segunda-feira, 30 de março de 2009

Bem-vindos ao Chile, diz Licancabur

Uma nuvem de poeira se formou atrás do 4X4 de André. Ele, o piloto, focou a frente e para 'Gilson', um dos dois GPS no painel do carro. Estávamos perdidos. Em pleno deserto do Atacama, o carro fazia uma segunda curva buscando o caminho correto.

Carro reclama poeira do solo. Não é o 4X4 do André, mas o efeito é igual

Era o segundo dia em San Pedro del Atacama, a cidade-dormitório do famoso deserto. Quando cheguei, após subir e descer os Andes, fui recebido pelo poderoso e onipresente vulcão Licancabur, pano de fundo de todos cartões-postais da região.

Licancabur, onipresente: 5917 metros nos observando.

Ajeitei a mochila nas costas e fui bater perna pela cidade, me esgueirando por aquelas ruelas de pó e turistas. Então encontrei o Hosteling Internacional – boa cadeia, barata para alberguistas credenciados. Ainda estava preocupado com o problema do dinheiro, mas precisava, enfim, começar a viagem.

No Hosteling International fui recebido por uns moradores gente fina

Foi por isso que aceitei o convite de um grupo de brasilisenses gente boa para explorar com eles a região. Laerte, Márcia e André estão entre os grandes amigos dessa viagem; sobre eles devo me demorar um pouco mais, em breve.

Então vamos lá, todos pra dentro do 4X4 e começar o tal passeio pelo Atacama

Quando Laerte pediu uma informação em inglês para uma peruana, corri a ajudar. Un carjero automatico, ele queria. Ao me agradecer respondeu: “Obrigado”. Era brasileiro, um dos muitos que encontraria em San Pedro. Segui passeio com eles.

Amigos de viagem: Márcia, Laerte, Sala e Sidney. Faltou o André

Conheci Márcia e André e, posteriormente, os casal de gaúchos Sidney e Salete. O time estava feito. Juntamos os dois carros e fomos em busca de sal, muito sal.

Sal, próprio para um salar


Após conferir as informações com 'Raquel', o outro GPS, André finalmente encontrara o caminho. Já tínhamos acidentalmente conhecido a pequena cidade Tocomao e apreciado sua fabulosa torre branca – a Márcia não dormiria aquela noite se não encontrássemos a tal torre. Também passamos num tal Jerê com seus ricos canais de água em pleno deserto. A pouco objetividade de André e sua tecnologia seria alvo de chacota do gracioso Sidney. Mas agora, foco: as tais Lagunas Cejas.

A torre branca de Márcia. O centro de Tocomao, digno de piadas internas

Lagoas mais salgadas que o mar morto. Profundidade de dezenas de metros. Sal, muito sal. Pulamos nas lagunas e, para surpresa de todos, não afundamos. Incrível. Por ali, aliás, o pessoal se aglomerava, como num Piscinão de Ramos chileno. E pelo alto, as lagoas eram observadas constantemente pelo Licancabur.

O divertido casal gaúcho - Sidney e sua 'gatinha'. Amigos de viagem




Depois do primeiro pulo, meus olhos ardiam. Além de entrar calçado para não ferir os pés nos cristais de sal, sugere-se que não mergulhe na laguna. Eu não segui a sugestão. O Laerte também não.

Sem as mãos. Laerte e Márcia desafiam a laguna ceja. Mergulhar não. Aprendemos a lição

Eu e meu amigo corte. Parceiros de viagem. Leia mais adiante

Aliás, protegi bem o meu pé com uma sandália que até hoje reserva um pouco de sal entre as fivelas de couro. Mas não a mão. Um corte doído no dedo virou meu companheiro de viagem por muitos dias.

Ojos del Salar. Não é só o Licancabur que nos observa

Temperados, conhecemos ainda os Ojos del Salar, duas lagoas redondas e menos salgadas no meio do deserto. Tiramos a camada de sal do corpo para voltarmos a San Pedro de Atacama. O dia estava encerrado.

Fim de passeio. O sol se põe e vamos embora. Amanhã tem mais

Mas o passeio só começara.

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Enfim, os Andes

Esperava que a chegada aos Andes fosse fascinante, mas não que seria tanto. Montanhas pós montanhas, cores fantásticas, curvas alucinantes. Enfim o nome do especial ganha razão de ser. E você acompanha isso agora, sem muito blá-blá-blá, em algumas fotos.

Começo da volta pelos Andes. Ao fundo montanhas multicoloridas

A despeito das imagens, a viagem até o Chile é quase isenta de comentários. Focalize as imagens, diria. O máximo que rolou foi um bate-papo com as portuguesas no banco ao lado, após um tempo sem ouvir o idioma pátrio.

E de repente alguém fala em português. Sinal dos tempos ou da proximidade com San Pedro del Atacama

Não era com bons olhos que a alemã ao meu lado via a minha empolgação com aquela tonelada de fotografias reais prontas para ser digitalizadas. Ou, ao menos, foi essa a impressão que ela me passou. Bem, pudera, com a máquina na mão eu não parava quieto: foto disso, daquilo e daquele outro. E eu puto da vida porque o ônibus não faria nenhuma parada.

Questões alfandegárias em uma viagem cheia de voltas. Em poucos, estou no Chile

Ou uma única, na fronteira da Argentina com o Chile. Aproveitei o esticar de canelas para, depois de resolver minha questão alfandegária, conferir o que um grupo de pequenos argentinos faziam a distância. Era o ensaio de um desfile para uma festa que aconteceria naquela noite. Mais uma vez blasfemei mentalmente por depender da boa vontade do ônibus e do roteiro pré-programado do motorista.

