, quanto mais exóticos, melhor. Imaginem a primeira girafa? Eles provocavam briga entre animais, ou caça dos animais, animais contra homens e homens contra homens. Próximo ao coliseu tinha a escola de gladiadores, que recebia os corpos (vivos ou mortos) dos homens e animais, e onde ficavam armas e cenografia. Se um guerreiro lutasse bem, mas perdesse a batalha, o público poderia dar clemência, acenando com lenços brancos. Ou mandar matar, gritando algo como "jugular". O imperador dava a ordem do público, com o dedo para o lado se fosse matar.

Os gladiadores poderiam fazer fortunas, com o que ganhavam nas lutas, e construir suas próprias escolas de gladiadores. Poderiam ter carreira sólida, como os jogadores de futebol.


O coliseu é muito interessante e inspira história, embora o monte de turistas. Amanhã vou ao Foro Romano e ao Palatino. Hoje ainda fui ao Pantheon, criado inicialmente como templo de adoração de deus pagãos, mas que depois virou igreja. Lindo, com uma abertura no meio. Tem a praça Navona, onde está a nossa embaixada e a fonte dos quatro rios (Gange, Nilo, Plata e Danúbio), mas ela estava cercada - malditas reformas.


Terminei o dia na famosa Fontana di Trevi, da qual eu sempre falo. Lindíssima. Em uma igreja pertinho fiquei descansando e meditando, aí passou um piazinho brasileiro gritando pra a mãe: "Mãe, me dá um euro!" É a nossa classe média do Brasil ficando mais chique.


Por hoje é isso, beijos para vocês,
Murilo

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dia 14: a voz do papa

Duas semanas na Itália (28/02). Um dia católico, com direito à missa do Santo Padre. Acordei, arrumei minhas coisas e bora bater perna. Difícil se locomover por aqui. Um tempão esperando o ônibus, mais um tempão esperando outro. Mas vá lá, paciência, fiquei no aguardo. Conversei com uma velhinha romana no ônibus, que me deu as dicas para chegar ao Vaticano. E lá cheguei, tinha uma fila enorme para o museu, então fui direto à Piazza San Pedro. Enorme e cheia de gente. Interessante entrar na Cidade do Vaticano, com status de outro país. Vi a guarda suíça, com aquelas cores engraçadas, as bandeiras amarela e branca do Vaticano e, claro, o Papa.

O papa é pop. E aparece todo domingo nesta janelinha

Mas, antes, a Basílica de São Pedro, linda vista de frente mas ainda mais exuberante por dentro, e o obelisco no centro da praça. Fiquei matando hora até que, no meio dia, o Papa deu as caras. A missa dele é bem gostosa, ele com a voz tranquila falando em italiano. No final, agradece a presença de todos e diz que está orando por cada povo. Ele citou os chilenos e, só a noite eu fui saber do terremeto que teve por lá. Abençoei alguns terços que estou levando para o Brasil.


A legião de fãs do Papa, na Piazza San Pietro

Aí caí na fila para conhecer a Basílica. Comprei um áudio-guia com a explicação de toda a igreja, mas não tenho muita paicência para ouvir tudo. Vi, na entrada, a Pietà, outra escultura famosa de Michelângelo. Belíssima. Mostra Maria de rosto cândido com Cristo morto no colo. Muito lindo.


Pietá, de Michelângelo

A igreja é a mais bela que eu já vi. É enorme, como se fossem várias igrejas no interior de uma. Capela para isso, capela para aquilo. Túmulo de rainhas e santos. O altar, magnífico e enorme. Na parte de baixo, as tumbas de vários papas, entre eles, o Papa João Paulo II, o túmulo mais visitado, e os restos mortais do apóstolo Pedro, o pai da Igreja Católica.


Uma das várias cúpulas da Igreja das igrejas

Da Basílica fui ao museu, que estava fechado. No começo da manhã a fila era tão grande que contornava o Vaticano, é que no último domingo do mês, a entrada é gratuita. Eu não fui, nem daria, senão não veria o papa. Mas preciso ir lá, embora tenha que desembolsar 15 euros. É no museu que está a Capela Sistina, com os afrescos de Michelângelo, como a Criação da Adão, entre outros. Vou amanhã, quiça mais tranquilo.


Até logo, grande igreja. Hora de bater perna

Aí fiquei me enrolando. Dei uma volta aqui, e acolá, busquei na internet o endereço onde Lorenzo, meu CS de Roma, estaria. Ele é ator de teatro e estava ensaiando. Cortei parte da cidade com o mapa na mão e fui ver o ensaio de Lorenzo. Um drama interessante, achei bom ficar vendo e depois ouvir a crítica do diretor.



Lorenzo, o ator italiano, ensaiando para a próxima peça

Agora mangiamos uma pasta napolitana. Bem bom. Lorenzo e a esposa saíram para ver um amigo, mas eu preferi ficar em casa, me organizar para amanhã e tudo mais. Quero ver o Coliseu e La Fontana de Trevi, o Pantheon, entre outras coisas. E vamos que vamos que as férias estão acabando, hehehehe.

Beijos para vocês, vamos nos falando.

