sábado, 3 de janeiro de 2009

Alemães, espanhóis e... brasileiros em Viena

O jovem alemão me cutucou o ombro e perguntou o que eu estava fazendo ali. “Assistindo ao jogo”, respondi. Mas por que da camisa do Brasil, tornou ele a questionar. “Porque eu sou brasileiro, oras”, sentenciei. Ele silenciou, desistiu do mim e voltou a atenção para o jogo. E viu a Super Deutchland perder a Eurocopa para Espanha.

Alemães em Viena. Eles tudo bem, mas e nós?

Havíamos sido recebido de outras formas por torcedores alemães e espanhóis. Muitos batiam em nossas costas ao ver a bandeira do Brasil e a camisa da Seleção, reconhecendo nossa superioridade, ao menos no futebol. E ao menos em épocas específicas. Outros olhavam com cara de desconfiança. Mas tive que concordar com aquele jovem bêbado alemão: o que estávamos fazendo ali?

Alexander Dom, no coração de Viena. Silêncio pela manhã

O dia prometia quando pisamos em Viena, em 29 de junho. O centro ainda vazio não se parecia em nada com o circo que a capital austríaca se tornaria mais tarde. Era dia da final da Euro 08, Alemanha X Espanha.

Juttel e eu estávamos acompanhando o campeonato desde o Brasil. Fiquei puto por Portugal não ter se classificado (desperdicei R$ 20 em uma camisa do Cristiano Ronaldo). No aeroporto de Guarulhos, dia do embarque, vimos a poderosa Holanda também dizer adeus à Eurocopa.

Em Amsterdã encontramos pela primeira vez os irmãos latinos, no jogo contra Itália. “E viva Espanha”, estreamos o grito. Em Estocolmo, no Ice Bar, esquentamos o clima com um grupo de calientes espanhóis. Em Viena seria nosso último encontro.

Juttel olha o estádio. Não é para nosso bico

Aos poucos as pessoas foram tomando conta da Alexanderplatz, a praça principal onde fica a belíssima Alexander Dom. Após nos instalarmos na cidade (ou quase, leia post a seguir), fomos curtir o clima de Eurocopa. Vimos o estádio da grande final, ao menos pelo lado de fora; notamos a movimentação da imprensa e outros sortudos com suas credenciais.

Torcida alemã ensaia os gritos da final

Mas precisávamos tomar nosso rumo. Após uma revigorante dormida em gramadão, tomamos metrô de volta ao centro da cidade. O destino era o da fanzone, no centro histórico de Viena.

Vermelho-amarelo por toda a parte

A Alexanderplatz aquela hora estava apinhada de caras com roupas brancas e vermelhas. Aquela multidão de alemães e espanhóis gritava seus hinos entre os cartões-postais de Viena. Tão inusitado quanto conhecer a Berlim cor-de-rosa, foi ver Viena em dia de final. Sensacional.

A multidão seguiu seu rumo e fomos atrás. Passamos por castelos, estátuas, monumentos grandiosos. Os torcedores tiravam fotos entre as estátuas e duelavam no grito. Mas ficava nisso, sem violência, como tem que ser uma final de campeonato.

Torcida em monumentos históricos. Viena nunca mais foi a mesma

Chegamos à fanzone, tão grandiosa quanto o centro histórico. Ruas e mais ruas cercadas, repletas de telões, e mensagens dos patrocinadores. Uma loja de roupas gigante, com preços proporcionais, e muita, mas muita gente.

Bem-vindo à fanzone! (link patrocinado)

Prevaleciam os carinhas de branco, com aquele sotaque arranhado. Não vale, a Alemanha é ali coladinha de Viena. Juttel e eu andávamos aqui e ali, sentindo o clima local. Esperamos num gramadinho novamente, curtindo o movimento e sonhando.

Refresco para o verão europeu. E para um bando de torcedores suados

Sonhávamos que estávamos entre castelos lindíssimos, sendo atacados por hordas de fanáticos. Mas não era sonho. Num palco, um show de rock repercutido nas dezenas de telões. O sol dava sua descida final, não fazia gracinha como na ensolarada Suécia. Prelúdio do espetáculo.