Ainda volto ao Chile de carro ou de moto.

Crianças argentinas em desfile cívico. Gostaria de ter ficado, mas nós não podemos ter tudo nessa vida de Deus

O ônibus estava partindo, tive que correr atrás dele para não ficar preso para sempre no alto dos Andes. Segui viagem e, após subir e descer, digitalizando as fotografias reais, cheguei ao Chile. San Pedro del Atacama, no pé do vulcão Licancabur e no coração do deserto do Atacama. Lá, a história rendeu um pouco mais.

As fotografias reais: muitas delas digitalizadas aqui neste blog. Mais delas, no orkut

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domingo, 22 de março de 2009

A barreira policial

A gente pensa que já viu de tudo nessa vida antes de começar uma viagem. Bem, eu nunca vira um barricada feita por policiais na rodovia. Na Argentina vi. O Chile ainda estava longe, bem longe. Mas antes de subir e descer os Andes, teríamos que enfrentar a barreira policial em Salta.

Espera. E havia uma barreira em nosso caminho

Era cedo quando levantei para pegar o ônibus. Bicho vacinado, acordei umas duas horas antes. Tomei banho e fiquei gastando tempo. O Diego e o Anatole e mais uma gringa recém-chegada também estavam acordados, tomando chá e jogando conversa fora.

Fiquei um tempo com eles e me despedi com um abraço apertado em meus amigos do El Andaluz. Boa parada em Salta, bons papos e amizades, mas era hora de partir. O Chile me esperava, e pelo andar da carruagem, teria que esperar um pouco mais.



“Há uma barreira policial na estrada. Nenhum ônibus entra, nenhum ônibus sai”, explicou o responsável pela companhia de ônibus Geminis. A rodoviária, vale citar, era um caos. Turistas e outras pessoas que apenas querem ir e vir superlotavam o terminal rodoviário. Fiquei sabendo que minhas amigas italianas tinham dormido no ônibus esperando a boa vontade dos policiais.

Na rodoviária, enquanto alguns andam e outros dormem

A reclamação da polizia era salário. Queriam 50% de aumento, não ganharam e fizeram bico. E nós tínhamos que perder um tempo mais Salta. Andei aqui, ali e também acolá, saquei algumas fotos e tomei um café de canudinho – esqueci que estava quente e dei uma boa tragada pelo canudo, arrancando um naco de pele do céu da boca.

Uns terceiros apenas esperam

Pela rodoviária as pessoas se esparramavam. Livros, MP3 e bate-papos predominavam entre os mais jovens. Outros já mais vividos apenas dormiam, ainda outros perguntavam e reclamavam. Eu só batia perna, impaciente.

Brecha na barreira

Mas então houve uma brecha meio surreal. Por uma hora os policiais iriam liberar a barreira para os ônibus passarem. Tentaríamos passar, se não desse, voltaríamos e a viagem continuaria só no outro dia.

Ônibus infileirados na rodoviária. Nome de pão

Na estrada, ônibus lotado e eu com uma serena alemã ao meu lado. Fone no ouvido e nem tcham para o que acontecia. E voltamos a parar. Quase uma hora na fila enquanto os ônibus passavam em dose homeopática. Tudo era bagunça: o canteiro central da rodovia já não existia mais tamanho o vai-e-vem de carros e ônibus.

"Viajo com Deus, se não volto estou com Ele". Lema de viagem!

Foi quando chegamos ao epicentro da manifestação, vi policiais e seus tambores, barracas, fogueiras e muita lama. Automóveis, muita gente. Apreensão. Suspiramos todos quando vimos o policial fazer sinal de “pode passar”.

Do outro lado da janela, barbúdia. Do me lado do banco, serenidade

O ônibus cruzou a barreira em alta velocidade. Vi no display que fica sobre a porta de entrada (onde marca as horas e se o banheiro esta ocupado) sinalizar “Velocidade Máxima”. Surreal.



Após a barreira, o ônibus clamou por aplausos. O casal de israelenses do banco da frente dizia “amazing”, os ingleses do banco de trás esboçaram um sorriso, as portuguesas no banco ao lado fizeram curtos comentários. Mas ao meu lado, mantendo sua serenidade teutônica e sem descolar o fone do ouvido, a alemã nada disse.

A viagem continuou com um foco: Chile. Antes dele, valem as paisagens lindas dos Andes. Você vem conosco?

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Calvário em Salta

Tenho muito disso: calvário, martírio, tortura. Situações criadas por mim mesmo. Ou melhor, não por mim, pelo meu sôfrego eu. Já disse aqui, minha sina é conviver com esse eu às avessas que insiste em fazer tudo errado. Conviver e sobreviver a mim mesmo.

Calvário. O dia torto em Salta

Na viagem aos Andes, o sôfrego eu tinha que aprontar das suas. Talvez para garantir um ponta aqui no blog. Perdi meu segundo dia em Salta tendo que resolver um problema criado por ele lá no início da viagem.

Era sexta-feira, tinha deixado tudo pronto para partir no sábado. Mas lutava com um problema da senha do cartão de crédito internacional - a senha, a propósito, só chegou agora, no momento em que escrevo essas linhas. Tal como na Europa, teria que levar todo o dinheiro porque não poderia sacar nada no exterior. A Mastercard me paga!

Pois é o que eu deveria ter feito – sacar uma quantidade grande de dinheiro, transformar em dólares e viajar tranquilo. Mas não foi o que ele, o maldito eu, fez. Deixei para sacar no caixa eletrônico esquecendo o limite diário de R$ 400 reais das máquinas. Iniciei a viagem com R$ 800 reais na carteira.