Murilo

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sábado. A ilha de Rober, Nacho e Vianca

No último dia, a chuva castiga Páscoa

Estava preocupado com os caras do camping. A chuva realmente castigava a ilha. Chovia forte, ventava. O mar estava bagunçado. No dia anterior, me despedira de Páscoa e sabia que não faria mais nada. Queria inventar alguma coisa com João e Daniel e, embora tenha acordado tarde, fiquei na varanda esperando eles saírem das barracas enquanto eu lia Tima Maia e tomava café.



Olhava para as barracas e via a chuva, as árvores se encurvarem e as ondas brancas castigarem as pedras negras. O mar trocara o azul turquesa por um cinza melancólico e  esta seria minha última visão da ilha. Deu 11h e me toquei que os caras não estariam mais no camping, com aquele vento açoitando as barracas. Coloquei a bota, a calça e a capa e fui ao centro. Recebi a gentil carona de Roger, marido de Marta, os donos do hostel, e fui à feira de artesanato. Tudo que economizara até então seria gasto na feira.

Uma semana de economia para queimar tudo em presente na Feira de Artesanato

Comprei os presentes, aff, pechinchei, conversei com vendedores e fiquei aprendendo sobre a cultura local. Cada ítem cheio de significados, talvez para justificar a compra de uma máscara por um preço tão alto. Não tinha o que fazer, lá fora seria recebido pela chuva. Preferia o sorriso, alguns interesseiros outros sinceros, dos rapa nui na feira de artesanato.

Comida boa dos chilenos. E eu fiquei com aquele peixe cru no Kalimara...

Mas ficara tempo demais e resolvi almoçar, de novo no meia-boca restaurante Kalimara só para usar o wifi. De novo não adiantou, meu iPhone não trabalhava, a batata frita estava murcha, o pescado meio cru (não era ceviche). Rober me escrevera por WhatsApp que ele e a trupe estavam em um restaurante melhor. "Pra que serve o CouchSurfing senão para orientar em quais restaurantes comer”, me chamou a atenção Rober.

Rober, Nacho e um doido com a roupa do ariki, o rei rapa nui

Saí do Kalimara e me juntei aos amigos. Meus grandes companheiros de viagem, Rober, Nacho, Vianca e a pequena Amanda, sempre com seus sorrisos, estes sinceros, prontos para me oferecer algo e me surpreender. Comi uma torta de limão enquanto eles almoçavam deliciosos pratos com peixes e camarão. Pensei na batata-frita insosa, droga! Tiramos fotos, rimos. Fiquei sabendo que Lev, o "mãozinha", tinha ido às pressas a um hospital de Santiago (era alguma coisa no rim), mas estava bem.

Nacho e Vianca, pais de Amanda, uma das famílias mais bonitas que eu já conheci

Nos separamos novamente, fui ao hostel e encontrei os brasileiros. Mais bate-papo, agora no hall, sempre com a Escudo na mão e o canadense Chris sem entender nada de nosso português. Decidimos sair, tomar chuva, comprar algumas coisas na feira e algo para comer. Matamos empanadas, cuecas viradas e um misterioso salgadinho de sabor indecifrável enquanto o quarteto de canadenses comia completo (cachorro-quente) só com uma salsicha bizarra. Zoavam de nosso salgado e falavam da salsicha que dobrou de tamanho na panela. Clima de hostel.



Por WhatsApp, Rober, de novo, me convidou para comer sopaipillas na casa de Nacho e Vianca. Peguei a capa e caminhei, a casa era quase vizinha ao Mihinoa. De novo aqueles sorrisos. Amanda sentadinha no sofá, Rober e Vianca fazendo as sopaipillas e Nacho cuidando de Amanda. Uma divertida despedida, eu tomando mais algumas goleadas no PES3 e ficando puto, Nacho arrancando algumas notas em duas violas, uma rapa nui outra hawaiana, e nós dois cantando para Amanda. Na mesa, Rober e Vianca esticavam a massa para fazer a sopaipilla, que depois seria frita e temperada com um molho doce. Nacho abriu um vinho e depois outro e me presenteou com um bom chileno de sua coleção e um livro sobre vinhos chilenos. Agradeci com um beijo no rosto.

 
Despedida de meus amigos, na casa de Nacho e Vianca. Vou sentir saudades

Nacho, Vianca e Rober me receberam da melhor maneira que alguem pode ser recebido. Melhor que me encantar com o nascer do sol em Tongariki, ou andar pela cratera verde do Rano Kao, subir o Terevaka ou caminhar pelos moais abandonados de Rano Raraku, melhor que a história da ilha e sua fabulosa natureza, com o mar azul se tornando branco ao encontrar as rochas negras, ou os coqueiros perfilados na polinésica praia de Anakena. Melhor que tudo isso, foi conhecer estes anjos chilenos, Rober, Nacho, Vianca e a princesinha Amanda. Foi me encantar com o espírito de generosidade destes novos amigos, foi ver uma familia linda e feliz, e aprender com eles muito que eu quero para minha vida. A Ilha de Páscoa é linda, mas as pessoas que vivem nela, rapa nuis, continentais ou gente de outros lugares, foi a melhor parte da viagem.