Castelo vienenese e futebol. Paixões locais

O jogo não foi o melhor do show, mas sim aquele sentimento de ineditismo. Tudo era interessante. Do casal alemão que lamentava o desempenho do time à família austríaca que estava ali só para torcer contra. Olhava para a tela, torcia, vibrava, mas sequer estava ali. Ainda sonhava.


Torcida alemã vibra, mas não deu pra eles

Ao menos para Alemanha, o sonho acabou com um gol de Fernando Torres ainda no primeiro tempo. Fim de jogo, Espanha vibra. E nós que aprendemos a torcer pela Espanha, emprestamos nossa grito também. “Lá-lá-lá-lá-lá-lá... E Viva Espanha!” Ótimo.

E deu Espanha!

A festa tava boa, estávamos superanimados, mas incrivelmente cansados. O dia corrido da Alemanha, a viagem mal dormida e o longo dia em Viena começaram a pesar. Um problema que estávamos procrastinando, de repente pula na nossa frente. Precisávamos acordar do sonho para encontrar um lugar para dormir?

História para o próximo post.

Curta viagem, curto post

A poesia alemã nunca me chamou muito a atenção. Na verdade, poesia não é o meu forte. Quanto menos alemã. Mas então o que fazia eu ouvindo uma jovem alemã, estudante de teatro, declamar seu texto na língua pátria?

Viagem de ônibus, mais uma. Ô sina! Chegamos a tempo de pegar o ônibus pela rabeira para seguir viagem rumo à próxima parada. Viena. Terra das artes, cidade que incentiva a cultura e que tinha o curso ideal para a minha companheira de banco.

Embora curta, a viagem de ônibus foi muito cansativa. Olha a cara!

Ops, que educação a minha, deixe-me apresentá-la. Seu nome é [colocar o nome aqui quando lembrar, heheehh], uma jovem com pouco mais de 20 anos que visava um curso de teatro na Áustria. Viajava de Berlim a Viena para fazer um teste – queria ser atriz de teatro. Era minha romântica companhia em uma curta viagem de ônibus.

Ônibus e suas artimanhas tecnológicas, mas poderia ser mais confortável

A viagem não foi das melhores não. Ônibus na Europa é meio desconfortável. Interessante ver pequenos televisores transmitindo o que a câmera captava lá de fora. Pra mim inusitado. Fora isso, nada demais. A não ser a dureza e pouca inclinação da poltrona que me lembrou os tempos áureos dos voos Campinas - Foz do Iguaçu.

Dureza no banco, mas boa companhia. A jovem tedesca me deu algumas dicas culturais de Berlim. Talvez me sirva para uma próxima viagem. Mapa no colo, e dá-lhe mãos apontando este e aquele lugar. Deu no que deu. Em uma curta viagem, o primeiro caso europeu.

Nascer do sol tem em todo lugar

Legal a companhia dela. Contou-me sobre os planos na Áustria e sua carreira de teatro. E encenou parte do monólogo que ela iria apresentar em seu teste. Tudo em alemão. Não entendi patavina, mas gostei.

A curta viagem tinha destino. Estranhei algumas pichações em uma construção histórica. Lembravam fogo. Diferente das bonitas paisagens logo no amanhecer do dia. Pegar o nascer do sol na estrada foi único.

Não era bem o que eu esperava da Áustria, mas eis que chegamos

Mas é dia e tem sol. Hora de me despedir de minha companheira e desejar-lhe sorte. Embora tenhamos trocado endereço, não voltamos a nos falar. Espero que ela tenha conseguido a vaga na escola de arte. Mas foco. Acordar o Juttel, ajeitar as malas e pisar em solo austríaco.

Cheiro de futebol no ar, com toques de final de campeonato. Coisa que vocês encontram no próximo post.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Berlim Cor-de-rosa

Imagine Priscila, a rainha do deserto, causando com sua imensa capa prateada; acompanhando o caminhão, o Patrick Swayze deitando o cabelo em “Para Wong Foo, Obrigada por tudo”; e ainda, o elenco completo de “Gaiola das Loucas”. Tudo junto, loucas e desvairadas. Mas com sotaque alemão. Foi neste mundo cor-de-rosa que Juttel e eu baixamos ao chegar em Berlim.