Se na Europa a grande angústia dos primeiros dias fora a perda da bagagem, nos Andes, quebrei a cabeça tentado resolver o problema do dinheiro. A primeira tentativa foi em Salta, mas depois de passar horas em um banco, de fazer dezenas de ligações para minha agência no Brasil e outras dezenas de tentativas de sacar com o cartão de débito acabei de bolso vazio. Viajaria para o Chile sem resolver o problema.

Um a zero para o sôfrego eu!

O simples não sacar de dinheiro me rendeu, além da dor-de-cabeça inicial, um prejuízo que ainda não contabilizei ao final da viagem. Um capítulo inteiro para os Métodos Fáceis de se Perder Dinheiro.

No fim da história acabo resolvendo o problema, isso é certo. Mas na relação entre eu e meu sôfrego eu tudo é mais difícil e dolorido. Conto pra vocês quando chegar no Chile.

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Catando tampinhas

Anatole andava meio perdidão, batendo perna pelas ruas de Salta quando cruzei por ele pela segunda vez. “Posso ajudar”, perguntei no meu castelhano sofrível. Àquela hora, a despeito do idioma, já poderia trabalhar nas informações turísticas da cidade.

Personagens bacaninhas. "Una moneda" e o cara das tampinhas

Ele buscava um pouso barato. Levei o francês até o hostel El Andaluz e segui meu caminho. Queria conhecer um pouco da cidade. Salta era apenas uma parada para a viagem que começaria de fato no Chile, mas por que não ver qualé dessa terra?

Viva Güemes e seus gauchos!

Quando cheguei na cidade, olhos para o chão em busca de tampinhas. Era manhã, após a rodoviária, eu passava pela praça San Martin, caminhando pela avenida de igual nome. Fiquei reparando em um senhor que a toda hora descia de sua bicicleta para pegar tampa de garrafa PET no chão.

Monumento a Güemes. Homenagem merecida (acho)

“Essas tampas são para vender e ajudar as crianças vitimas de câncer”, correu explicar o senhor, provando sanidade. Ajudei o homem coletando algumas tampinhas também. Mas depois que ele se foi, não podia andar sem olhar para o chão.

Um general onipresente

O que mais marca em Salta é a onipresença de um tal General Don Martín Miguel de Güemes – nome de rua, praça, monumento e o escambaú. Tanta honraria tem motivo: liderando um exército de camponeses, os gaúchos, o general Güemes se destacou nas lutas pela independência da América Espanhola.



No dia de minha chegada havia uma festa no centro da cidade em homenagem a Güemes e seus gaúchos. O evento era na praça 9 de Julho, onde tudo acontece na cidade e cujo nome, até o final desses relatos, descubro a que se refere.

Na catedral pouco antes da missa. Confissão

Por ali tem um senhor que fica pedindo, eufórico, “una moneda!” aos passantes. O cara é tão rápido que não dá tempo de negar a moneda e ele já parte para outra vítima. Na 9 de Julho está a imponente catedral da cidade. Mas a mais bonita de Salta está não longe dali, na mesma calle Córdoba do hostel: a igreja San Francisco.

A mais bela: igresia San Francisco

Tudo bacaninha, giro por Salta e tudo mais; gente boa no hostel e boas lembranças desta primeira parada. Mas bora sacar esse sorriso do rosto. Tinha que peregrinar por bancos e terminais telefônicos para sanar minha questão financeira.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Em Salta, amigos

A panela de macarronada vazia passou de mão em mão. Um colocou um pouco de macarrão, outro um pedaço de carne. Aos poucos, a panela voltou a ficar cheia o suficiente para encher um outro prato. O meu prato. O gesto de uma turma de argentinos, italianos e franceses foi o que melhor marcou minha estadia em Salta: a amizade.

Em Salta: amigos

Alguém me disse pouco antes de viajar que o sentimento de inveja se tornara pena quando soube que eu iria sozinho. “Ó, quão infeliz é o Murilo que não leva consigo um amigo a tiracolo”, teria pensado meu interlocutor em sua versão poética. Não poderia estar mais enganado.

O espírito de El Andaluz: liberdade. Ainda volto lá

Os dois dias em Salta, e todo o resto da viagem, provam que mesmo viajando sozinho você nunca está sozinho. No breve período na cidade, fiz amigos que quero preservar por muito tempo.

Logo na chegada no hostel, descanso rápido

O pessoal gente boa de Salta estava hospedado no hostel El Andaluz, na Calle Córdoba. Foi lá que cheguei depois de algumas informações de agências. Pessoal animado, clima de mochileiros mesmo, gente de bem com a vida. Uma turma de latinos, entre argentinos, italianos, franceses e um único brasileiro.

Franceses: Anatole com seu sotaque inconfundível e Lucas

Com eles curti boas músicas e conversas, no sofá, matando o tempo durante uma tarde de sol. Ou a noite, enquanto Gabriel arrancava som de uma garrafa PET com canudinho, Juan Garcia (o nome chavão argentino) no violão e Diego no batuque.

Música. Gabriel no sopro, Juan Garcia no violão



“Ensaiamos isso quando éramos presos políticos”, confessou Gabriel. “Éramos presos políticos porque roubamos a carteira de um político”, concluiu. O som também inspirou comentários do francês Anatole: “Música de negro”, disse.

