Havíamos sido recebido de outras formas por torcedores alemães e espanhóis. Muitos batiam em nossas costas ao ver a bandeira do Brasil e a camisa da Seleção, reconhecendo nossa superioridade, ao menos no futebol. E ao menos em épocas específicas. Outros olhavam com cara de desconfiança. Mas tive que concordar com aquele jovem bêbado alemão: o que estávamos fazendo ali?
O dia prometia quando pisamos em Viena, em 29 de junho. O centro ainda vazio não se parecia em nada com o circo que a capital austríaca se tornaria mais tarde. Era dia da final da Euro 08, Alemanha X Espanha.
Juttel e eu estávamos acompanhando o campeonato desde o Brasil. Fiquei puto por Portugal não ter se classificado (desperdicei R$ 20 em uma camisa do Cristiano Ronaldo). No aeroporto de Guarulhos, dia do embarque, vimos a poderosa Holanda também dizer adeus à Eurocopa.
Em Amsterdã encontramos pela primeira vez os irmãos latinos, no jogo contra Itália. “E viva Espanha”, estreamos o grito. Em Estocolmo, no Ice Bar, esquentamos o clima com um grupo de calientes espanhóis. Em Viena seria nosso último encontro.
Aos poucos as pessoas foram tomando conta da Alexanderplatz, a praça principal onde fica a belíssima Alexander Dom. Após nos instalarmos na cidade (ou quase, leia post a seguir), fomos curtir o clima de Eurocopa. Vimos o estádio da grande final, ao menos pelo lado de fora; notamos a movimentação da imprensa e outros sortudos com suas credenciais.
Mas precisávamos tomar nosso rumo. Após uma revigorante dormida em gramadão, tomamos metrô de volta ao centro da cidade. O destino era o da fanzone, no centro histórico de Viena.
A Alexanderplatz aquela hora estava apinhada de caras com roupas brancas e vermelhas. Aquela multidão de alemães e espanhóis gritava seus hinos entre os cartões-postais de Viena. Tão inusitado quanto conhecer a Berlim cor-de-rosa, foi ver Viena em dia de final. Sensacional.
A multidão seguiu seu rumo e fomos atrás. Passamos por castelos, estátuas, monumentos grandiosos. Os torcedores tiravam fotos entre as estátuas e duelavam no grito. Mas ficava nisso, sem violência, como tem que ser uma final de campeonato.
Chegamos à fanzone, tão grandiosa quanto o centro histórico. Ruas e mais ruas cercadas, repletas de telões, e mensagens dos patrocinadores. Uma loja de roupas gigante, com preços proporcionais, e muita, mas muita gente.
Prevaleciam os carinhas de branco, com aquele sotaque arranhado. Não vale, a Alemanha é ali coladinha de Viena. Juttel e eu andávamos aqui e ali, sentindo o clima local. Esperamos num gramadinho novamente, curtindo o movimento e sonhando.
Sonhávamos que estávamos entre castelos lindíssimos, sendo atacados por hordas de fanáticos. Mas não era sonho. Num palco, um show de rock repercutido nas dezenas de telões. O sol dava sua descida final, não fazia gracinha como na ensolarada Suécia. Prelúdio do espetáculo.
O jogo não foi o melhor do show, mas sim aquele sentimento de ineditismo. Tudo era interessante. Do casal alemão que lamentava o desempenho do time à família austríaca que estava ali só para torcer contra. Olhava para a tela, torcia, vibrava, mas sequer estava ali. Ainda sonhava.
Ao menos para Alemanha, o sonho acabou com um gol de Fernando Torres ainda no primeiro tempo. Fim de jogo, Espanha vibra. E nós que aprendemos a torcer pela Espanha, emprestamos nossa grito também. “Lá-lá-lá-lá-lá-lá... E Viva Espanha!” Ótimo.
A festa tava boa, estávamos superanimados, mas incrivelmente cansados. O dia corrido da Alemanha, a viagem mal dormida e o longo dia em Viena começaram a pesar. Um problema que estávamos procrastinando, de repente pula na nossa frente. Precisávamos acordar do sonho para encontrar um lugar para dormir?
História para o próximo post.



