Parada estratégica na estação de trem. Ajeitando as fotos e a cara de sono

A viagem de trem terminara na estação Berlin Hauptbahnhof. Fizemos nossa meia hora de descanso: procurar um locker para deixar as bagagens (sim, agora tenho bagagem), comer alguma coisa, buscar mapas para orientar o passeio. Estávamos cansados, mas prontos para outra. E meu parceiro de viagem todo orgulhoso aspirava o ar de seu país de origem.

Da Berlin Hauptbahnhof para o mundo. Mas seguindo a seta no mapa

Saímos da estação seguindo uma seta no mapa, o que tivesse de turístico pela frente veríamos. Berlim é linda, por isso, o passeio de um só dia soou um tanto instantâneo. Mas valeu a pena.


Ar alemão em alvéolos pulmonares alemães, o Juttel estava em casa

Administração teutônica


E o primeiro ponto turístico que cruzou nossa seta guiadora foi o Reichtag, o Parlamento alemão. Legal a miscelânea do histórico com o moderno. O prédio antigo em contraste com a construção circular de aço e vidro. Aliás, essa contradição estaria presente em outros momentos de nossa curta estada.

O Reichtag. Símbolo do histórico e do moderno, tudo junto

Dali seguimos em direção ao majestoso Portão de Branderburgo, famoso por dividir as duas Alemanhas no século passado – ou permitir o acesso de lá pra cá e de cá pra lá, afinal, é um portão.

Portão de Branderburgo e minha cara de tacho. Sei que isso é um ponto importante, disse na ocasião

Tomado pelo espírito da final da Eurocopa, o Portão era palco de uma incrível fanzone que, um dia depois, ficaria lotada de alemães ávidos por vencer espanhóis no campo (mas isso é mais pra frente).

Memorial do Holocausto: tocante

Mudamos nossa seta e seguimos o caminho original do Muro de Berlim, estando ora no oriente ora no ocidente. Fomos dar de cara com um praça repleta de blocos de concreto, de diversos tamanho. É o Memorial das Vitimas do Holocausto, uma tocante homenagem fincada no coração de Berlim.

Poser no muro da vergonha, cicatriz aberta no centro de Berlim

Ali, o ar alemão aspirado por Juttel tinha odores de História. Seguindo pela cicatriz do muro da vergonha, encontramos uma ferida ainda aberta: uma parte do muro preservada por motivos históricos e turísticos. Dava para sentir bem o clima de história exalado por aqueles resquícios de muro (com a qual eu voltaria a ter contato, no museu do comunismo, em Praga).

Vândalo, ou ao menos representação de tal. Juttel revive os momentos da queda

Interessante ver os sinais da mudança. Do lado oriental do muro (no sentido geográfico, que o político não existe mais), um imenso cartaz da Coca-Cola, patrocinadora da fanzone, deixa claro qual sistema manda.

Coca-Cola e Berlim Oriental, tudo a ver

Mas mais adiante, em um elevado, foi como voltar ao passado e ver as duas Alemanhas novamente. Ao oriente, aqueles prédios marrons bem característicos do filme “Adeus Lênin”. Ao ocidente, os modernos aço e vidro em construções de design extravagantes. Isso é Berlim.


Racha: os predinhos de "Adeus Lênin" e a Berlim moderna

Chuva de purpurina


Então recebi um jornalzinho de um cara. Agradeci com a cabeça e, antes de me virar, percebi que o rapaz piscava pra mim. Abri o jornal, foi como se uma chuva de purpurina caísse sobre a cidade tirando aquele ar sério e histórico e tingindo Berlim de cor-de-rosa. Ou com todas as cores do arco-íris, para ser mais exato. Estávamos em pleno “Christopher Street Day”.

Sem comentários

O dia do Orgulho Gay é comemorado em toda Europa, embora com nomes distintos em outros paises. É uma grande passeata em defesa do direito de minorias, como os homossexuais, bissexuais, transexuais, etc. A Berlim histórica que queríamos conhecer se vestiu com as cores da diversidade sexual e com mensagens de tolerância e respeito. Foi engraçado e divertido.