Juan arranha a violão

Mas então Gabriel pegou seu chalango feito do casco de um tatu e a dupla com Juan Garcia continuou. Música boa entre amigos! Ainda no sofá, as conversas eram uma mistura de castellanos: o argentino, o italiano, o francês e o brasileiro. Leia mais adiante um comentário sobre os idiomas.

Bate-papo latino no sofá. O argentino Gabriel, a francesa Marine, a italiana Elisa e o brasileiro aqui

Também com eles, saboreei jantares coletivos. Não apenas a macarronada com vinho, do último dia, mas o assado tipicamente argentino. O melhor do mundo, segundo Gabriel. A batata assada, digno de nota, também arrancou suspiros de um casal de suiços. Estava de fato ótima.



A gente se divertiu a beça!

Mas era hora de curtir a pequena cidade. Em seguida, um giro rápido por Salta.

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terça-feira, 17 de março de 2009

Em linha reta, rumo à Salta

Toda história precisa de um começo, a minha começa com um alemão. Max, ou Maximiliano, estava sentado no banco ao lado do terminal de Foz do Iguaçu, curtindo seu momento de gringo enquanto aguardava o ônibus para Puerto Iguazu. Fui eu quem puxou a conversa. Como todo alemão, Max viajava por Foz e aproveitava a proximidade da tríplice fronteira para conhecer os países vizinhos – ou isso às avessas. Eu também estava em viagem.

Max, primeiro personagem da história. Atuação apagada, mas gente boa

Planejava há meses um breve tour pelos Andes. Coisa corrida, quatro países em pouco mais de três semanas. O local de saída? Puerto Iguazu, rumo à Salta, no norte da Argentina. Quando encontrei Max, eu ia comprar a passagem para o início da viagem.

Para Salta. Linha reta!

Os problemas com a compra da passagem não me abateram (leia o respiro: “Em Foz do Iguaçu, vá a Puerto Iguazu”), no dia sete, estava firme e forte para o início da viagem. Bagagem arrumada, rumei pra cidade do país vizinho, com uma preocupação na cabeça. Em breve comento sobre isso.

Início de viagem em Puerto Iguazu. E um rosto branca me encarava

Cheguei na rodoviária de Puerto, ajeitei minhas coisas num canto, vi um pessoal passar aqui, outro ali, ajudei uma senhora a descer uma escada com a bagagem e, quando olho para frente, percebo um rosto branco me encarando.

Era o Max!

Solamente orinar

Foram 23 horas dentro de um ônibus. De Puerto para Corrientes e desta para Salta. Viagem longa de poucas paradas. Serviço de bordo com comidas horríveis: empanado de frango gorduroso e frio (leia ao lado as cinco coisas que odeio em viagem de ônibus), salada de repolho num potinho, suco e um alfajor sem-vergonha.

Ônibus padrão argentino. Vinte e três horas de muita emoção (julgue pela expressão das pessoas na foto)

O detalhe é que o banheiro estava preparado só para urinar. O que, aliás, foi regra em todos ônibus da viagem. Sorte minha não ter fetiche por fazer o número 2 em viagem de ônibus.

Todos os idiomas e um aviso: só urinar!

Nas paradas cruzava com o tímido Max. Devoramos uma hamburguesa com Pepsi, na primeira delas e vimos uma capelinha numa rodoviária, em outra.

Para fugir da comida do ônibus, hamburguesa e Pepsi. Igualmente ruim

Pela janela, vi o ônibus rasgar o solo argentino. E em linha reta. Longas estradas objetivas, com foco em Corrientes e depois em Salta. Grandes áreas de pasto para gados e estranhas casinhas rodeadas de bandeiras vermelhas.

Pastos, lagos. Paisagens de uma longa viagem. Faltou a foto do Gauchito

Eram homenagens ao beato Gauchito Gil, considerado santo pelo povo da região de Corrientes. Gauchito seria o Robin Hood argentino – roubava dos ricos e dava aos pobres. Por seus crimes, teve um fim trágico. Foi pendurado de ponta-cabeça e depois perdeu a dita cuja.

Montanhas

As paisagens mudaram e, depois de horas dentro do ônibus, Salta já se avistava pela janela. O relevo do norte argentino começou a ficar montanhoso. “Xii, você vai ver muitas montanhas aqui”, disse uma entusiasmada moradora de Salta, apos um comentário meu. Para uma viagem aos Andes era de se esperar.

O Flecha em rodoviária. Quase em Salta

O ônibus Flecha então parou e eu pisei em minha primeira parada. Despedi-me de Max, prometendo encontrá-lo novamente mais tarde. Nunca mais o vi. Joguei a mochila nas costas e fui buscar um hostel.



Mas, só para não perder o costume, começava a viagem com um grande problema para resolver: dinheiro!

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Especial ANDES

Um salar gigantesco, paisagens que parecem solo lunar, linhas misteriosas encravadas na rocha, sociedades antigas e atuais. Um mundo de cultura, conhecimento e muita aventura. Uma viagem que marcará minha vida pra sempre.

Europa sai pra dar vez aos Andes

Após os cenários urbanos, entre castelos e pontes, da Europa, é a vez da América do Sul pintar aqui nos Rascunhos de Viagens. Por 23 dias, mochilei por Argentina, Chile, Bolívia e Peru. A garantia é de boas histórias.

Os textos que se seguem buscam transmitir um pouco da emoção que vivi em minha última viagem, de 07 de fevereiro a 01 de março. Vou tentar descrever cenários cuja imagem fiel só se guarda em minha memória. Ou falar das pessoas que conheci e dos amigos que fiz.

Está no ar o Especial ANDES. Se acomodem na poltrona do ônibus boliviano e embarquem comigo nesta viagem!

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segunda-feira, 16 de março de 2009

Operação Europa cumprida!

Quando resolvi criar este blog, a intenção foi escrever as idas de e vindas a Campinas, motivadas pela pós-graduação em jornalismo científico. Uma coisa puxa a outra e, para defender um trabalho da pós, tive a oportunidade de conhecer, embora efemeramente, a Europa.

As pétalas da margarida: Enio e Juttel, Flavitcha e Davi, e nosso grande irmão, Hércules Menezes, que ficou no Brasil

Com o fim da pós, o blog correu o risco de cair no limbo, mas foi salvo pela viagem no meio do ano passado. Nasceu o Especial Europa, um espaço para narrar as viagens in loco e contar as aventuras por lá. Bem, in loco mesmo não deu certo, mas prometi contar tudo o que aconteceu quando voltasse para casa.

Na Europa, tentativas frustradas de atualizar o blog. No Brasil, idem

O resultado vocês viram, uma das maiores enrolações da história dos blogs: meses para terminar de escrever sobre uma viagem de duas semanas. Nos últimos dias dei um gás e, meio a toque de caixa, no apagar das luzes, terminei de forma sôfrega a viagem pela Europa.

Em Schiphol, ainda verdinhos, o animado time do Bem me quer

Falta o voo final. Aquele entrar no avião e dizer adeus a tudo. Tão rápido, mas tão rico em histórias que, embora tudo tenha ocorrido há tanto tempo, ainda causa saudades.

Com Flávia, atrás da fumaça no Museu de História Natural de Estocolmo

Mas as despedidas podem vir antes do voo, antes de o continente europeu ficar pequenino pela igualmente pequena janela do avião. Despeço-me não só daqueles momentos felizes, de aprendizado, conhecimento e turismo, mas das pessoas que conheci, e daqueles que fizeram parte dessas histórias desde o início: a turma do “Bem me quer, mal me quer”.

Com Enio, no metrô recém-chegados em Amsterdam

Das seis pétalas da margarida, cinco defenderam a instalação na Suécia. Hércules ficou no Brasil, mas nem por isso deixa de ser homenageado. Além dele e de mim, Davi Santaela, Flávia Dourado, Enio Rodrigo e Luiz Paulo Juttel fizeram e aconteceram em solo europeu. Meus agradecimentos, pela amizade e por compartilhar momentos inesquecíveis, ficam registrados por aqui.

E com Juttel, com Juttel, com Juttel e com Juttel. Parceirão de viagem!

Então no fim da viagem fiquei sozinho. Após o derradeiro adeus a Juttel (depois de então nunca mais falei com ele pessoalmente), segui meu rumo comigo mesmo. Meu carma, lembra? E foi assim que peguei o voo final.

Voo final

Não foi fácil acordar na manhã do dia 06 de julho de 2008, último dia na Europa, para pegar o voo de volta ao Brasil. Tive que apelar para o celular de um finlandês, que dividia o quarto do hostel. De lá para estação de trem e da estação para o aeroporto de Praga. Faria conexão no bom e velho Schiphol, em Amsterdam, e seguiria viagem.

No voo final, de novo o mar de nuvens

Embora seja difícil acreditar, não houve muito estardalhaço na viagem de volta. Curti a vista aérea de Praga e o curto trecho até Amsterdam. Estava exausto, mas bem aceso quando pousamos no Schiphol.

Adeus velho continente. Até breve!

Na verdade, estava eufórico, meu voo para o Brasil sairia em minutos, segundo minhas contas, e uma fila dentro do avião barrava minha passagem. Nunca corri tanto. Atravessei o maior aeroporto europeu correndo como atleta velocista e cheguei suando no meu portão de embarque. A fila já estava armada, mas tinha ainda lá meus trinta minutos.

E a água do Danúbio ficou. A primeira da minha coleção de águas, como era esperado, não passou pela inspeção rigorosa do Schiphol. Tenho que voltar para Budapeste, ou qualquer uma das sete capitais banhadas pelo Danúbio, e pegar a água de novo.

Amigas de viagem. Tour pelo Egito e curso de dança do ventre

No voo, o sotaque brasileiro reapareceu. Já não podia falar bobagem sem ser entendido, os brazucas dominavam. Conheci um pessoal gente fina que fizera uma excursão pelo Egito. E três rapazes tão sobreviventes quanto eu: pegaram um voo do Brasil para Portugal, mas foram barrados na conexão em Schiphol, ficaram três dias no aeroporto e voltaram embora!

E eu reclamando das minhas noites de sono em Guarulhos...

E foi lá que cheguei numa tarde de domingo. Faria a conexão para Foz, pegando o bom e velho 3557 da TAM. Busquei minha bagagem na esteira e a minha roleta da sorte em viagens tornou a girar. Como se voltasse ao passado e revivesse o drama de Arlanda, em Estocolmo, fui novamente premiado:

A companhia tinha perdido de novo minha bagagem!

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domingo, 15 de março de 2009

Perdido em Praga

Virei a esquerda e me deparei com outra ruela, mais a frente outra e mais outra. Um labirinto de ruas, construções antigas e chão de pedras. Estava perdido em Praga. Lindo. Se tem algo que posso recomendar ao visitante da capital checa é isso: se perca! Muito divertido andar sem destino por aquelas ruas acolhedoras.

Opções culturais de Praga. Na cidade, a regra é andar

Parecia que Praga desconfiara de minha despedida da Europa, tão calorosa fora sua recepção. A despeito do tempo fechado pela manhã, os checos não estavam. Adorei a cidade, ao lado de Estocolmo a mais bonita da viagem. E conheci algumas coisas bacanas nos dois dias que fiquei por lá.