Nem o médico Hermann von Helmholtz (1821-1894) foi poupado

Pelo centro histórico já não sabíamos mais o que era o que. Nossa seta não tinha mais razão de ser, pois quem ditava o ritmo do passeio eram as dezenas de homens marombados em trajes sumários, ou drags queens gigantes pintadas de cima a baixo, rapazes ora de seios postiços ora de bunda à mostra e outros com sungas de couro e coleira. O Juttel corria a se explicar: “Não foi nada combinado. Estamos aqui por acaso”. De fato não foi, mas conhecer Berlim sob o viés de sua gente cor-de-rosa foi bastante interessante.

Como assim? Isso é Berlim? Juttel e eu perdidos

Sprint final

Daquele momento de sodomia caminhamos conhecer uma das igrejas mais fantásticas de toda a viagem, a Berliner Dom, ou Catedral de Berlim. Bela e grandiosa, sua primeira construção data do início do século passado. Fica pertinho da prefeitura de Berlim e de um jardim, o Lustgarten. Atrás, no mesmo enquadramento da foto, reprisando o histórico e o moderno, a torre da TV.

Uma das mais belas catedrais e a torre da tv

Imponente por fora e por dentro, paramos para descansar e apreciar a catedral. Assim como todas as grandes igrejas há, embaixo, as catacumbas com caixões e esquifes onde jazem os corpos de religiosos. E, subindo um sem-número de degraus, pudemos apreciar a vista lá de cima e ver a maquete. Encantadora.

Assim, nem parece tão grandiosa

A visita já estava ganhando ares de despedidas. Na ilha dos museus, conhecemos o Pergamo Museu e o Bode Museu, mas só por fora. Também sobrou um tempinho para tomar a cerveja local, meio litro de Berliner, e ainda começar a se coçar para arrumar um jeito de chegar à próxima parada.

Parada para descansar, apreciar e refletir

Foi assim por acaso que conseguimos encontrar a passagem, pelo celular de uma berlinense que trabalhava num show de teatro, que estava sentada diante do computador. Meio às pressas, na loucura.

Em Berlim a pedida é meio óbvia: Berliner. Bem boa

Foi também por acaso que nós, na correria de chegar à rodoviária, pensamos em conhecer um último ponto turístico: a estonteante Coluna da Vitória (Siegessäule). Mais por acaso ainda foi ver o final do “Christopher Day” por lá. Outro cartão postal de Berlim tingido de cor-de-rosa, mas não tínhamos tempo para mais nada.

Fusão de dois museus na ilha. Não deu tempo para entrar, Berlim estava quase no fim

Só para pegar um táxi e voar para a rodoviária, bem distante dali. No caminho, mundo pequeno, vimos o casal sueco passeando, calmos como são os suecos, com seus uniformes esportivos. Mas, foco. O táxi cortou as ruas de Berlim, nossa seta agora era precisa e acelerada.

Última parada, a Coluna da Vitória, quase nos fez perder o ônibus

Quase perdemos o ônibus, mas foi por pouco. Embarcamos para uma curta viagem por solo alemão rumo à próxima parada.

E você, segue viagem conosco?

sábado, 27 de setembro de 2008

Dentro da boneca russa

A matrioshka é aquela bonequinha tradicional da Rússia, um brinquedo formado por uma série de bonecas de madeira de tamanhos diferentes – a menor colocada dentro da maior e assim por diante (na ex-soviética Praga existem milhares delas). Pois foi como estar dentro de uma matrioshka o sentimento da viagem de Malmö a Berlim.

Fim do congresso, nos despedimos do grupo: a sociedade do anel estava desfeita. Flávia e Davi ficariam mais um dia em Malmö e depois conheceriam Praga, Enio esticaria alguns dias em Copenhague e terminaria a viagem em Amsterdam. Mas o Juttel e eu estávamos com pressa, nossa programação era mais puxada.

Juttel e eu para mais uma viagem. Deu de Suécia pra nós

Fomos para a estação de trem de Malmö pela último vez, o Juttel com seu eterno toc-toc do arrastar de mala, e eu fazendo conjunto com ele e feliz da vida por ter minha bagagem de volta. Pegamos o trem e vimos a pequena Malmö ficar para trás.