Nas andanças encontramos coisas interessantes como as milhares de opções de marionetes

Andar sem rumo por Praga é ótimo, mas há roteiros obrigatórios, claro. Um deles, a praça velha do centro onde se concentram os turistas com sua diversidade linguística. É ótimo falar português e sair pela rua tagarelando sem que ninguém entenda. Na praça tem o relógio astronômico todo bonito e jeitoso, mas indecifrável para um turista pouco empenhado como eu. Tem também a catedral de Tyn, que, estranha, fica atrás de uma construção mais recente.

Portal para a Ponte Carlos. Espaço para comércio, turismo e contemplação

Relógio astronônico de dia e de noite

Outra parada mais óbvia é a Ponte Carlos, ou Charles Bridge, ou o mesmo nome em checo. Lindíssima, toda ornamentada com estátuas e repleta de turistas e muito comércio. A noite, há também mendigos com seu plano de marketing perfeito: de joelhos diante de um chapéu, eles ficam em posição de oração e assim permanecem imóveis. Comovente!

A Ponte Carlos a noite e de dia. Abaixo, o marketing dos mendigos locais: oração


Do outro lado do Rio Vitava, Praga mantém sua formosura. As construções, os jardins, as praças e o ótimo Museu Franz Kafka com um curioso chafariz na entrada e muita história do cidadão ilustre.

Museu Franz Kafka com uma ousada fonte

Mas o legal é andar pela cidade, não como Josef K., de O Processo, buscando por justiça. Tem que desbaratinar mesmo para encontrar as várias lojinhas com seus artesanatos espalhadas pelas ruelas. Típico. Além das matrioshkas russas, há centenas de marionetes de todos os formatos e preços. Alguns são verdadeiras obras de arte.

Simbolismo óbvio. Na nova Praga, ojeriza pelo comunismo

Assim meio an passant, também tem o Museu do Comunismo, localizado acima do McDonald's (ótimo!). Mostra bem a ojeriza da atual Praga, assim como Budapeste, pelos tempos fechados da Cortina de Ferro. O museu é ótimo, cheio de informações sobre este período da história da República Checa.

Símbolos dos tempos de Cortina de Ferro

Não me cansei de ver castelos em Viena, nem cidade medieval de Budapeste. Em Praga, no segundo dia, era a vez de conhecer o imponente castelo. Uma verdadeira cidade emparedada, com jardins, igrejas e construções fantásticas. Andar o dia todo pelas ruas do castelo foi um ótimo desfecho para uma viagem que se encaminhava para o fim.

Igreja no castelo. Mais fotos no orkut, ehhee

Cores do vitral na igreja

Senhoras em uma praça em Praga, tentativa frustrada de contato

Mas havia tempo para assistir a uma apresentação no teatro Lanterna Magika, um conceito muito interessante de teatro. Os atores contracenam com cenários e outros atores projetados em uma cortina – personagens vem e vão pelo vídeo. Muito bom.

Na Lanterna Magika, o real e o virtual se misturam

Música clássica em Praga, Mozart e Strauss no teatro. E cerveja Pilsner

E como a regra em Praga, aliás em toda Europa (mais aliás, em toda viagem), é andar, me despedi de toda essa aventura com uma boa caminhada noturna. Rumei para o hostel. No outro dia cedinho pegaria o voo de volta para o Brasil.

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Patriotismo em viagem sinistra

Depois do sistema de som da estação ferroviária de Budapeste, no último dia, e do metrô, no primeiro, a coisa mais estranha que me aconteceu foi a viagem da Hungria para República Tcheca. Estava cansado, vencido pelas horas de espera. Derrotado. Precisava de uma noite de sono para sobreviver ao próximo dia.

Estação ferroviária de Budapeste, momentos finais na cidade

Dividiria a cabine do trem com um casal de húngaros cheio de afagos. Dei uma olhada em volta e encontrei outra cabine vazia. Foi ali que me instalei. Luz apagada e corpo idem, caí no sono. Entrei em um estado de entorpecimento que me levam a duvidar se as coisas que aconteceram foram reais ou fruto da minha imaginação.

Escadas de Budapeste, a chegada foi tão bizarra quanto à saída

Calma, não foi nada demais. Lembro de um senhor barbudo, com uma bengala feita de galho de árvore. Ele entrou e conversou comigo em seu idioma próprio. Eu, meio dormindo meio acordado, respondia sem muito interesse. Ele se posicionou próximo à janela e fez um lanche.

No meio do caminho uma única foto: Bratislava, na Eslováquia.

Lembro de ser acordado com a bengala caindo forte em minha cabeça. Curva do trem, não agressividade do velho. Voltei a fechar os olhos, acordei, dormi de novo. Quando tornei a acordar o velho não estava mais na cabine.

Fazia frio, e num ato de puro patriotismo me enrolei na bandeira do Brasil. Foi assim que terminei uma curta e estranha viagem. O dia, embora chuvoso, já iluminava as vistas. Chegara na República Checa. Praga, minha última cidade na Europa.

Alemão vestindo Brasil em Praga. Enfim, a última parada

E se os leitores deste blog (os três: eu, meu sôfrego eu e meu ego) tiverem fôlego, e paciência, termino essa história nos próximos posts. Aguardem.

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quarta-feira, 11 de março de 2009

O martírio húngaro

O sistema de som tagarelava em idioma terrível. E eu estava puto. Isso é comum para um cara ansioso, impaciente e chato como eu, mas aquele dia estava particularmente puto. Era quase fim da viagem, meu último dia na capital Budapeste – o pior dia em toda Europa (tão ruim quanto à frustração de minha perda de bagagem). Conto para vocês.

Vidraça na estação de trem, símbolo do martíria húngaro

Ainda no terminal de trem, no dia do martírio húngaro, escrevi (mas não publiquei): “De antemão aviso, escrevo este post na estação ferroviária de Budapeste, estou aqui já há quase quatro horas e parece que vou ficar mais...” Não terminei o texto por falta de paciência, mas tento buscar na memória alguns lances deste dia.

Logo cedo saí para mais uma caminhada em Budapeste, nenhum roteiro específico, talvez um museu ou uma praça. Nada de especial. Mas tive que ir e vir para lá e para cá para comprar a passagem de trem rumo à próxima parada. Fiz uma coisa que não se deve fazer em metrôs europeus: não comprar o ticket.

Budapeste, último dia. Perdido

Foi uma única vez, uma só. Em todas as outras comprei o ticket direitinho, embora nunca ninguém tivesse me exigido nada. No dia em que não comprei, fruto da pressa, da correria e da safadeza, me dei mal. Ao sair do metrô uma mulher me parou exigindo o ticket. Banquei o cínico.

Mas depois de espernear, choramingar e reclamar, não teve jeito. Morri com 20 euros de multa. É mais um exemplo, as multas já estão relacionadas no best seller “Método fácil de se perder dinheiro”. É uma boa leitura, recomendo.

Estação de trem e sons incompresíveis latidos no sistema de som

Saí do metrô chutando pedras e placas. Estava puto. Andei impaciente por Budapeste até a estação ferroviária onde perdi algumas boas horas para comprar minha passagem.

Museu do Terror. Apropriado para o dia do martírio

Ainda impaciente, mas já respirando sem dificuldade, conheci o Museu do Terror, a única coisa que salvou o segundo dia em Budapeste. Na verdade o museu é excelente. Fala do período do massare promovido pelo partido nazista húngaro no fim da Segunda Guerra, a primeira fase do terror, e depois sobre o comunismo que tomou conta do país. O segundo terror. Vale muito a pena!

Praça sem sentido pra mim. Preguiça de buscar no wikipedia

De lá, caminhei até uma praça dos heróis. Um monte de estátuas e bustos de gente desconhecida. Bonita, turística, mas sem sentido. Ao menos para mim. Vá, deveria pesquisar e me comportar como um turista decente. Mas não estava com saco pra isso.

Espera, atraso, demora. Sou bom nisso

Assim como as palavras que eram vomitadas pelo sistema de som da estação ferroviária – não entendia nada. Quatro horas sentado, esperando. Trem atrasado, mundaréu de gente e aquela voz bizarra. Comi uma pizza gigante e fiquei esperando, abraçado em minha bagagem.

Adeus Budapeste. Até um outro dia (ou não)

E quando o trem enfim se afastava da cidade, olhei para trás com aquela má impressão do segundo dia em Budapeste. Injustiça, Budapeste é linda. Mas ainda volto lá, nem que seja para coletar de novo a água do Rio Danúbio. Mais a frente vocês entenderão porque.

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Sob o céu escaldante de Budapeste

Foi uma Budapeste ardente que encontrei em meu primeiro dia na capital húngara. Havia chegado tarde no dia anterior, mas a tempo de encontrar um hostel barato (leia “Sob a brisa do Danúbio”, de julho de 2008, o último post que escrevi direto da Europa). Mas ao nascer do dia, minha intenção era explorar a cidade e cruzar algumas vezes o belo Rio Danúbio.

Regata para fazer marra. Espere o fim pelo dia...

Ao fim de dois dias, quando estava indo embora de Budapeste, escreveria: “Ainda guardo nas costas a marca da aventura. Manja aquele queimado ridículo da marca da regata? Estou assim. Saí cedinho de hostel para caminhar e coloquei a camisa da seleção brasileira de vôlei, só para fazer marra. Deu no que deu. No meio do caminho tive que comprar uma camiseta dessas turísticas para proteger as costas, corria o risco de ensolação.”

Entrada da Cidadela: forte húngaro.

“Fora o pimentão do rosto e costas”, continuei em meu relato in loco, “Budapeste foi ótima em seu primeiro dia. Andei, corri de bicicleta, joguei bola, só faltou atravessar o Danúbio a nado para me candidatar às olimpíadas.”


Canhões, tortura, nazismo e comunismo: esses túneis guardam história.

De fato, Budapeste foi show de bola. A cidade é muito bonita, separada em Buda e Peste pelo Danúbio. Conheci a Cidadela, um local onde os húngaros montaram um forte de resistência na 2ª Guerra Mundial – encravado em uma montanha, o buncker é repleto de túneis. Bem cenário de games de guerra, como o ótimo Medal of Honor. Interessante.

Budapeste nas pernas

Buda e Peste separados pelo Danúbio.

Caminhar sempre foi meu forte (vocês verão bem isso no próximo especial) e em Budapeste aproveitei essa vantagem. Venci a cidade nas pernas. Foi caminhando que cheguei ao Royal Palace, sempre na margem Buda do Danúbio – Peste eu veria no outro dia. Neste dia andei feito um camelo. Ou seja, taquei um beduíno em cima das costas, tomei vinte litros de água e sai num bater de cascos pelas ruas de Budapeste.

Aos fundos do Royal Palace, uma estátua bem húngara.

Colorido na cidade emparedada.