Foi minha primeira vez em um trem com cabines e camas. Tivemos a sorte de pegar as camas do meio e nos demos bem com um casal de silenciosos e bem comportados (sério?) suecos. Obviamente não ficamos parados, enfiamos a cara pela janela, vimos um velho alemão que dava medo e conhecemos uns adolescentes noruegueses de passeio no país vizinho.

Nórdicos: a prestrativa sueca e um dos camaradas noruegueses. Gente boa

Pelo lado de fora da janela, a Suécia ia correndo em sentido contrário ao do trem. Passamos por áreas mais pobres – sim elas existem – com casinhas conjugadas e micro-quintais, plantações e outras paisagens. A noite ia caindo, talvez reflexo de nossa descida em direção ao latitudes menores. Mas então o trem parou.

De cara não entendi bem aquela gente loira e nórdica tentando me explicar. Como assim? “Train on boat?” Foi o Juttel que contou. “Um pouco para direito chefia, isso, agora externa tudo”, diria um manobrista. E o trem, na boca do litoral, estava fazendo manobras para entrar dentro de um navio!

Trem e navio. O primeiro dentro do segundo!

Já peguei balsas estando dentro de carros, mas trem dentro de navio, confesso, primeira vez. Lembro que sentia o chacoalhar nauseante da embarcação, enquanto deitado escrevia algumas linhas na agenda: “Mar do Norte. Penso que seja esse o nome do lugar onde estou agora, em alguma parte do Oceano Atlântico. Estranho dizer, mas estou em um trem!”

Freeshop no navio. Como se estivéssemos em um aeroporto. Território internacional

A viagem foi doida, de fato. Saímos do trem e pegamos um elevador para o alto do navio. Quando saímos pela porta, bizarro: pessoas esparramadas por aqui e ali, gente em restaurante, uma mulher no caça-níqueis com o filho, um freeshop.

Mãe e filho no caça-níqueis

Subimos mais um pouco e estávamos do lado de fora do navio. Vento cortante trazendo a brisa do Atlântico Norte (“É como se mil facas entrassem em seu corpo”, diria Leonardo Di Carpio sobre a temperatura da água naquela latitude do oceano, em um filme conhecido). A vista? Belíssima. De longe víamos o pôr-do-sol lá na Escandinávia – na terra do sol da meia noite, nada mais apropriado que o sol se demorasse um pouquinho mais.

Do alto do navio, o fim de tarde na Escandinávia. Adeus à terra do sol da meia noite

Voltamos para o navio, andamos aqui e ali e eu preferi voltar ao trem. Estava preocupado com o macbook e bastante cansado. Tomei uma daquelas águas minerais em caixinha. “Não pode tomar água da torneira”, tinha avisado a prestativa sueca ao Juttel. “Ela deve pensar que eu sou bobo”, reclamou ele pra mim, minutos depois.

Passando frio do lado de fora do navio e, para o Juttel, dentro do trem

O Luiz disse ter sofrido com um vento nos fundilhos, mas eu dormi como anjo. Nem vi quando o trem deixou de ser bagagem e andou com as próprias pernas, em trilhos alemães. Também não percebi quando chegamos à grandiosa Berlin Hauptbanhof.

Tema, claro, para outro post.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Bem me quer, em Malmö

Foi com sentimento de dever cumprido que nos despedimos de Malmö no dia 27. Uma tarde ainda ensolarada apesar do tardar da hora, fomos caminhar pelo centro daquela pequena cidade. Passeamos por um feira e sentamos uma última vez em um bar para tomarmos a cerveja local. Aquele tinha sido um dia muito bom. Tinha sido o nosso dia em Malmö.

Despedida da bela Malmö, mas antes, nosso dia na cidade.

Na noite anterior, Davi, Flávia, Juttel e eu nos reunimos no hall de entrada do hotel Íbis. Precisávamos afinar o discurso, preparar os slides e deixar tudo acertado para o nosso porta-voz Davi: dia 27 era o último e também o dia mais importante. Dia de apresentarmos o “Bem me quer, mal me quer” na Suécia.

E não fizemos feio. Na verdade o Davi não fez. Apresentou uma a uma as cinco peças que compõem a instalação. “Bem me quer, mal me quer”, uma expressão bonitinha que venho falando há tempos. Mas o que significa?