Janela da igreja abusa de círculos nada concêntricos

Igreja colorida e estátuas. Budapeste está cheia disso

Minhas costas ardiam enquanto eu andava por aquela cidade entre paredes. Tive que me cobrir com uma camiseta turística para não sofrer de ensolação. A cidade é muito bacana, com construções coloridas, ruas labirínticas e chão coberto de pedras. Uma belíssima vista do parlamento húngaro, do outro lado do Danúbio.

Danúbio e o parlamento, mais ao fundo o Royal Palace

De lá, ainda pé ante pé, cheguei a uma ilha no meio do Danúbio, usada para recreação de budapestinos e visitantes. Um verdadeiro parque, com direito a chafariz e seu balé da águas, grandes bosques, ciclovias, e repleto de pessoas comendo lanche, tomando cerveja Soproni e caminhando.

Dança das águas num chafariz. Para refrescar a cuca e relaxar

Praticantes de Le parkour. O franceses é por minha conta

Aluguei uma bicicleta para conhecer o parque. Bonitas paisagens, franceses praticando Le parkour, senhoras sentadas em cadeiras e casais sob árvores. Encontrei um grupo de iraquianos e húngaros jogando futebol e me integrei ao time dos asiáticos. Não fiz feio: com um gol de cabeça, fechei a fatura do jogo. Quando disse que era brasileiro, o pessoal tremeu nas bases, hehehe.

"Eu não aguento eu não aguento / estou diante do Parlamento. É de noite é de dia / no Parlamento da Hungria"

O fim do ótimo dia, que infelizmente não posso detalhar por não me lembrar de tais detalhes, chegara ao fim. Foi caminhando, sempre caminhando, que atravessei mais uma vez o Danúbio e conheci o belíssimo parlamento húngaro.

Royal Palace, enfim de frente

E foi caminhando que cheguei morto de cansado ao hostel, bem longe dali. Diante do espelho conferi o estrago nas costas e me preparei para o segundo dia em Budapeste que tinha tudo para ser perfeito.

Fim de dia e um vermelhidão já realçado em braços, ombros e pescoço

Mas não foi bem assim.

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Adeus Juttel!

Vivi com meu amigo e irmão Luiz Paulo Juttel por quase um ano em Campinas. Dividíamos a mesma kitinete, fazíamos juntos o curso de inglês, o Labjor e tudo mais. Tinha hora que não podia ver a cara do catarina, mas ele é gente boa. Como o quase ano de 2007, durante o tour pela Europa fizemos uma programação casada. Mas assim como acabou nossa vida rachando apê, a aventura da dupla pela Europa também chegara ao fim.

Viena: cenário de despedidas

O cenário para despedida não poderia ser melhor: Viena. Depois de embrenharmos entre alemães e espanhóis e bebermos juntos a vitória destes últimos, depois de compartilharmos o chão público da Westbanhof, era hora de conhecermos o que a capital austríaca tinha de realmente bonito. E opções não faltam.

Alexander Dom, imponente e belíssima

A primeira coisa a se fazer, no entanto, foi encontrar um hotel de verdade. Nada de terminal público. Coisa digna! Em respeito às nossas costas, buscamos o acalento de um IBIS. Por lá vimos coisas bizarras como um grupo de mulheres fazendo uma espécie de treinamento-dança-marcha sei-lá-o-que na recepção. E de lá, enfim, fomos conhecer o mundo preservado na redona de vidro da capital austríaca.

No interior escuro e gótico. Alexander Dom impressiona

Viena, redundante dizer, é linda. E parte dessa beleza está espelhada na imponente Alexander Dom, a catedral no centro da Alexander Platz. Belíssima, escura e gótica, parada obrigatória para os turistas na cidade. O centro de Viena, aliás, é bastante cultural. Uma caminhada e você dá de encontro com uma asiática dedilhando um piano. Rapsódia Húngara, lindo. Um pouco mais e encontramos pessoas se apresentando na rua e jornaleiros com exemplares do Kronen Zeirung debaixo do braço. Quase uma Boca Maldita, no coração de Curitiba, mas com ares europeus.

Música e cultura na Alexander Platz, a Boca Maldita com sotaque austríaco.

Conhecemos os gigantescos jardins do Palácio de Schönbrunn e arriscamos o mesmo roteiro do dia anterior. Castelos, palácios e praças colossais, mas sem o colorido da final de campeonato. O amarelo de fim de tarde anunciava o tardar da hora, mas ainda dava tempo de passar no bacaninha museu Albertina, com algumas exposições modernas de Paul Kee, as figuras de Oscar Kokoschka e clássicos belíssimos de Monet a Picasso. Show. Ali pertinho, era hora de dizer adeus.

Palácio de Schönbrunn: jardins e labirintos

Castelos gêmeos, um diante do outro. Passeio por Viena sem o auê da final de campeonato

No Albertina: Paul Kee, Oscar Kokoschka, Monet e Picasso

E para quem passou por toda Europa (uma parte dela, vá lá) provando as cervejas aqui e ali, nada melhor à dupla dinâmica brindar a separação com cevada. Em Viena, Ottakringer, uma cerveja de estudantes. Bem boa.

Um brinde a Juttel! Ottakringer, cerveja de estudantes. Veja aqui

Juttel estava apressado, e meio perdidão (assim como eu). Meio litro de Ottakringer não é para iniciantes. Meio cambaleando ele correu para sua condução e eu fui dar mais uma volta pela cidade. A despedida foi meio assim, também na correria – abraço apertado e até logo. “Nos vemos em Praga”, disse ele.



Mas eu não o veria mais, nem na Europa nem no Brasil. Tinha outros planos para meu fim de viagem...

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