Em Malmö, Davi foi o porta-voz do "Bem me quer"

Em síntese, foi uma instalação artística que fizemos no Museu da Imagem e do Som, em Campinas. Fruto de uma disciplina do Labjor, a Oficina de Multimeios, a instalação usa a ferramenta artística para refletir sobre a divulgação científica. O que pensam as pessoas sobre a ciência, especialmente, sobre as biotecnologias? Como a mídia divulga ciência? De que maneira aparece a dicotomia (bem e mal) nas notícias sobre biotecnologia.

Sem Hércules, mas reunida. Dever cumprido na Suécia

Para entender direitinho sobre a instalação, os mais interessados podem dar uma espiada nesse vídeo no Youtube. É um compilado de matérias e vídeos.

Na apresentação, em Malmö, Davi foi direto. Expôs os nossos conceitos e objetivos, e soube resumir o que significou para nós fazer o "Bem me quer". Resumiu. Na platéia, nossas amigas italianas, a colega turca de belos olhos e um representante do Ministério de Ciência e Tecnologia, Ildeo de Castro, que ficou muito interessado no tema. Nosso trabalho estava feito.

Auto retrato. Galerinha fazendo pose na universidade

As horas a mais em Malmö, na Suécia e na Escandinávia já estavam no lucro. Sentimos aquele climazinho de adeus, ou até à Índia, em 2010. Demos uma última passeada pela Universidade de Malmö e nos despedimos, ora com a cabeça, ora com abraços calorosos aquelas pessoas de quem tínhamos ficado amigos ou apenas conhecidos.

Chuvinha atrapalhou nossa visita à cidade sustentável, um bairro de Malmö

Apos uma breve chuva, que interrompeu nosso passeio pela cidade sustentável, fomos para o centro de Malmö. Desencontrei-me do pessoal, mas depois de feirinha e praças, nos encontramos novamente. De novo na mesa de bar, a última da Suécia, a última da equipe do "Bem-me-quer". E de novo cerveja.

Passeio final por Malmö. Agumas cenas

No bar, dinheiro na mão, paguei a quem devia. Entreguei minha última coroa sueca. O Luiz ficou me incomodando, sobre migalhas para pagar o táxi e eu me desesperei: “Eu não tenho mais coroas, Luiz. Eu não estou mais Suécia! Não estou mais na Suécia!” O pessoal riu muito.

No adeus a Malmö, último encontro na mesa de bar

Caminhamos para o fim. Demos adeus ao Ênio e acompanhamos Flávia e Davi para o hotel. Eram nossos minutos finais em Malmö, mas tinha tempo para um último encontro. Aliás, reencontro.

O emocionante e duradouro reencontro com a minha bagagem.

Ninguém tasca: depois de longos dias, o reencontro com minha bagagem

A continuação dessa viagem, agora cheirosinho e de roupa limpa, você acompanha no próximo post. Até lá.

domingo, 3 de agosto de 2008

Sabores da Europa

Certa vez, uns amigos criamos o conceito de “ruim”. Era uma bebida feita à base de Velho Barreiro, limão murcho cortado com faca suja de maionese e açúcar (ou seja, uma tentativa frustrada de fazer uma caipirinha). Mas o troço ficou tão ruim que a gente tomava toda hora só para se certificar do quão ruim era. Sei que as relações de meus amigos com o “ruim” beiram o masoquismo, mas, particularmente, eu sempre fui da idéia de experimentar o diferente, comer coisas estranhas e exóticas. No mínimo para criar anticorpos.

Foi com essa idéia que eu comprei um chiclete sabor bacon, em uma lojinha perto do metrô, em Estocolmo. O troço não era ruim, era pavoroso. Já vi alguns marcas arriscarem o sabor salgado em seus chicletes, mas aquele de bacon era levar essa ousadia à quintessência. Obviamente que, após uma ou duas mastigadas, cuspi o chiclete em um lixeiro e prometi nunca mais provar daquilo. Promessa não cumprida, diga-se.


Enio afia os garfos: na Europa, comidas boas e algumas surpresas desagradaveis

Bem, comer coisas diferentes foi parte da programação desta viagem. Não digo que fizemos um tour gastronômico pelos países, mas vez ou outra provávamos dos sabores locais. Em Viena, por exemplo, foram muitos os apfel-alguma-coisa que comi. Gostava muito daqueles croissants e outros pães doces, me empanturrei quando pude. Em Praga, no entanto, o croissant era apenas uma massa amorfa, mas muito fotogênica.


Na breve passagem por Berlim, também ficamos na base de pãezinhos e cafés expressos. Quando chegamos à Viena, o Juttel, fresco de dá dó, queria comer comida de verdade. Batemos um pratão de macarronada em um restaurante italiano, onde o chefe veio nos atender em italiano – mas aí eu estendi a conversa no idioma e o cara não entendeu mais nada.

Em Berlim, com mais um pãozinho diferente

Outra vez fui eu que não entendi, ainda em Viena e ainda em relação aos pãezinhos, quando um tiozinho tentou nos ensinar o que era apfel-não-sei-o-que. Não adiantou muito, mas eu comi assim mesmo. Isso ocorreu lá no Terminal de Westbanhof, nossa casa em Viena. No mesmo lugar, último dia na cidade, o Juttel comprou um suco de laranja péssimo. Quase tão ruim quanto o chicelete de bacon, mas ainda longe do “ruim”.

Por falar em comer sem saber, este é o retrato de minha primeira refeição quando cheguei na assustadora Budapeste. Sabe como é, ex-comunista, língua bárbara, e eu comprando um lanche à base de peixe (que comi acompanhado de uma coca-cola, por 99 forintes). Ainda não descobri do que era feito aquilo.

Coca cola a 99 forintes e lanche estranho. Do que mesmo?

Lá em Budapeste o interessante foi a andança do primeiro dia. Sol nas costas, canseira e frutas pelo caminho. Quando passei por uma praça, vi uma árvore com umas frutinhas vermelhas e, mais a frente, outra com frutinhas amarelas. Parecia uma espécie de ameixa-pêssego-nectarina. Bem boa!

Frutinhas coloridas. Não, elas não fazem mal

Neste mesmo dia, faminto, comi um bom e salgadíssimo Burguer King. O mesmo fizemos em Amsterdam no início da viagem. O Juttel e eu procurávamos a comida local, uma espécie de batata com um molho nojento em cima. Trocamos pelo Rei dos Lanches.

O que me faz lembrar daquele pedação de pizza em Viena e aquele outro na estação de metrô em Budapeste, no dia do martírio. E também o cachorro-quente com aquela salsicha gigante na andança por Berlim e outro cachorro-quente esquisito, em Praga: a mulher furava o pão com um metal quente e depois largava a salsicha dentro, junto de um molho de mostarda escura e amarga. Pinguei um pouco no All Star e trouxe aquele cheiro forte para o Brasil.

Para fugir da regra, salmão. Entrada do ótimo almoço de Lund

‘Xá ver o que mais (esperem que vou ali tomar um café). Isso, café. Sou louco por, mas não fui muito feliz nas experiências. Em Estocolmo, no almoço da pré-conferência, tomei um café e disse para um cara ao lado que, como brasileiro, eu não só gostava de café, eu precisava de café. O cara, português, disse que estava na mesma situação.

Começo de viagem, ainda no Brasil. Como gosto de café

Em Praga, comi um pão com ovos delicioso na manhã do primeiro dia e tomei café; estava assim assim. Em Berlim, mordidas nos apfel-tanto-faz e tragada em um café expresso forte. Lembro que neste dia jogava migalhas para uns passarinhos mordiscarem. E o Juttel ali, com aquela cara de tacho.

Isso sem falar no regime de engorda do vôo internacional.

Comida chique na recepção na prefeitura de Estocolmo

Comentei ali em cima sobre o almoço na pré-conferência, acho que vale falar sobre comida decente para terminar esse post. Toda a programação na Suécia era regada por comida da boa. O almoço na prefeitura de Estocolmo foi super-chique e a alimentação na conferência em Malmö, Lund e Copenhague, bem agradável. Mas um sabor que gostaria de voltar a sentir é o de um doce tradicional da Suécia – o vacuum cleaner, um rolinho verde e marrom feito sabe-se-lá do que. Mas muito bom.